domingo, 6 de setembro de 2026

SANTO DO DIA

 Hoje são celebrados os santos Leto e Donaciano, mártires do século V

Hoje (6), a Igreja Católica celebra os santos Leto e Donaciano, mártires do século V.

Eles eram bispos, defensores corajosos da fé cristã, prontos a dar a vida por Cristo numa época em que o Império Romano estava em declínio. Leto foi queimado vivo e Donaciano morreu no deserto, após ser deportado pelo rei dos vândalos, Humerico.

Barbárie

Os vândalos foram um povo germânico oriundo da Europa central – atuais Alemanha e Polônia – famosos por terem invadido os territórios do Império Romano no Norte da África (Cartago) e avançado para a capital, Roma. Os vândalos organizaram um dos saques mais violentos que a Cidade Eterna sofreu ao longo de sua história.

No ano de 483, o bispo Eugênio e os clérigos de Cartago (cidade sob domínio vândalo na época) foram levados para o palácio real e depois levados para os arredores da cidade, rumo ao exílio. Os clérigos que queriam ficar dentro das fronteiras do reino estabeleceram-se na parte sul, onde seriam gradualmente torturados e massacrados.

Após esse episódio, Humerico demonstrou certa tolerância para com os católicos – ele havia abraçado o arianismo anos antes e considerava os católicos hereges – mas essa atitude não duraria muito. No ano de 484, o rei Humerico ordenou ações contra os católicos. Assim, todas as igrejas católicas no Norte da África foram fechadas e os seus bens confiscados, para serem entregues à multidão.

O bispo Donaciano

Diante de tal injustiça, Donaciano e outros quatro bispos da província de Birsa reuniram um grupo de cristãos e organizaram um protesto nas portas da capital cartaginesa. O rei Humerico, furioso com a revolta, ordenou a seus soldados que "esmagassem" os "revoltosos".

Donaciano e os quatro bispos foram brutalmente espancados e depois levados à força para o deserto, onde foram abandonados para morrer de fome e sede.

O bispo Leto

São Leto, bispo de Leptis Menor, considerado "um homem zeloso e muito sábio" e que ganhou a inimizade de Humerico por sua enérgica oposição ao arianismo, foi encerrado em um calabouço estreito, escuro e pestilento. Ele só foi retirado de lá dois meses depois, para ser queimado vivo.

LITURGIA DIÁRIA

 

23º domingo do Tempo comum (Ano A): A correção fraterna

Evangelho do 23º domingo do Tempo comum (Ano A) e comentário do evangelho.


Evangelho (Mt 18, 15-20)

Jesus disse a seus discípulos: “Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão. Se ele não ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas. Se ele não vos der ouvido, dize-o à Igreja. Se nem mesmo à Igreja ele ouvir, seja tratado como se fosse um pagão ou um pecador público.

Em verdade vos digo, tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu.

De novo, eu vos digo: se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isso lhes era concedido por meu Pai que está nos céus. Pois, onde dois ou três estiveram reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles”.


Comentário

O Evangelho deste domingo é composto de três dizeres de Jesus que regulam aspectos importantes para a vida futura da Igreja: a correção fraterna entre os fiéis, o poder de ligar e desligar dado aos apóstolos e seus sucessores, e a eficácia da oração em comum.

A mensagem de Jesus não faz as pessoas serem impecáveis; mas pede a elas que se amem, apesar dos seus defeitos e erros. Um sinal claro deste amor é a ajuda mútua através do perdão e da correção. Com este primeiro ensinamento, Jesus convida cada um a viver o papel de um juiz misericordioso que trata com compreensão aqueles que erraram em alguma coisa. Por isso, “a prática da correção fraterna – que tem raiz evangélica – é uma prova de carinho sobrenatural e de confiança. Agradece-a quando a receberes, e não deixes de praticá-la com aqueles com quem convives”[1]. A correção fraterna, como ensina o Papa Francisco, evita também “aquela amargura do coração que alberga a ira e o rancor, e que nos leva a insultar e a agredir. É muito feio ver sair da boca de um cristão um insulto ou uma agressão. (...) Insultar não é cristão”[2].

