terça-feira, 26 de agosto de 2025

IGREJA

 

As noites escuras da alma: quando a dor pede paciência e a esperança se fortalece

As noites escuras que todos nós enfrenamos. Saber lidar com estes momentos é indispensavel para o bem estar.

Todos nós, em algum momento, atravessamos períodos que parecem mais longos que o normal, em que a vida perde a cor, o coração pesa e a mente se enche de perguntas sem resposta. É como se a alma fosse envolta por uma escuridão que não deixa enxergar o caminho. Os místicos chamaram essa experiência de “noite escura da alma” — e ela continua profundamente atual, especialmente em tempos de ansiedade, solidão e incertezas.

Na psicologia, sabemos que existem fases em que a mente entra em um processo de esgotamento, pedindo pausa, silêncio e interioridade. Nem sempre é depressão ou doença; muitas vezes é uma travessia existencial, um chamado para rever prioridades, aceitar vulnerabilidades e aprender a sustentar a vida sem os apoios habituais. Esse “vazio” pode ser doloroso, mas também pode se tornar fértil, quando acolhido com paciência.

Santa Faustina Kowalska viveu intensamente essa realidade. Em seus escritos, narra momentos de desolação espiritual tão profundos que acreditava estar abandonada por Deus. Porém, mesmo quando não sentia nada além de escuridão, ela escolhia confiar. Sua experiência nos lembra que fé não é ausência de dor, mas decisão de caminhar mesmo quando não se vê a estrada. Psicologicamente, é como ativar a resiliência: sustentar-se em valores, em propósitos, em vínculos que nos lembram que o sofrimento não define toda a nossa existência.

Nesses períodos, pode parecer que nada faz sentido. A oração soa vazia, a mente questiona, o coração se fecha. Mas, tanto do ponto de vista espiritual quanto psicológico, esse processo não é inútil: é uma espécie de “poda” interior que prepara a alma para novos frutos. O que a psicologia chama de processo de ressignificação, a espiritualidade reconhece como purificação do coração.

O essencial é não desistir. A noite escura, por mais longa que pareça, nunca é definitiva. O amanhecer chega. Aos poucos, a vida recupera cores, a fé reencontra consolo e a mente descobre novos significados.

Se você atravessa a sua noite escura, lembre-se: não é fracasso sentir dor, vazio ou confusão. É parte do caminho humano e também do caminho espiritual. Permita-se viver esse processo com paciência, cuide da sua saúde emocional, busque apoio se necessário, e confie que dentro de você existe uma força maior do que qualquer sombra.

Afinal, nenhuma noite é capaz de impedir o nascer do sol. E, muitas vezes, é justamente na escuridão que se prepara a luz mais intensa.

Basta esperar e confiar.

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IGREJA

 Uma “flecha divina” marcou o coração de santa Teresa D’Ávila e sua autópsia confirmou

Hoje (26), os carmelitas celebram a festa da transverberação do coração de santa Teresa de Jesus, isto é, quando teve o coração transpassado. A santa relatou em seus escritos essa experiência mística que marcou profundamente seu coração e a levou a fazer um voto especial a Deus que a impulsionou em suas reformas, fundações e caminho de santidade.

A santa e escritora mística conta que certa vez viu à sua esquerda um anjo em forma humana. Era de baixa estatura e muito belo, seu rosto reluzia e deduziu que devia ser um querubim, um dos anjos de mais alto grau.

“Vi que trazia nas mãos um comprido dardo de ouro, em cuja ponta de ferro julguei que havia um pouco de fogo. Eu tinha a impressão de que ele me perfurava o coração com o dardo algumas vezes, atingindo-me as entranhas. Quando o tirava, parecia-me que as entranhas eram retiradas, e eu ficava toda abrasada num imenso amor de Deus”, descreveu santa Teresa.

A dor era tão grande que eu soltava gemidos, e era tão excessiva a suavidade produzida por essa dor imensa que a alma não desejava que tivesse fim nem se contentava senão com a presença de Deus”.

