sexta-feira, 27 de março de 2026

IGREJA

 

“Lectio divina ontem e hoje”



É uma leitura da Sagrada Escritura à luz de Deus

Eis o título de um importante livro publicado pelas Edições Subiaco, de Juiz de Fora, MG (4ª edição ampliada, 2017, 216 págs.), e que será apresentado neste artigo.

Reúne as maiores autoridades no assunto: Guigo II, o cartuxo, Enzo Bianchi, Giorgio Giurissato, Albert Vinnel e Irineu Resende Guimarães. Embora cada autor tenha o seu modo próprio de expor a Lectio, é Guigo II, o nono prior da Grande Cartuxa, do século XII, quem dá o tom ao livro. Afinal, sua Carta sobre a vida contemplativa ou Escada dos monges “é um clássico da espiritualidade monástica, enquanto retoma e sistematiza os ensinamentos da tradição monástica anterior sobre a lectio divina, e enquanto guiou gerações de monges nos caminhos da oração interior, como o testemunha o grande número de manuscritos que chegaram até nós” (p. 9).

Daí a importante questão: que é lectio divina e como se faz? – Respondemos que é a leitura orante da Palavra de Deus. Isso devido ao valor da Sagrada Escritura em si (cf. Dei Verbum, 21, p. 138-139). É uma leitura da Sagrada Escritura à luz de Deus (cf. p. 119, 191, 201 e 206). Faz-se por meio de quatro passos que, de acordo com Guigo II, formam “a escada dos monges, que os eleva da terra ao céu” (p. 16). 

Vejamos cada degrau, segundo a exposição do cartuxo: “a leitura é o estudo assíduo da Escritura, feito com aplicação do espírito. A meditação é uma ação deliberada da mente, a investigar com a ajuda da própria razão o conhecimento de uma verdade oculta. A oração é uma religiosa aplicação do coração a Deus, para afastar os males ou obter o bem. A contemplação é uma certa elevação da alma em Deus, suspensa acima dela mesma, e degustando as alegrias da eterna doçura” (p. 16-17). E completa: “a leitura é feita segundo um exercício mais exterior; a meditação, segundo uma inteligência mais interior; a oração, segundo o desejo; a contemplação passa por cima de todo sentido. O primeiro degrau é dos principiantes; o segundo, dos que progridem; o terceiro, dos fervorosos; o quarto, dos bem-aventurados” (p. 28).

As bases bíblicas para a prática da leitura orante da Escritura estão, segundo Enzo Bianchi, no capítulo 8 do livro de Neemias e em 2 Timóteo 3,14-16 (cf. p. 116). Note-se ainda que a Lectio se faz útil para posteriores preparações de homilias, à luz da chamada exegese canônica, ou seja, a da interpretação da Escritura pela própria Escritura, sem interpolações ideológicas estranhas (cf. p. 38, 40). É Bianchi mesmo quem afirma: “que a passagem [bíblica] se auto interpreta. A Escritura é a intérprete da Escritura. Este é o grande critério rabínico e patrístico para a lectio divina” (p. 123). Ainda: se os clérigos não praticam a Lectio divina, “serão na sua pregação, em seu magistério e em sua pastoral, homens superficiais, inseguros, às voltas com problemas, incapazes de dizer uma palavra que tenha ‘autoridade’, porém semelhante aos escribas (cf. Mt 7,28), enrubescendo muitas vezes com o Evangelho que eles anunciam (cf. 2Cor 3,12; 4,2; Rm 1,16)” (p. 45).

Certo é que para se fazer uma Lectio proveitosa deve-se ter: 1) as luzes do Espírito Santo. Sem Ele, assevera Irineu Resende Guimarães, “será apenas uma leitura de um texto qualquer. Só com a ajuda e a presença do Espírito Santo é que a nossa leitura será propriamente ‘divina’” (p. 209) e 2) o estudo capaz de levar o fiel a penetrar o sentido profundo do texto bíblico que é, sem dúvida, espiritual, mas foi escrito na linguagem humana de um contexto histórico determinado. Faz-se, pois, oportuno – de acordo com Albert Vinnel – entender, ainda que sucintamente, de História, Filologia, Patrologia etc. (cf. p. 181), sem, contudo, cair no intelectualismo (cf. p. 43). Prefira-se sempre a Bíblia de Jerusalém, por seus textos paralelos e notas explicativas (cf. p. 123).