Muitos Padres da Igreja falaram da correção fraterna, um verdadeiro ato de nobreza e amizade, e tiraram consequências práticas das palavras de Jesus. Por exemplo, Santo Agostinho admoestou os seus fiéis: “devemos, pois, corrigir com amor; não com desejo de causar dano, mas com a carinhosa intenção de conseguir a emenda. Se assim procedermos, cumpriremos muito bem o preceito”[3].

Quanto ao segundo ensinamento de Jesus (v. 18), o Catecismo da Igreja explica que “as palavras ligar edesligar significam: aquele que excluirdes da vossa comunhão, será excluído da comunhão com Deus; aquele que receberdes de novo na vossa comunhão, Deus o acolherá também na sua. A reconciliação com a Igreja é inseparável da reconciliação com Deus” (nº 1445). Depois de falar da reconciliação entre irmãos, Jesus dá aos seus apóstolos o poder de reconciliar os fiéis com a Igreja. Este poder é normalmente expresso pela confissão dos pecados através do confessor, que recebeu o poder do bispo, o sucessor dos apóstolos.

Por último, Jesus menciona que “outro fruto da caridade na comunidade é a oração em comum” – dizia Bento XVI. “Certamente a oração pessoal é importante, aliás, indispensável, mas o Senhor garante a sua presença à comunidade que — mesmo se for muito pequena — está unida e é unânime, porque ela reflete a própria realidade de Deus Uno e Trino, comunhão perfeita de amor”[4]. Quando rezamos juntos, não apenas movemos Deus para nos conceder o que pedimos, como também recebemos a presença do próprio Deus entre nós, que é o principal dom que podemos e devemos pedir.

Como explica o Magistério da Igreja: “Cristo está sempre presente em sua Igreja, especialmente nas ações litúrgicas. Está presente no sacrifício da Missa, tanto na pessoa do ministro ‘pois aquele que agora oferece pelo ministério dos sacerdotes é o mesmo que outrora se ofereceu na Cruz’, quanto sobretudo sob as espécies eucarísticas. Está presente pela sua força nos sacramentos, de tal forma que quando alguém batiza é Cristo mesmo que batiza. Está presente na sua palavra, pois é Ele mesmo que fala quando a Sagrada Escritura é lida na Igreja. Está presente, enfim, quando a Igreja reza e canta salmos, Ele, que prometeu: ‘Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles’ (Mt. 18,20)”[5].

sábado, 5 de setembro de 2026

SANTO DO DIA

 

Hoje a Igreja celebra santa Teresa de Calcutá

“Se de verdade queremos que haja paz no mundo, comecemos por nos amarmos uns aos outros no seio das nossas próprias famílias”, costumava dizer santa Teresa de Calcutá, fundadora das Missionárias da Caridade, defensora da família e dos pobres e modelo de misericórdia, cuja memória é celebrada hoje (5).

Agnes Gonxha Bojaxhiu nasceu em 1910 em Skopje, que naquela época pertencia à Albânia, e hoje é da Macedônia. Despertou para sua vocação à vida religiosa quando era uma jovem de 18 anos e, atendendo ao chamado de Deus, forjou seu trajeto para a santidade, dedicando-se aos pobres e doentes.

Em 29 de setembro de 1928, ingressou na Casa Mãe das Irmãs de Nossa Senhora de Loreto, na Irlanda. Depois, foi enviada à Índia, a fim de iniciar seu noviciado. Fez sua profissão religiosa em 24 de maio de 1931, quando adotou o nome Teresa, em homenagem à carmelita francesa, Teresa de Lisieux, padroeira dos missionários.Atuou como professora em Calcutá por 17 anos, com as filhas das famílias mais tradicionais da cidade. Até que, no dia 10 de setembro de 1946, viveu um fato marcante em sua história, o “Dia da Inspiração”. Em uma viagem de trem ao noviciado do Himalaia, deparou-se com um irmão pobre de rua que lhe disse: “Tenho sede!”. Desde então, teve a certeza de sua missão: dedicar sua vida aos mais pobres dos pobres, deixando o conforto do colégio da Congregação.

Em 1949, Madre Teresa começou a escrever as constituições das Missionárias da Caridade e, no dia 7 de outubro de 1950, a congregação foi aprovada pela Santa Sé, expandindo-se por toda a Índia e pelo mundo inteiro.