“Não se trata de dor corporal; é espiritual, se bem que o corpo também participe, às vezes muito. É um contato tão suave entre a alma e Deus que suplico à Sua bondade que dê essa experiência a quem pensar que minto”, explicou a Doutora da Igreja (O Livro da Vida 29,13).

Este tipo de vivência espiritual é chamado na Igreja como “transverberação”, que é a experiência mística de ser transpassado no coração causando uma grande ferida.

Mais tarde, buscando responder a este presente divino, santa Teresa fez o voto de fazer sempre o que parecesse mais perfeito e agradável a Deus. Foi assim que no resto de sua vida, a reformadora e fundadora carmelita se esforçou por cumprir perfeitamente este juramento.

Quando a santa morreu, a autópsia revelou que no seu coração estava a cicatriz de uma grande e profunda ferida. Como legado, a Doutora da Igreja também deixou plasmada sua experiência mística na seguinte poesia de amor, intitulada “Meu Amado é para mim”:

Entreguei-me toda e assim
Os corações se hão trocado
Meu Amado é para mim,
E eu sou para o meu Amado.
Quando o doce Caçador
Me atingiu com sua seta,
Nos meigos braços do Amor
Minh'alma aninhou-se quieta.
E a vida em outra, seleta,
Totalmente se há trocado:
Meu amado é para mim,
E eu sou para meu Amado.
Era aquela seta eleita
Ervada em sulcos de amor,
E minha alma ficou feita
Uma com o seu Criador.
Já não quero eu outro amor,
Que a Deus me tenho entregado:
Meu Amado é para mim,
E eu sou para meu Amado.

SANTO DO DIA

 Hoje é dia de santa Teresa de Jesus Jornet e Ibars, padroeira dos idosos

A Igreja celebra hoje (26) santa Teresa de Jesus Jornet e Ibars, freira espanhola que se santificou no serviço aos idosos em estado de abandono. Em 1873 fundou - junto com o padre Saturnino López Novoa - a congregação religiosa das Irmãzinhas dos Anciãos Desamparados, na cidade de Barbastro, Huesca, Espanha. No Brasil, a congregação cuida de quatro lares de idosos no Estado de São Paulo.

O trabalho se espalhou rapidamente, floresceu e deu frutos abundantes, a tal ponto que, com a morte de madre Teresa, a congregação era responsável por 103 lares de idosos, distribuídos entre a Espanha e a América.

O bem é contagioso

Teresa Jornet nasceu em Aitona, Lérida, Espanha, no dia 9 de janeiro de 1843, numa família profundamente católica. Prova disso são as muitas vocações que floresceram no seio da família. Duas de suas irmãs também foram religiosas: uma delas, Josefa, entrou para as Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo e serviu por muitos anos num hospital em Havana, Cuba; a outra ingressou na Congregação fundada por Teresa. Finalmente, três filhas de seu irmão também fizeram parte de sua comunidade.

Inicialmente Teresa estudou para ser professora na cidade de Lérida. Ao se formar, foi convidada por um tio seu, o beato padre Francisco Palau y Quer - carmelita descalço exclaustrado - para trabalhar no Instituto das Irmãs Terciárias Carmelitas, por ele fundado. Teresa trabalhou ali com dedicação, mas ainda sem considerar a vida religiosa como opção para a sua vida.

“Que queres que te faça? (Mc 10, 51-52)

O chamado vocacional veio depois. Teresa descobriu-se chamada à vida contemplativa e pediu para entrar no mosteiro das Clarissas de Briviesca, em Burgos, Espanha, em 1872. No entanto, não fez os votos e voltou à casa da família. Depois desses acontecimentos, ela reconsiderou seu caminho e decidiu tornar-se carmelita terciária para se dedicar ao ensino.

Em junho do mesmo ano, Teresa fez uma viagem com a mãe às águas termais de Estadilla, Huesca. Durante a viagem de volta, Teresa parou em Barbastro, localidade onde conheceu o beato Saturnino López Novoa que, com um grupo de amigos sacerdotes, se dedicava a cuidar de idosos abandonados.

Teresa viu naquela nobre obra um sinal, algo que lhe indicava o caminho que procurava. Talvez, pela primeira vez, o futuro parecia mais claro e brilhante. Ela percebeu que era o próprio Cristo quem lhe pedia para se doar assim aos outros.

