A oração do Papa chega às periferias. E nós, cristãos, chegamos até elas?
Quem anda pelas ruas de uma grande metrópole brasileira conhece bem aquele contraste que aperta o peito. De um lado, sobem os prédios altos de vidro, espelhados e frios. Do outro, sob marquises ou erguidos com tábuas improvisadas nos morros e baixadas, homens, mulheres e crianças tentam apenas existir. A cidade grande corre apressada, no balanço duro do ônibus, no olhar esquivo de quem cruza a calçada sem enxergar o vizinho.
Neste mês de agosto de 2026, lá de Roma, o Papa Leão XIV olhou para essa mesma paisagem urbana e fez um pedido de oração aos fiéis de todo o mundo: rezar pela evangelização nas cidades, buscando novas formas de anunciar o Evangelho onde o anonimato e a solidão costumam vencer. Esse pedido de Roma não ficou flutuando no ar. No Brasil, ele encontrou chão firme, ecoando direto nas novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE 2026-2032) e na Campanha da Fraternidade de 2026, que escolheu como tema um grito que vem do peito de milhões de brasileiros: "Fraternidade e Moradia".
A ferida da moradia
Não é por acaso que a voz do Papa e a da Igreja no Brasil falam a mesma língua. O Pontífice lembra que a vida urbana moderna criou um certo culto ao indivíduo, onde cada um se fecha na própria opinião e na sua rotina. Mas a solidão da cidade não é feita apenas de portas fechadas; ela é feita de carências concretas. Nas diretrizes dos bispos brasileiros, a lista de dores da cidade abre espaço para a pobreza, o desemprego, a falta de saneamento básico, a violência, a devastação ambiental e a precarização do teto.
É aí que o assunto deixa de ser apenas discurso e vira pele, osso e tijolo. A negação do direito à casa no Brasil é uma ferida histórica que sangra desde o fim dos mais de 400 anos de escravidão, quando os ex-escravizados foram jogados à própria sorte sem acesso à terra e à moradia.
Os números mostram o tamanho desse desafio urbano: cerca de um terço da população do país enfrenta algum tipo de precariedade habitacional. São aproximadamente 6 milhões de famílias (cerca de 10% da população) que necessitam imediatamente de uma casa digna — gente morando em condições muito precárias, esmagada por aluguéis elevados ou dependendo de moradia cedida por terceiros. Ao mesmo tempo, outros 80 milhões de brasileiros (26 milhões de famílias) vivem em habitações inadequadas nas cidades. E o maior paradoxo desse cenário é ver cerca de 12 milhões de imóveis vazios espalhados pelo país enquanto tantas famílias não têm onde se proteger do frio ou da chuva.
O Papa pede para plantar a fraternidade
Diante desse deserto de concreto e desigualdade, qual é a resposta? Tanto a intenção de oração do Papa Leão XIV quanto as diretrizes da Igreja e a Pastoral da Moradia e Favela apontam para a mesma direção: é preciso reconstruir a vida em comunidade.
O Papa deseja que sejam descobertos "caminhos criativos para construir comunidade". As Diretrizes da Ação Evangelizadora respondem propondo a imagem viva de "armar a tenda no hoje da história", criando comunidades abertas e acolhedoras. Inspiradas nas primeiras comunidades do livro dos Atos dos Apóstolos (At 2, 42), essas pequenas comunidades de discípulos missionários nascem da escuta da Palavra, da comunhão, da oração, da Eucaristia e do testemunho da fé no cotidiano. A fé cristã não é um ato isolado; a Trindade é uma comunidade de amor e a fé pressupõe viver juntos na partilha e na caridade.
Essa comunidade de fé não pode ficar trancada entre quatro paredes enquanto a periferia ao lado sofre e se torna oração e ação por meio de uma organização pastoral. Fruto da 6ª Semana Social Brasileira (2022-2023), a Pastoral da Moradia e Favela vem articulando lideranças comunitárias pelo país. Atualmente com cerca de 30 grupos em formação nas dioceses, a meta é chegar a 300 equipes para acompanhar famílias ameaçadas de despejos ou afetadas por enchentes e deslizamentos, além de lutar por políticas públicas de habitação.
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