Pequena em estatura, magra e encurvada, madre Teresa surpreendeu o mundo com o seu amor, humildade, simplicidade e entrega total pelos doentes. Com sua atuação, ensinou que a maior pobreza não estava nos subúrbios de Calcutá, mas nos países “ricos” quando falta o amor ou nas sociedades que permitem o aborto.

“Para mim, as nações que legalizaram o aborto são as nações mais pobres, têm medo de uma criança não nascida e a criança tem que morrer”, disse.

Neste sentido, estava convencida da importância do fortalecimento das famílias para alcançar um mundo de paz.

“Em todo mundo se comprova uma angústia terrível, uma espantosa fome de amor. Levemos, portanto, a oração para as nossas famílias, levemos a oração para as nossas crianças, ensinemos-lhes a rezar. Pois uma criança que ora, é uma criança feliz. Família que reza é uma família unida”, enfatizou a Santa.

Em 1979 foi homenageada com o Prêmio Nobel da Paz. Entretanto, isso não a encheu de vanglória, mas buscou levar as almas a Deus. Tal como o recordou são João Paulo II durante a beatificação de Madre Teresa em 19 de outubro de 2003.

“Satisfazer a sede que Jesus tem de amor e de almas, em união com Maria, Sua Mãe, tinha-se tornado a única finalidade da existência de Madre Teresa, e a força interior que a fazia superar-se a si mesma e ‘ir depressa’ de uma parte a outra do mundo, a fim de se comprometer pela salvação e santificação dos mais pobres”, ressaltou.

Por outro lado, em uma entrevista à revista brasileira missionária “Sem Fronteiras” (1997) perguntaram-lhe sobre a mensagem que gostaria de nos deixar e ela respondeu:“Amem-se uns aos outros, como Jesus ama a cada um de vocês. Não tenho nada que acrescentar à mensagem que Jesus nos transmitiu. Para poder amar, é preciso ter um coração puro e é preciso rezar. O fruto da oração é o aprofundamento da fé. O fruto da fé é o amor. E o fruto do amor é o serviço ao próximo. Isso nos conduz à paz”.

Morreu em 5 de setembro de 1997. Foi canonizada pelo papa Francisco em 4 de setembro de 2016, dentro da celebração do jubileu dos voluntários e operários da misericórdia.

IGREJA

 

Quais são os Evangelhos apócrifos e por que não estão na Bíblia?

Os Evangelhos apócrifos costumam despertar curiosidades e dúvidas sobre o que faz com que sejam considerados tais. De fato, o pe. Cido Pereira foi abordado sobre este assunto em sua coluna de perguntas e respostas no jornal O São Paulo, da arquidiocese paulistana.

Veja o que ele respondeu ao leitor Pedro Firmino, do bairro do Mandaqui, que indagou por que não encontramos na Bíblia Sagrada os livros apócrifos.

Antes de tudo, o padre explica o que são esses textos:

"Primeiro, vamos entender bem o que são esses livros. A palavra 'apócrifo' é grega e quer dizer 'oculto'. A partir disso, a gente já começa a entender o que eles são: livros cujos autores ninguém conhece. Há muitos e muitos livros apócrifos".

Em seguida, ele fala do porquê de não estarem na Bíblia:

"Porque são fantasiosos demais e de fonte desconhecida, eles não foram considerados inspirados por Deus e, por isso mesmo, não constam na Bíblia, que para nós, católicos, contém 73 livros: 47 do Antigo Testamento e 26 do Novo Testamento. A Igreja Católica considera que esses 73 livros são inspirados por Deus, porque muitos deles foram até citados pelos apóstolos e pelos santos escritores da Igreja.

Entre os livros apócrifos há muitos evangelhos, sabe? Certamente eles foram escritos por pessoas que queriam preencher o vazio deixado pelos quatro evangelistas – Mateus, Marcos, Lucas e João. Por exemplo, a não ser São Lucas e um pouco São Mateus, muito pouco, quase nada, sabemos sobre a infância de Nossa Senhora, sobre a adolescência e juventude de Jesus. Já esses tais evangelhos apócrifos falam a respeito, mas de uma forma tão fantasiosa que não dá para aceitar que são verdadeiros e inspirados por Deus".