A caridade assistencial e o seu sentido

Pouco depois, em 11 de outubro de 1872, Teresa voltaria a Barbastro, desta vez para ficar. Ela chegou acompanhada de sua irmã Maria e da amiga Mercedes Calzada. Seu propósito era integrar o grupo das primeiras aspirantes, liderado pelo padre Saturnino. Teresa seria nomeada superiora daquela primeira comunidade feminina.

Depois, a santa recebeu oficialmente, das mãos do beato Saturnino, as constituições que regeriam a vida daquelas mulheres. Poucos meses depois, em 27 de janeiro de 1873, ocorreu a fundação da Congregação das Irmãzinhas dos Anciãos Desamparados.

Em maio de 1873, as irmãzinhas chegaram a Valência, sempre acompanhadas pelo padre Saturnino, a pedido da Associação dos Católicos da cidade. A ideia era começar o trabalho de ajuda aos idosos abandonados.

A espiritualidade desta congregação, concebida e forjada pelos seus santos fundadores, consiste em acolher os idosos mais pobres e integrá-los no ambiente familiar, atendendo às suas necessidades materiais e espirituais. Nas palavras de Teresa, trata-se de: “Cuidar dos corpos para salvar as almas”.

Teresa de Jesus Jornet e Ibars foi superiora-geral de sua congregação até o dia de sua morte, ocorrida em Liria, Valência, em 26 de agosto de 1897. Tinha 54 anos.

O caminho do amor aos mais frágeis

Teresa de Jesus Jornet e Ibars foi beatificada em 27 de abril de 1958 pelo papa Pio XII, apenas 50 anos depois da sua morte.

O papa são Paulo VI a canonizou em 27 de janeiro de 1974. Na homilia da missa de canonização, o papa disse: “Teresa Jornet tinha algo, misterioso por assim dizer, que nos atrai. Ao seu lado sente-se essa presença inefável da Vida que a sustentou e a encorajou em seus esforços de consagração a Deus e ao próximo, guiando-a no caminho concreto da assistência caritativa. O fruto do enorme trabalho realizado por tão humilde freira se concretizou de forma admirável, mas sem clamor externo. A obra da graça sempre será algo misterioso.”

Atualmente, as Irmãzinhas dos Anciãos Desamparados contam com 204 lares distribuídos em 19 países, incluindo Alemanha, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Espanha, Filipinas, Guatemala, México, Moçambique, Peru e Paraguai.

LITURGIA DIÁRIA

Evangelho de terça-feira: atuar apenas por amor

Comentário ao Evangelho de terça-feira da XXII semana do Tempo Comum. «Limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo». Quando se ama de verdade, dá-se com alegria, sem ter em conta e sem procurar agradecimento: é suficiente a oportunidade de se gastar com gosto!


 Evangelho (Mt 23, 23-26)

Naquele tempo, disse Jesus:

«Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque pagais o dízimo da hortelã, do funcho e do cominho, mas omitis as coisas mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Devíeis praticar estas coisas, sem omitir as outras. Guias cegos! Coais o mosquito e engolis o camelo.

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, que por dentro estão cheios de rapina e intemperança. Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo».


Comentário

Este Evangelho de hoje forma parte do discurso dos "ais" no qual Jesus explica a consequências derivadas de um mero cumprimento externo da Lei. Há um qualificativo de Jesus que se repete: hipócritas e cegos. O hipócrita é o que diz uma coisa, mas faz outra, comporta-se como um ator na vida real. E o hipócrita facilmente altera interiormente o seu coração e converte-se em cego. Altera do seu modo de ver as coisas, acomoda-as às suas circunstâncias pessoais, pensa em si mesmo segundo a sua própria conveniência e esta atitude leva-o à cegueira.

Os escribas e os fariseus realizam ações externas, como pagar o dízimo, limpar o copo e o prato, etc., mas fazem-no para serem vistos pelos outros. Todas estas obras são boas. Mas a atitude interior é egoísta. Não o fazem por amor, misericórdia ou por fidelidade, tal como indica Jesus. Estas são o coração da Lei, o motivo pelo qual se realizam as ações exteriores.

