A primeira escola da fé é o lar: como cultivar
a espiritualidade dos filhos
Observar as crianças diante do mundo é contemplar a forma mais pura de poesia. Os pequenos possuem um olhar curioso, capaz de enxergar beleza onde a correria dos adultos só vê rotina. Eles têm a capacidade natural de se maravilhar com a vida. Na sociedade contemporânea, marcada pela pressa e por preocupações materiais, corre-se o risco de esquecer que educar um filho exige cuidar de algo além do corpo e do intelecto: é preciso nutrir a alma. A verdadeira espiritualidade infantil não nasce de discursos abstratos, mas da experiência afetuosa de se sentir amado e acolhido no mistério da existência.
Muitas vezes, confunde-se espiritualidade com religião. Embora conectadas, são dimensões distintas. A espiritualidade é intrínseca a todo ser humano e diz respeito à busca de sentido, à interioridade, à gratidão e ao amor. Na infância, ela se manifesta na curiosidade e no ato de brincar. “Na infância, a espiritualidade é vivenciada de forma muito natural. Ela se manifesta na curiosidade da criança, no encantamento diante da vida, na capacidade de admirar a natureza, de brincar, de criar vínculos e de experimentar o amor”, explica Jaqueline Santana Pinto, integrante da Rede Global de Religiões pela Criança. Para ela, a criança vive sua espiritualidade quando se sente respeitada e incentivada a descobrir o mundo com alegria.
Tudo começa na família! - não é um clichê
A família é a primeira escola dessa vida interior. Mais do que palavras, o que marca a infância é o testemunho. A criança aprende a olhar o próximo ao observar como os pais perdoam e acolhem. Essa construção começa muito cedo, acompanhando o ser humano desde o ventre materno. “A espiritualidade da criança é parte central do seu desenvolvimento. Sabemos que para caminhar e falar a criança precisa ser estimulada; a partir dessa lógica, vê-se a importância dos pais. Quando os pais inserem a criança nas suas atividades de fé em Deus, confiança na graça, inseridos na comunidade com gestos de partilha, respeito ao próximo, cuidado com a natureza, a criança aprende imitando as atitudes dos pais”, pontua Maria Alves Benevenuto, coordenadora diocesana da Pastoral da Criança de Umuarama.
Cultivar a vida interior fortalece o equilíbrio emocional e a autoestima, oferecendo às crianças ferramentas de esperança e resiliência. Além disso, a espiritualidade funciona como um potente escudo de proteção. Quando ensinamos ao pequeno que sua vida tem valor e que seu corpo e sentimentos merecem respeito, fortalecemos fatores de prevenção contra todas as formas de violência. Essa consciência desperta nos adultos a responsabilidade ética de cuidar e proteger a infância. Os pais podem cultivar essa dimensão em atos simples: ao agradecer pelo alimento, celebrar conquistas, escutar as dúvidas infantis e cultivar a paz no lar por meio da não violência e do perdão.
O valor da Casa Comum! A natureza como mãe desde a infåncia
Outro pilar essencial é a conexão com a “casa comum”. Ensinar as crianças a cuidar das plantas, dos animais e do meio ambiente é educá-la para a fraternidade universal. Quando ela percebe que tudo na criação está interligado, desenvolve a empatia. “A espiritualidade com as crianças pode ser vivida de forma simples, alegre e cheia de significado. Ela começa no coração, quando a criança aprende a reconhecer o bem, a agradecer pelas pequenas coisas e a perceber que não está sozinha. Por meio de gestos de partilha, de ajuda ao próximo e de respeito à natureza, a criança descobre que existe um amor maior que cuida de tudo e de todos”, ressalta Maria Inês Monteiro de Freitas, coordenadora nacional da Pastoral da Criança. Ela lembra: “Espiritualidade é conexão comigo, com o outro e com o mundo”.
Esse olhar de encantamento é nutrido pela contemplação das coisas simples. Para Dom Frei Severino Clasen, arcebispo de Maringá (PR) “a espiritualidade infantil pode ser despertada através da curiosidade e da imaginação da criança. Quando a criança observa o céu, as estrelas, os animais, começa a perceber a beleza da criação em cada detalhe”, reflete o bispo. Dom Severino recorda que a fé cresce na convivência diária: “A espiritualidade cresce quando a criança se sente amada e aprende a amar. Pequenos gestos do dia a dia, como pedir desculpas, dizer obrigado e acolher o outro, são sementes de espiritualidade que florescem ao longo da vida”.
Resgatar a dimensão espiritual das crianças é um compromisso com o futuro. Não se trata de impor obrigações rígidas, mas de abrir espaço para que a ternura, a gratidão e a fraternidade encontrem solo fértil. Ao garantirmos que cada menino e menina cresça acolhido por um amor generoso, oferecemos a eles a certeza de que a vida é um dom sagrado, feito para ser partilhado com paz e alegria.


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