Mas, afinal, quais são os tais dos Evangelhos apócrifos?

O padre prossegue, citando vários exemplos:

Evangelho de Tiago

"Há um livro apócrifo chamado 'Evangelho de Tiago'. Nele está registrado o nome dos pais de Nossa Senhora, São Joaquim e Sant'Ana, a apresentação de Maria no templo, a escolha de José para esposo de Maria. O bastão de José teria florescido, fazendo com que os pais de Maria o aceitassem como noivo dela. Há também alguns detalhes sobre o nascimento de Jesus. A data em que foi escrito foi lá pelos anos 200 d.C".

Evangelho de Tomé

"Outro livro apócrifo muito conhecido é chamado 'Evangelho de Tomé'. Nele são narrados alguns episódios da infância de Jesus, como sempre muitos fantasiosos. Jesus aparece como um menino prodígio que gosta de fazer milagres, como fazer pombinhos de barro e fazê-los voar".

Evangelho Árabe da Infância

"Mais outro, chamado 'Evangelho Árabe da Infância', fala dos milagres que aconteciam ao contato com a roupa branca e com a água em que Maria dava banho no menino Jesus. Não dá para acreditar nessas coisas fantasiosas, não é mesmo?"

História de José

"Há também um livro apócrifo chamado 'História de José', o carpinteiro. Nele se diz que José foi casado, ficou viúvo, teve filhos no primeiro casamento, morreu nos braços de Jesus e de Maria".

O padre finaliza:

"Está vendo, Pedro? Pode até ser divertido ler esses textos, mas não devemos dar crédito a eles. Até porque a Igreja, embora os conserve, não os considera de inspiração divina, não os considera Palavra de Deus".

ESPIRITUALIDADE

 

Três irmãs, um só chamado: a história das trigêmeas baianas que consagraram a vida a Deus

No coração de Salvador, entre paredes centenárias, silêncio, oração e o perfume discreto do incenso, há uma história que parece saída de um romance — mas é absolutamente real.

No Convento Santa Clara do Desterro, construído há mais de três séculos e considerado a primeira casa religiosa feminina do Brasil, vivem três mulheres que chamam a atenção antes mesmo de pronunciarem uma palavra. Maria Lurdes, Maria Aparecida e Maria Gorethi são irmãs. Mais do que isso: são trigêmeas e idênticas.

Mas o que torna sua história verdadeiramente extraordinária não é apenas a semelhança física. As três fizeram a mesma escolha: deixaram para trás a vida que conheciam no sertão baiano e consagraram-se a Deus.

A história, porém, começou muito longe dos muros do convento.

Do sertão para o claustro

Maria Lurdes, Maria Aparecida e Maria Gorethi nasceram na pequena localidade de Pé de Serra, próxima ao distrito de Itamira, no município de Aporá, no interior da Bahia.

Elas cresceram em uma família numerosa, com dezessete filhos. A vida era simples, e muitas vezes difícil. Não havia abundância, mas havia trabalho — e havia fé.

Desde pequenas, as meninas aprenderam que a sobrevivência da família dependia das mãos de todos. A rotina dividia-se entre os estudos e o trabalho na roça. Debaixo do sol forte do sertão, ajudavam o pai a preparar a terra e a plantar feijão, milho, amendoim e mandioca, alimentos que garantiam boa parte do sustento da casa.

Se a vida material era marcada pela simplicidade, a vida espiritual ocupava um lugar central naquela família.

A mãe das meninas, mulher de fé profunda, fazia questão de transmitir aos filhos aquilo que ela própria havia recebido. Ir à igreja, porém, não era algo simples. Era preciso caminhar cerca de quarenta minutos por estradas de terra. E as celebrações não aconteciam todos os dias — às vezes, passavam-se meses até que houvesse uma nova oportunidade de participar da liturgia.

Foi nesse cenário, aparentemente tão distante de qualquer convento, que começou a nascer uma vocação.

Quando as meninas tinham cerca de nove anos, uma freira italiana visitou a comunidade. Para elas, aquela religiosa representava algo até então quase inimaginável: uma mulher que havia escolhido dedicar toda a sua existência a Deus.