Finalizando, importa dizer que, às vezes, Deus parece mostrar-Se ausente na meditação. Deve-se perseverar firme, pois tudo isso é para o bem espiritual do fiel (cf. Rm 8,28). Ele consola, mas também “afasta-se por cautela, a fim de que a grandeza da consolação não te ensoberbeça, evitando que a presença contínua do Esposo, te leve a desprezar as companheiras e atribuas a consolação não à graça, mas à natureza” (p. 25).


ESPIRITUALIDADE

 

Como se libertar do peso da culpa? Um Padre do Deserto ensina



Um monge que viveu século IV fala sobre o pecado e a penitência: como se libertar do turbilhão de sentimentos ruins que toma conta da pessoa depois de um pecado?

OAbade Lot, um eremita do deserto egípcio, um dia recebe a visita de um irmão muito agitado. Ele percebe que algo está errado:

"Contou-se de um irmão que cometeu um erro que, ao ir ver o Abade Lot, ficou perturbado, entrando e saindo, sem conseguir sentar-se. E o Abade Lot disse-lhe: "Qual é o seu problema, irmão?" Ele respondeu: “Cometi uma grande falta e não posso confessá-la aos Padres”. O velho disse-lhe: “Confesse-me e eu o ajudarei”. E ele lhe disse: “Caí em fornicação..."

O velho disse-lhe: "Tem fé: a penitência é possível. Vá, sente-se na caverna, coma sozinho dia sim, dia não, e eu carregarei com você metade da sua culpa. Depois de três semanas, o velho teve certeza de que Deus havia aceitado a penitência do irmão. E ele permaneceu submisso ao ancião até sua morte. 

Distribuição de culpa

Em resposta à pergunta direta do ancião, ele finalmente abriu seu coração e confessou um pecado grave e sua incapacidade de falar sobre isso com os monges da comunidade. Lot não hesitou e se ofereceu para ouvir seu pecado, acrescentando a promessa de “ajudá-lo”. Carregar significa assumir o fardo, assumir a vergonha, como se a culpa fosse sua - sem nenhuma sombra de julgamento.

O outro homem, tranquilizado, confessa: teve relações sexuais com uma mulher da cidade vizinha e, o que é mais grave, consentiu numa prática idólatra que ela deve ter-lhe exigido antes de ceder. Depois de se confessar, aguardou a penitência que lhe seria imposta e estava arrependido.

A penitência é séria, mas não terrível: ele deveria ficar longe de casa e comer dia sim, dia não - a duração da provação não é fixa - mas Abade Lot concorda em seguir o mesmo jejum que ele para "carregar" a culpa de seu penitente, como ele havia prometido. Depois de três semanas, o pecado foi perdoado.

Contribua para a sua recuperação

Essa história teria acontecido numa época em que não existia a absolvição sacramental ou, mais precisamente, em que se limitava aos crimes públicos e, portanto, reservada ao bispo. Mas ele seguiu o mesmo caminho que nós na penitência: passar do peso da consciência e do desconforto à verdadeira contrição, confessando a sua culpa para se humilhar, mas, ao mesmo tempo, para mostrar que está se afastando do seu pecado, aceitando a “reparação.”

Tudo isso foi possível graças à intervenção do Abade Lot, que mostrou-se cheio de bondade, mas também de firmeza: não se contentou com algumas palavras tranquilizadoras, mas tomou o seu lugar no processo de libertação, levando literalmente o seu penitente até ao fim da cura. 

Isso é o que nos é oferecido em cada confissão, com a certeza de que a absolvição nos dá a segurança de termos verdadeiramente regressado à graça de Deus.