Papa defende um estilo evangélico, sem “julgamentos arrogantes” nem imposições à força
O papa Leão XIV alertou hoje (19) contra a “tentação” de imaginar Deus como uma “figura poderosa, que se impõe pela força, que ocupa o espaço para dominar” e que chega de “forma triunfante”. Ele convidou os fiéis a adotarem um estilo evangélico marcado pela humildade.
Na oração do Ângelus, proferida da varanda do Palácio Apostólico de Castel Gandolfo — onde passa algumas semanas de descanso até o dia 27 de julho —, o papa refletiu sobre a liturgia do dia.
Depois da parábola do semeador, disse ele, Jesus continua falando às multidões por meio de diversas imagens, entre elas o trigo e o joio, o grão de mostarda e o fermento na farinha.“Trata-se de três pequenas parábolas que pretendem evocar a chegada do Reino de Deus na história, a sua ação na vida dos homens, a maneira como cresce, se expande e transforma o mundo a partir de dentro”, disse o papa.
Por meio desses ensinamentos, Jesus propõe, segundo Leão XIV, um autêntico estilo evangélico: “sem adotarmos precipitadamente uma postura de oposição marcada por julgamentos arrogantes, sem nos impormos pelo poder e pela força”.
“Deus prefere a pequenez”
O papa destacou que “Deus prefere a pequenez, sinal de seu amor discreto”. “Ele nos deixa livres para acolhê-lo ou rejeitá-lo, procura abrir caminho mesmo em meio ao joio e age de forma oculta e invisível, como a menor de todas as sementes, fermentando a massa sem fazer barulho”.
O papa alertou que, com frequência, os fiéis esperam “algo espetacular”. “Desejamos um Deus que intervenha do alto, arrancando imediatamente o joio, que é o mal. Imaginamos um Deus forte e poderoso e, infelizmente, também adequamos nossa maneira de ser cristãos e de ser Igreja a essa imagem”, alertou.No entanto, ele ressaltou que o Reino de Deus cresce silenciosamente “também em meio ao joio”. “E nos pede um olhar capaz de reconhecer o bem que brota mesmo nas trevas do mal, sem que julguemos tudo apressadamente”, acrescentou.
Segundo o papa, o Reino de Deus “vem como a menor das sementes e exige, portanto, a paciência de saber acompanhar os processos, reconhecendo-o na simplicidade do cotidiano e na singeleza da vida comum. Cresce invisivelmente, como o fermento na farinha, e assim nos liberta do desânimo, convidando-nos a ter confiança, ainda que nos pareça que Deus está ausente”.
O papa lembrou que, na verdade, Deus nunca abandona seus filhos “pois, na realidade, Ele nos acompanha continuamente e seu amor está sempre agindo em nosso favor”.Leão XIV exortou a transferir essa lógica evangélica para a vida pessoal e eclesial. “Esse estilo de Deus deve se tornar também o modelo segundo o qual vivemos a realidade que nos rodeia, tanto como indivíduos quanto como Igreja”, afirmou.Ele encorajou os fiéis a “assumir um estilo evangélico, sem adotarmos precipitadamente uma postura de oposição marcada por julgamentos arrogantes, sem nos impormos pelo poder e pela força e sem perdermos a confiança na obra de Deus”.
O papa uma reflexão do então cardeal Joseph Ratzinger (mais tarde papa Bento XVI) durante o Jubileu dos Catequistas e Professores de Religião no Ano Santo de 2000, que dizia ser necessário “nos submetermos à lógica da semente, que não é a do sucesso e da grandeza, mas que nos pede para nos tornarmos pequenos e servirmos à vida das pessoas”.
Por fim, Leão XIV destacou que aqueles que adotam essa atitude se tornam instrumentos de transformação para o mundo. “Nós mesmos nos tornaremos como uma pequena semente do Evangelho que brota e como um fermento de amor que transforma a massa do mundo”, concluiu.
Depois da oração do Ângelus, o papa Leão XIV dirigiu uma saudação especial aos moradores de Castel Gandolfo, a cidade às margens do Lago Albano.
“Durante estes dias de descanso, renovo a minha saudação e a minha gratidão a todos vós, moradores de Castel Gandolfo, e acolho com alegria os peregrinos que vêm de todas as partes do mundo”, disse.
Não esquecer aqueles que sofrem com os conflitos
O papa também manifestou sua preocupação com as situações de conflito que continuam afetando diversas regiões do mundo. Leão XIV disse que acompanha com atenção as notícias que chegam dos países assolados pela guerra e pela violência, e convidou a não esquecer aqueles que sofrem as consequências desses confrontos.
“Continuamos acompanhando com apreensão o que acontece em diversos países devastados pela guerra e pela violência. Não nos esqueçamos daqueles que sofrem e morrem por causa dos conflitos e unamos também a nossa constante oração ao generoso empenho pela paz”, exortou, sem citar, nesta ocasião, nenhum território específico.As palavras do papa foram recebidas com aplausos pelos fiéis presentes em Castel Gandolfo, que se reuniram para participar da oração mariana.