Quando a política vira doença autoimune: por que é tão difícil dialogar com quem pensa diferente?
Ooutro deixa de ser alguém que pensa diferente e passa a ser percebido como alguém que ameaça aquilo que somos, aquilo em que acreditamos e, em alguns casos, até aquilo que consideramos moralmente correto.
É nesse ponto que a política pode se transformar em uma espécie de doença autoimune social: o sistema que deveria nos proteger passa a atacar o próprio organismo.
A metáfora é forte, mas ajuda a compreender um fenômeno cada vez mais presente. Em vez de reconhecermos o outro como parte da mesma sociedade, passamos a tratá-lo como uma ameaça que precisa ser combatida. E quanto mais nos convencemos de que o outro é perigoso, menos conseguimos escutá-lo.
A psicologia social chama uma parte desse fenômeno de polarização afetiva: não se trata apenas de discordar das ideias do outro grupo, mas de desenvolver sentimentos negativos em relação às pessoas que pertencem a ele.
Pesquisas mostram que a identidade política pode estar associada a sentimentos de rejeição, hostilidade e até desumanização do grupo adversário. No Brasil, estudos também encontraram um papel importante das chamadas identidades políticas negativas — quando a rejeição ao outro se torna mais determinante do que a própria identificação positiva com um grupo.
Quando discordar passa a parecer uma ameaça:
Imagine duas pessoas conversando.
Uma diz: “Eu penso diferente de você.”
A outra poderia responder: “Tudo bem. Por quê?”
Mas, em ambientes profundamente polarizados, a resposta muitas vezes se transforma em:
“Como você pode pensar assim?”
“Se você pensa assim, então você é uma pessoa ruim.”
Esse salto é fundamental.
O problema deixa de ser “a sua ideia está errada” e passa a ser “há algo errado com você”.
Quando uma opinião política é incorporada à identidade, criticá-la pode ser percebido como uma espécie de ataque pessoal. Por isso, a pessoa não sente apenas que precisa defender uma ideia; sente que precisa defender a si mesma.
É justamente nesse contexto que opiniões podem ser “moralizadas”. Pesquisas recentes mostram que, em ambientes percebidos como altamente polarizados, posições políticas podem se tornar cada vez mais ligadas a valores morais, criando uma dinâmica na qual discordâncias comuns passam a ser percebidas como conflitos entre o bem e o mal.
E quando uma discussão é interpretada como uma batalha entre o bem e o mal, negociar parece uma traição.
Existe ainda outro problema: começamos a acreditar que conhecemos o outro antes mesmo de ouvi-lo.
“Quem vota naquele candidato é ignorante.”
“Quem pensa daquele jeito é egoísta.”
“Quem defende aquela pauta não tem caráter.”
“Quem discorda de mim é manipulado.”
São frases diferentes, mas psicologicamente fazem algo parecido: transformam milhões de pessoas diferentes em uma única caricatura.
O indivíduo desaparece. Resta apenas o rótulo. E é muito mais fácil odiar um rótulo do que uma pessoa.
Estudos sobre polarização mostram que as pessoas podem desenvolver percepções distorcidas sobre aquilo que o grupo adversário realmente pensa. Quando essas percepções são corrigidas e a pessoa encontra alguém do outro grupo que não corresponde ao estereótipo, a hostilidade pode diminuir.
Talvez por isso uma conversa verdadeira seja tão poderosa.
Ela nos obriga a descobrir que, por trás do “eleitor”, existe uma pessoa. Alguém que tem medo, esperança, família, perdas, sonhos, experiências e razões - algumas boas, outras equivocadas, para pensar como pensa.
As redes sociais não ajudam:
Há ainda um agravante: grande parte das nossas discussões políticas acontece em ambientes nos quais a indignação é recompensada.
Uma opinião ponderada raramente provoca a mesma reação que uma provocação. Uma frase equilibrada pode passar despercebida, uma frase agressiva gera comentários, compartilhamentos e respostas. Pouco a pouco, podemos começar a confundirvisibilidade com verdade eindignação com consciência.
Criamos bolhas nas quais quase todos pensam parecido. O algoritmo nos apresenta mais daquilo que desperta nossa atenção, e aquilo que desperta nossa atenção frequentemente é justamente o que nos provoca emocionalmente.
O resultado pode ser um círculo vicioso: vemos o outro como cada vez mais absurdo, consumimos conteúdos que confirmam essa percepção e, depois, usamos esses conteúdos como prova de que nossa percepção estava correta.
Sim, mas não significa que qualquer conversa produzirá uma mudança. E aqui existe uma distinção importante: dialogar não significa convencer.
Alguns experimentos encontraram redução da polarização afetiva depois que pessoas de grupos políticos diferentes conversaram. Em um estudo, conversar sobre aspectos pessoais e cotidianos reduziu significativamente a antipatia entre os grupos; porém, quando a conversa era direcionada diretamente para as divergências políticas, o efeito foi muito menor.
Isso nos ensina algo precioso:
Antes de tentar mudar a opinião de alguém, talvez seja necessário recuperar a capacidade de enxergar a pessoa que existe por trás da opinião. Não precisamos concordar para fazer isso, o problema não é discordar
Uma sociedade saudável não é aquela em que todos pensam da mesma maneira. É justamente o contrário.
Democracias pressupõem a existência de diferentes visões sobre o que seria uma sociedade melhor. O problema começa quando a lógica do “nós contra eles”se torna tão intensa que desaparecem a confiança, o respeito e a possibilidade de cooperação.
Discordar é saudável, questionar é saudável, criticar governos, partidos, políticos e ideologias é saudável. O que não é saudável é precisar destruir moralmente o outro para sustentar aquilo em que acreditamos.
Porque, quando isso acontece, a política deixa de ser uma ferramenta para organizar a vida em sociedade e passa a ser um campo permanente de guerra psicológica. E uma guerra permanente adoece todos os lados.
Talvez precisemos perguntar: o que a minha posição política está fazendo comigo?
Essa talvez seja uma pergunta mais importante do que “em quem você vota?”. A minha posição política está me tornando mais capaz de ouvir? Mais interessado em compreender? Mais atento às injustiças? Mais disposto a defender aquilo que considero justo?
Ou está me tornando agressivo, intolerante, ressentido e incapaz de reconhecer qualquer qualidade em quem pensa diferente?
"Porque existe uma diferença enorme entre ter convicções e ser possuído por elas."
Uma convicção pode orientar nossa vida:
Uma identidade política rígida pode começar a determinar quem merece nosso respeito, nossa amizade e até nossa humanidade. E talvez esse seja um dos sinais de alerta: quando já não conseguimos reconhecer nenhuma virtude no outro lado e nenhum defeito no nosso.
Nesse momento, não estamos mais pensando politicamente, estamos apenas defendendo nossa tribo, o outro não precisa ser nosso inimigo. Existe uma maturidade que consiste em conseguir dizer: “Eu discordo profundamente de você, mas ainda reconheço sua dignidade.”
Isso não significa relativizar princípios. Não significa considerar todas as opiniões igualmente corretas. Não significa permanecer em silêncio diante de injustiças. Significa apenas compreender que uma pessoa não se resume à sua posição política.
Talvez seja justamente aí que o diálogo comece. Não quando deixamos de discordar. Mas quando conseguimos discordar sem transformar o outro em inimigo.
Porque quando a política vira uma doença autoimune, já não estamos apenas combatendo o que consideramos errado. Estamos começando a atacar uns aos outros.
E talvez a cura comece por uma atitude simples, porém difícil: voltar a enxergar, antes do eleitor, do partido e da ideologia, a pessoa.
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