Aos olhos de Deus a interioridade tem primazia sobre a exterioridade. As nossas ações exteriores são consequência da nossa interioridade. Fazemo-nos santos purificando as nossas intenções, lutando por escolher o bem, fomentando o desejo de amar a Deus sobre todas as coisas. Portanto, o que fazemos exteriormente é causado pelo coração. Como diz o Papa Francisco: «A fronteira entre o bem e o mal não passa fora de nós mas, ao contrário, dentro. Então podemos interrogar-nos: onde está o meu coração? (...). Sem um coração purificado, não podemos ter mãos verdadeiramente limpas, nem lábios que pronunciam palavras de amor sinceras – tudo é falso, uma vida ambígua – lábios que pronunciam palavras de misericórdia, de perdão. Isto só pode ser feito por um coração sincero e purificado»[1].

O Evangelho conserva sempre a sua atualidade palpitante. Por isso, podemos perguntar-nos se também a nós nos sucede o mesmo que aos escribas e aos fariseus: o que é que me move a realizar uma dada ação? O amor a Deus e aos outros, ou a minha própria satisfação pessoal? S. Josemaria alentava-nos dizendo: «quando se ama a Deus com sinceridade não se regateia a entrega, o amor, que vai aparecendo em mil pormenores diários. E quando se ama de verdade, dá-se com alegria, sem ter em conta e sem procurar agradecimento: é suficiente, então, para a alma, a oportunidade de se gastar com gosto!»[2]. Peçamos à nossa Mãe Santa Maria ajuda para atuar sempre por amor a Deus e ao próximo.

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

IGREJA

A conexão entre o Tempo Comum e os anos ocultos de Jesus



 A normalidade da infância, adolescência e início da idade adulta de Jesus fornece amplo material para meditação

Para muitos de nós, o Tempo Comum pode parecer literalmente “comum” e sem nada de particularmente especial. Afinal, desfrutamos intensamente das belas épocas da Páscoa e do Natal, e, talvez, diante delas, o Tempo Comum não desperte os mesmos sentimentos. Por consequência, o Tempo Comum acaba sendo frequentemente negligenciado.

No entanto, esta época do ano litúrgico tem um grande potencial e pode proporcionar-nos uma visão profunda da nossa própria vida.

Um tópico para meditação durante esta época é focar nos “anos desconhecidos” da vida de Jesus. Os relatos dos Evangelhos se concentram quase exclusivamente nos últimos três anos do Seu ministério e quase não nos dão detalhes dos seus primeiros trinta anos.

Acontece que esses anos ocultos guardam conexão com a nossa própria vida “comum”. Durante a maior parte da sua vida, Jesus partilhou a condição da grande maioria dos seres humanos: uma vida quotidiana sem grandiosidade aparente; uma vida de trabalho braçal (cf. Catecismo da Igreja Católica, 531). A vida oculta em Nazaré permite que todos nós entremos em comunhão com Jesus pelos acontecimentos mais comuns da vida diária (cf. Catecismo, 533).

Jesus, portanto, santificou a vida “comum”, mostrando-nos que o Reino de Deus é acessível a todos, independentemente das circunstâncias de cada um. O ponto-chave é percebermos que a nossa vida pode ser santificada quando convidamos Deus a entrar nela. Mesmo as tarefas mais singelas podem ser transformadas numa bela oferta para Deus.

Santa Teresinha de Lisieux era perita neste “pequeno caminho” de santidade. Ela escreveu, na sua "História de uma Alma":

"Acima de tudo, esforcei-me para praticar pequenos atos ocultos de virtude; alegrei-me, portanto, em dobrar os mantos esquecidos pelas irmãs e procurei em todas as ocasiões possíveis ajudá-las".

Uma tarefa comum pode transformar-se em oportunidade de amor extraordinário.

Se você está procurando algo para meditar durante o Tempo Comum, pondere sobre os anos ocultos de Jesus, sobre como Ele santifica o cotidiano e sobre como você mesmo pode transformar cada aspecto da sua vida num sacrifício a Deus.