Católicos iguais, mas diferentes: o rito bizantino ucraniano no Brasil
Imaginem-se no fim do século XIX. Sob o céu do Sul do Brasil, famílias inteiras desembarcam carregando uma fé inabalável. Esses imigrantes ucranianos encontraram uma realidade alheia e hostil. Para resistir, operaram um milagre: reconstruíram seu cosmos religioso na nova pátria. Como revela o pesquisador Teodoro Hanicz, ao chegarem, "os imigrantes, provenientes de várias regiões da Ucrânia, reconstruíram o universo social, cultural e religioso como um mecanismo de defesa, de resistência e de preservação da identidade numa realidade alheia". O coração dessa identidade era a Igreja de tradição bizantina, cuja trajetória remonta ao batismo da Rus' de Kyiv em 988 e, mais tarde, à União de Brest em 1595-1596, quando parte da hierarquia ucraniana uniu-se a Roma, mantendo suas ricas tradições litúrgicas e espirituais orientais intactas no seio da Igreja Católica.
Um belo pedaço de bizâncio sob as cúpulas do Sul
Ao caminharmos pelas colônias no Sul, sobretudo no Paraná, nossos olhos são capturados por silhuetas surpreendentes. São templos com cúpulas octogonais que imitam a Jerusalém celeste. Entremos em uma dessas igrejas. O aroma do incenso nos envolve e ergue-se a iconóstase, parede de ícones que resguarda o altar. Não há estátuas aqui; a arte sacra se manifesta em ícones profundamente místicos. O silêncio é rompido por um canto polifônico celestial, executado puramente pelas vozes humanas, sem nenhum instrumento. Em vez da missa romana, celebra-se a "divina liturgia", principalmente a de São João Crisóstomo. Arquitetura e liturgia são a materialização de um cosmos que envolve teologia e espiritualidade, herança antiga que continua pulsando vigorosamente nas comunidades católicas ucranianas brasileiras.
Os desafios da fé e da tradição na modernidade
Contudo, o tempo traz transformações aceleradas. Hoje, a comunidade enfrenta o desafio de manter viva essa herança milenar em meio à modernidade. As fronteiras do passado se diluem com a assimilação urbana e os casamentos com pessoas de outras comunidades. Teodoro Hanicz, em artigo na edição da revista CiberTeologia dedicada às Igrejas Orientais no Brasil, aponta que "à medida que o tempo passa, as novas gerações se assimilam à realidade brasileira e adotam elementos culturais e religiosos da cultura e da religiosidade do povo brasileiro". Um hibridismo fascinante brota nas igrejas: o ícone convive com imagens latinas, e o rito se adapta. No Brasil, não se dá a Comunhão a recém-nascidos para evitar conflitos com a tradição romana local. Há também a tensão linguística: celebrar a liturgia em ucraniano ou em português? Preservar esse patrimônio exige renovação, lembrando-nos de que a tradição precisa ser reinterpretada para continuar viva sob o céu do Brasil.