A visita despertou nas três um desejo que, com o passar dos anos, se tornaria cada vez mais forte.

A mãe, que acreditava que a vida religiosa fosse uma realidade reservada quase exclusivamente às estrangeiras, acabou percebendo que o chamado podia estar muito mais perto do que imaginava.

Estava dentro de casa.

Quando três irmãs disseram “sim”

A saída de casa, entretanto, não aconteceu de uma hora para outra.

Havia os laços familiares, as responsabilidades e, sobretudo, a necessidade de ajudar a mãe nos cuidados com os irmãos mais novos. A família era grande, e cada filha tinha sua parcela de responsabilidade.

Curiosamente, a própria mãe costumava vestir as trigêmeas com roupas que lembravam hábitos religiosos. Sem perceber, talvez estivesse alimentando nelas aquilo que já começava a despontar no coração.

A primeira das três deixou a casa paterna pouco depois de completar 18 anos, em meados da década de 1980, acompanhando o sacerdote da comunidade.

As outras duas permaneceram por mais algum tempo.

Precisavam ajudar em casa. Precisavam cuidar dos irmãos. Precisavam, também, esperar o momento certo.

Até que chegou o dia em que as três, cada uma a seu tempo, seguiram o caminho que haviam escolhido.

Do sertão baiano, chegaram a Salvador.

E então veio outro desafio: aprender a viver dentro de um convento.

“Como elas conseguem estar em dois lugares ao mesmo tempo?”

Para quem havia crescido em uma casa pequena no interior, o Convento Santa Clara do Desterro parecia gigantesco.

Os corredores, os espaços amplos, a arquitetura monumental e o silêncio do claustro contrastavam profundamente com o pequeno universo em que haviam vivido até então.

Mas havia uma característica das novas moradoras que logo chamou a atenção de funcionários e visitantes: elas eram absolutamente idênticas.

Nos primeiros tempos, a semelhança provocava situações curiosas.

Alguém podia encontrar uma das irmãs carregando uma bandeja de doces em determinado ponto do convento. Poucos instantes depois, a mesma pessoa parecia estar novamente diante dela — desta vez em outro corredor e usando outra roupa.

A explicação era simples, embora surpreendente: não era a mesma irmã mudando de hábito em questão de segundos.

Eram três.

Três mulheres com o mesmo rosto, a mesma origem e uma história familiar compartilhada desde o ventre materno.

Com o tempo, todos aprenderam a distingui-las.

Ou, pelo menos, quase todos.

Uma sintonia que vai além da aparência

Quem convive com as três percebe que a semelhança entre elas não termina no rosto.

Existe entre Maria Lurdes, Maria Aparecida e Maria Gorethi uma sintonia que impressiona. Elas compartilham pensamentos, antecipam respostas e, muitas vezes, terminam as frases umas das outras.

É como se os muitos anos vividos lado a lado tivessem criado entre elas uma linguagem própria.

Mas a vida no convento não se resume a essa curiosa coincidência.

Ali, os dias têm um ritmo próprio. A rotina começa cedo e é marcada pela oração, pela meditação, pelas refeições comunitárias e pelo trabalho.

Há tarefas na confeitaria, cuidados com a manutenção da casa e tantas outras atividades necessárias para manter de pé uma instituição que atravessa séculos.

Ao longo do dia, a oração volta a ocupar seu lugar. E, à tarde, chegam novamente os momentos de celebração e a Santa Missa.

É uma existência escondida aos olhos do mundo, mas profundamente preenchida por aquilo que elas acreditam ser o essencial.

O amor pela família não ficou do lado de fora

Entrar no convento não significou esquecer a família.

As raízes permanecem profundas.

Uma das irmãs, inclusive, dedica-se atualmente com maior frequência aos cuidados da mãe, que já passou dos 88 anos e continua lúcida e ativa em sua rotina.

É uma imagem bonita e, ao mesmo tempo, reveladora: aquelas meninas que um dia saíram de uma pequena casa do sertão para seguir uma vocação continuam ligadas à mulher que lhes ensinou, desde cedo, a reconhecer Deus no cotidiano.

A consagração não apagou os vínculos familiares. De certo modo, parece ter dado a eles uma nova forma.

