terça-feira, 10 de março de 2026

IGREJA

 

Propósitos de vida: será que eu posso mudar? Mas como?

Os propósitos devem ser poucos, estar ancorados no coração e surgir da vida

ais um ano está para terminar a continuamos ancorados nos mesmos defeitos. Como trocar de pele, revestir-se de Cristo?

Vemos no espelho aquela pessoa que podemos chegar a ser. Deus nos criou muito bem: colocou na alma uma grande capacidade de amar. Isso é um dom, mas que podemos guardar, esconder de maneira egoísta, protegendo-nos para não ter de dar a vida.

Mas também podemos romper as nossas barreiras egoístas e sair de nós mesmos. Podemos ser muito mais do que somos hoje. O que nos alegra o coração? Que ideais nos levam a doar-nos mais, a dar-nos por inteiro?

Zona de conforto

Passamos a vida inteira fazendo as coisas de uma determinada maneira, mas podemos mudar, melhorar, inventar coisas novas. Por que não? Podemos sair da nossa zona de conforto.

Mas surgem perguntas em nosso interior: é possível? Posso mudar? É necessário inovar? Vale a pena? Fazer propósitos serve para alguma coisa?

Sim, vale a pena, mas é melhor fazer poucos propósitos e dedicar-se a eles com vida e coragem. Propósitos que estejam ancorados no coração e surjam da vida. Só assim seremos capazes de levá-los a cabo com força, vontade e alma.

Sem esta atitude interior, sem esse amor do coração, é impossível que os propósitos superem os obstáculos do começo de ano. Por isso, queremos ser realistas e sonhadores. Fazer propósitos firmes, do mais profundo da nossa alma.

Este ao que começou nos dá a oportunidade de agradecer olhando o passado, e confiar olhando o futuro.

Vida plena

Olhamos para a frente para projetar-nos e ansiar por uma vida mais plena. Sim, um ano em branco para preencher. Com todas as páginas prontas para começar a escrever.

É tempo de sonhar e orar: “Quero dedicar-te este novo ano. Quero colocar todos os dias nas tuas mãos e submetê-los à tua vontade. Que cada esforço, cada passo, cada meta e cada aspiração sejam para a tua glória. Continua guiando-me. Ajuda-me a crescer espiritualmente e, assim, poder conhecer-te melhor”.

“Eu te dedico o meu trabalho, os meus talentos, minhas habilidades. Minha saúde e a dos meus entes queridos. Senhor, dá-me da tua força e sabedoria, para viver cada dia melhor. Meu desejo é adorar-te e exaltar o teu nome. Meus dias são teus e me alegro em confiar em que Tu estarás comigo neste novo ano.”

Vontade divina

Sim, desejamos muitas coisas. Queremos crescer e ser pessoas melhores, mais santas, mais de Deus. Desejamos que nossa vida seja guiada pela vontade divina e, assim, poder ser felizes e viver em sua paz cada dia. Neste novo ano, não são as coisas ao nosso redor que precisam mudar: somos nós que precisamos de uma transformação interior.

Podemos mudar nosso olhar e pedir a Deus um olhar puro, para ver a bondade que existe em cada pessoa. Podemos mudar a atitude que nos levava a reclamar do que nos falta, ao invés de agradecer pelo que temos. Podemos mudar nosso rosto, para que, ao invés de impaciência e indignação, reflita paz e alegria.

É preciso transformar o coração.

RELIGIÃO

 

Quaresma não é um mero intervalo no calendário. O que muda?

Para viver este período em plenitude, a Igreja oferece orientações que tocam a liturgia, a espiritualidade e a prática cotidiana

Tempo da Quaresma não é um mero intervalo de quarenta dias no calendário, mas um tempo favorável, um "sinal sacramental" de conversão. Sua finalidade é preparar a celebração do Mistério Pascal — a paixão, morte e ressurreição de Cristo.  

Caminho de penitência

A Quaresma assenta em dois pilares fundamentais que devem guiar todas as celebrações e reflexões: Primeiramente a dimensão batismal, pois, para os catecúmenos, é o tempo da purificação e iluminação antes dos sacramentos da iniciação na Vigília Pascal. Para os já batizados, é o tempo de "recordar o Batismo", renovando os compromissos assumidos e redescobrindo a identidade de filhos de Deus; a outra dimensão é aquela penitencial, marcada pelo esforço de conversão, a metanoia (mudança de mente). A penitência quaresmal não deve ser apenas interna e individual, mas também externa e social, voltada para o próximo e para a comunidade. 

As normas litúrgicas

A sobriedade é a marca registrada da liturgia quaresmal. De acordo com a Instrução Geral do Missal Romano (IGMR), existem orientações específicas para o espaço celebrativo e para os ritos: 

Omissão do Aleluia: O "Aleluia" é omitido em todas as celebrações, mesmo nas solenidades e festas, desde o início da Quaresma até a Vigília Pascal. O Versículo antes do Evangelho é substituído por outras aclamações a Cristo. 

O Glória: O hino Glória in excelsis não é dito nem cantado, exceto nas solenidades (como São José e a Anunciação do Senhor). 

Ornamentação e Música: Durante este tempo, é proibido adornar o altar com flores. O som dos instrumentos musicais (órgão, etc.) é permitido apenas para sustentar o canto, respeitando o caráter penitencial do tempo. A exceção ocorre no IV Domingo (Domingo Laetare), em solenidades e festas. 

Cores Litúrgicas: O uso da cor roxa simboliza a penitência e a espera. No quarto domingo, pode-se usar o rosa (rosáceo), sinal de uma alegria discreta pela proximidade da Páscoa. 

Os 40 dias

A Quaresma estende-se da Quarta-feira de Cinzas até a Missa da Ceia do Senhor (Quinta-feira Santa), inclusive. As cinzas simbolizam a fragilidade humana e o arrependimento. Ao recebê-las, o fiel ouve o convite: "Convertei-vos e acreditai no Evangelho"; o itinerário de 40 dias recorda o período em que Jesus esteve no deserto como  um convite ao silêncio interior e à vitória sobre as tentações através da Palavra de Deus. 

Práticas quaresmais

A espiritualidade quaresmal é sustentada por três práticas clássicas, que devem ser vividas não como obrigações legais, mas como exercícios de liberdade: 

Oração: Intensificar o diálogo com Deus para alinhar a vontade humana à divina. 

Jejum e Abstinência: O jejum (obrigatório na Quarta-feira de Cinzas e Sexta-feira Santa) e a abstinência de carne (nas sextas-feiras da Quaresma) visam o domínio dos impulsos e a solidariedade com os que passam fome. 

Esmola (Caridade): A conversão deve florescer em atos concretos de amor e justiça social. 

Leituras da Quaresma

A liturgia da Palavra na Quaresma é uma verdadeira catequese. Nos anos A, B e C, os evangelhos percorrem desde as tentações e a transfiguração até os grandes temas batismais (a água viva, a luz, a vida) e o anúncio da Paixão. As leituras diárias são selecionadas para exortar à conversão, à justiça dos profetas e à misericórdia evangélica. 

O objetivo final da Quaresma não é a dor, mas a Páscoa. O caminho penitencial é necessário para "despojar-se do homem velho" e revestir-se de Cristo Ressuscitado. Toda a austeridade das orientações litúrgicas visa criar um contraste profundo para que, na noite da Vigília Pascal, o brilho do Círio e o canto do Aleluia ressoem com força renovadora.