E se tivessem escolhido outro caminho?

Às vezes, as três se perguntam como teria sido a vida se tivessem seguido outro rumo.

Talvez fossem professoras. Talvez tivessem escolhido algum pequeno negócio para ajudar financeiramente a família. Talvez a história tivesse tomado uma direção completamente diferente.

Mas não há arrependimento.

Ao olhar para o caminho percorrido, elas reconhecem que a vida religiosa não é feita apenas de momentos luminosos. Há renúncias, dificuldades, disciplina e sacrifícios.

Ainda assim, enxergam tudo isso como parte de uma entrega maior.

Para elas, cada provação tem um sentido. Cada renúncia faz parte da caminhada. E a vida presente é compreendida à luz de uma esperança que ultrapassa os limites deste mundo.

Três rostos, uma história de fé

Deixar o Convento Santa Clara do Desterro depois de conhecer a história de Maria Lurdes, Maria Aparecida e Maria Gorethi é levar consigo uma pergunta difícil de ignorar: o que acontece quando uma pessoa realmente entrega a própria vida a uma vocação?

Talvez a resposta esteja justamente na história dessas três mulheres.

Elas vieram de uma pequena comunidade rural, de uma família numerosa e de uma realidade marcada pela escassez. Conheceram o trabalho duro da roça antes de conhecer os corredores do convento. Caminharam por estradas de terra para chegar à igreja antes de viverem diariamente diante do altar.

E, em algum momento daquela infância sertaneja, ouviram um chamado.

Três meninas escutaram.

Três irmãs responderam.

E três vidas passaram a seguir o mesmo caminho.

Em uma época marcada pela pressa, pelo individualismo e pela busca constante por reconhecimento, a história dessas trigêmeas baianas recorda uma verdade simples e profunda: algumas das maiores histórias de amor são vividas longe dos holofotes.

Atrás das paredes antigas de um convento, três mulheres continuam dizendo, dia após dia, com sua própria vida, aquilo que um dia aprenderam ainda crianças no sertão: que uma existência pode encontrar sua plenitude quando é oferecida por inteiro.

Três rostos quase indistinguíveis.

Três histórias entrelaçadas.

E um único “sim” que, há décadas, continua sendo renovado.

IGREJA

 Ao olhar para vocês, vejo a maravilha de Deus, diz Leão XIV a seminaristas


O papa Leão XIV recebeu ontem (3) no palácio Apostólico, no Vaticano, um grupo de seminaristas de dois seminários italianos, agradecendo-lhes em nome da Igreja pelo “sim” que disseram e continuam a dizer todos os dias.

“Não é fácil nem garantido no mundo de hoje, e a Igreja sabe disso muito bem”, disse ele na audiência concedida às delegações do Seminário Regional Pontifício Apuliano Pio XI em Molfetta e do Seminário Interdiocesano de Aversa.

Ambos os seminários celebram aniversários importantes este ano. O Molfetta comemora o centenário de suas instalações mais recentes — encomendadas pelo papa Pio XI, que dá nome ao seminário — enquanto o Aversa celebra o tricentenário da inauguração de suas instalações atuais.

Leão XIV também expressou sua gratidão às famílias presentes. “Uma vocação nunca surge sem um contexto adequado; muitas vezes requer um lar e pais que rezam e sabem deixar seus filhos partirem. Minha gratidão, e a de toda a Igreja, se estende a vós, queridas famílias”, disse ele.

O papa também destacou a liberdade de Deus, da qual brota toda vocação. “Não há competição, nem hierarquia, nem está escrito que Ele escolheu os melhores: Ele escolheu aqueles que quis. Num mundo tão empenhado em celebrar a autorrealização pessoal, é importante lembrar que nenhum de vocês, nem nenhum de nós, está aqui por mérito próprio, mas unicamente por livre escolha de Deus Pai, sinal e garantia de um amor gratuito que sempre nos precede e jamais nos decepciona”, disse Leão XIV.

Ele disse também que a mera presença dessas pessoas com vocação sacerdotal no seminário é sinal de esperança para toda a Igreja, uma esperança que, como disse, não provém de um “vago otimismo”, mas da “certeza de que o Senhor continua chamando, em todas as épocas da história e em todos os lugares”.

O papa disse também que o esforço para viver a vida espiritual é sustentado pela “beleza da fraternidade e da missão compartilhada”.

“Jesus não chama só um homem, mas doze, com personalidades muito diferentes e, pelos nossos padrões, por vezes inesperadas. O Senhor os reúne e os mantém juntos para que aprendam que a Igreja é vivida em comunhão: não pertence a nenhum de nós, e todos somos chamados a amá-la e servi-la como um só corpo”, disse ele.Falando aos formadores, o papa pediu-lhes que fossem os “primeiros mestres daquele cuidado e fraternidade que se manifestam em relações autênticas, pessoais e comunitárias, alicerçadas na verdade e na caridade”.

Leão XIV disse que a missão dos futuros sacerdotes será levar o Evangelho às pessoas de suas comunidades, ou seja, “às famílias que lutam para sobreviver; aos jovens que, com só vinte anos, fazem as malas para procurar trabalho; aos idosos que vivem na solidão; aos marginalizados; àqueles que perderam o sentido da vida”.

LITURGIA DIÁRIA

 Evangelho de sábado: O Filho do Homem é senhor também do sábado

Comentário ao Evangelho de sábado da 22ª semana do Tempo Comum. "O Filho do Homem é senhor também do sábado". Para os cristãos, o descanso, e de modo especial o domingo, é um convite a considerar que tudo o que existe é um grande dom de Deus para nós.


Evangelho (Lc 6,1-5)

Num sábado, Jesus estava passando através de plantações de trigo. Seus discípulos arrancavam e comiam as espigas, debulhando-as com as mãos. Então alguns fariseus disseram:

'Por que fazeis o que não é permitido em dia de sábado?'

Jesus respondeu-lhes:
'Acaso vós não lestes o que Davi e seus companheiros fizeram, quando estavam sentindo fome? Davi entrou na casa de Deus, pegou dos pães oferecidos a Deus e os comeu, e ainda por cima os deu a seus companheiros. No entanto, só os sacerdotes podem comer desses pães.'

E Jesus acrescentou:
'O Filho do Homem é senhor também do sábado.'


Comentário

O Evangelho da Missa de hoje, como o de ontem, lembra-nos de outra controvérsia de alguns fariseus com Jesus. Estas controvérsias giravam ao redor de elementos fundamentais da religiosidade judaica e Jesus estava muito interessado em que seus interlocutores purificassem o seu modo de entendê-las. Quando Deus pediu ao povo de Israel que vivesse o sábado, e o fez de maneira especialmente solene, não lhes impôs um fardo, mas lhes deu um dom, porque a lei de Deus não é uma imposição, mas uma graça, uma ajuda singular dada a quem se ama de maneira especial. Mas o dom é inferior ao doador. E nós, homens, somos capazes, se não cuidarmos dos presentes e aprofundarmos seu significado, de diminuir o presente tornando-o superior a seu doador.

Para os cristãos, o preceito do domingo é um presente. A ideia de dedicar esse dia de forma particular a dar centralidade à Eucaristia e dar graças a Deus através do descanso e da festividade não é impor, mas nos animar a considerar que tudo o que existe é dom de Deus para nós, para cuidarmos dele, algo que só podemos fazer se olharmos para ele com agradecimento. Ao mesmo tempo, quando este mundo passar, quem permanecerá é o Senhor, nosso verdadeiro Descanso, não o domingo, pois o domingo está a serviço do Senhor. Esse é o seu significado.

Deus anima os fariseus a não se esconderem em preceitos (por mais importantes que sejam) para não viver o fundamental, que resume toda a lei: amar a Deus com todo o coração e amar o próximo como a si mesmo. Quem ama a Deus com todo o seu coração, viverá com alegria o preceito do sábado ou domingo e entenderá o seu significado. Jesus também se dirige a nós através destas controvérsias, e pede-nos que amemos sinceramente o que vivemos. Pede para não sermos meros cumpridores externos. E amar sinceramente não é fácil, porque amar desta forma significa envolver-nos com toda a nossa pessoa no objeto de nosso amor, ou seja, colocar-nos a seu serviço: não vim para ser servido, mas para servir (cfr. Mt 20,28).