quarta-feira, 22 de julho de 2026

ESPIRITUALIDADE

 

Ser Marta ou Maria?

Afinal, se não fosse por Marta, quem serviria a Jesus? Quem faria o que era necessário de ser feito, mesmo sendo indicado como algo superficial?

As escolhas estão presentes em nossas vidas desde que nascemos e assim será até o nosso último suspiro. Esse é um fato incontestável. A questão, entretanto, recai na forma como se reage em cada circunstância ao longo da jornada.

Nos “Sete passos para rezar com Teresa de Ávila”, Frei Patrício Sciadini, em um livreto sucinto e de poucas páginas, oferece um direcionamento para o cristão perseverar na vida de oração, mesmo fatigado, sem esperança e até mesmo, sem vontade. São orientações da própria doutora da Igreja Católica que, apesar de nunca ter escrito um livro específico acerca dos “sete passos da oração”, possui uma pedagogia oracional que se constrói nessa fundamentação, e colocar por terra a falsa crença de que por sermos pecadores não somos nem dignos de rezar – “ a maior vitória do demônio é convencer alguém a deixar de rezar por ser pecador” (Santa Teresa D`Ávila).

Os passos talvez não sejam de difícil compreensão até mesmo para um leigo – colocar-se na presença de Deus; ler um texto; meditar; diálogo com Deus; tomar decisões; Ação de Graças; Retornar ao trabalho – mas o Mistério fica a cargo do Espírito Santo. Entretanto, o que me chamou a atenção foi justamente o 5º passo descrito pelo frei Sciadini: tomar decisões.

Retomo à questão das escolhas e cito, como faz o próprio frei carmelita, a passagem de Marta e Maria em Lucas 10:38-42:

E aconteceu que, indo eles de caminho, entrou Jesus numa aldeia; e certa mulher, por nome Marta, o recebeu em sua casa;
E tinha esta uma irmã chamada Maria, a qual, assentando-se também aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra.
Marta, porém, andava distraída em muitos serviços; e, aproximando-se, disse:
Senhor, não se te dá de que minha irmã me deixe servir só? Dize-lhe que me ajude.
E respondendo Jesus, disse-lhe: Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas, mas uma só é necessária;
E Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada.

Confesso que ao longo dos anos sempre lia esses versículos com certo descontentamento, afinal, se não fosse por Marta, quem serviria a Jesus? Quem faria as tarefas domésticas? Quem faria o que era necessário de ser feito, mesmo sendo indicado como algo superficial? Mas, sem dúvida, por outro lado, Maria nos faz recordar Mateus 6:33 quando diz: “Buscai, assim, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas.”

Portanto, sejamos Marta ou Maria?

Cada cristão tem um propósito específico neste mundo, quanto a isso não há dúvida, e devemos perseguir este desígnio ao longo de toda a vida. Essa se faz em diferentes contextos e projeções: em silêncio, mas também no contato com o outro; em oração contemplativa, assim como em oração num transporte público. Existindo um propósito maior, direcionado a Deus, a tarefa será uma oblação completa.

Somos chamados a sermos sal, presença, lutadores em um exército no qual Deus é o senhor. Somos escalados para o verdadeiro combate, para a luta que não é vã, para a verdadeira disciplina, para as batalhas diárias, para o jejum, para a oração, para dar a outra face, para ajudar em nossos lares com tarefas domésticas. Sim, devemos agir, mas nada disso é válido se o nosso maior propósito não estiver direcionado a Deus.

Portanto, não é Marta ou Maria; devemos ser Marta e Maria.

ESPIRITUALIDADE

 

Frei Patrício Sciadini: Jesus continua o caminho. E você, vai desistir agora?

Deus nunca volta atrás no seu amor doado; o seu amor é sem limites e preenche para sempre o universo e o coração humano.

Deus nunca se arrepende de nos ter amado e de ter enviado o seu Único Filho, Jesus Cristo, para nos salvar. Ele tenta continuamente despertar o nosso coração para reconhecer Jesus, que caminha na nossa história. Confira o artigo de Frei Patrício Sciadini.

Jesus continua o seu caminho. Mesmo lendo o Evangelho, encontramos muitas vezes esta expressão: “Jesus continuou o seu caminho”. Ele não volta atrás por onde já passou. Assim é também o nosso caminho de santidade: continuar passo a passo, com calma e serenidade, mas sempre em frente, com amor, enfrentando as dificuldades que encontramos e sem parar para choramingar sobre os nossos erros. Veja o que diz a Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate:

“Deste modo, sob o impulso da graça divina, com muitos gestos vamos construindo aquela figura de santidade que Deus quis para nós: não como seres autossuficientes, mas «como bons administradores das várias graças de Deus» (1 Ped 4, 10). Os Bispos da Nova Zelândia ensinaram-nos, justamente, que é possível amar com o amor incondicional do Senhor, porque o Ressuscitado partilha a sua vida poderosa com as nossas vidas frágeis: «o seu amor não tem limites e, uma vez doado, nunca volta atrás. Foi incondicional e permaneceu fiel. Amar assim não é fácil, porque muitas vezes somos tão frágeis; mas, precisamente para podermos amar como Ele nos amou, Cristo partilha conosco a sua própria vida ressuscitada. Desta forma, a nossa vida demonstra o seu poder em ação, inclusive no meio da fragilidade humana».” (GE 18)

O Papa nos convida a continuar, na esperança, o nosso caminho rumo à Terra Prometida. Quem tem um ideal firme não pode voltar atrás. O povo no deserto queria voltar ao Egito, mas Deus, através do profeta Moisés, obrigou o povo a prosseguir o seu caminho, sem desanimar, até chegar à meta que lhe tinha prometido. Muitas pessoas começam a caminhar numa vida cristã, mas, diante das dificuldades, param ou, infelizmente, voltam atrás, porque não têm ninguém que lhes indique o caminho a seguir.

Vivemos num mundo “líquido”. Mesmo no que diz respeito à religião, escutamos muitas coisas e há falsos profetas que nos apresentam também uma santidade fácil, que se pode comprar com pouco esforço. No entanto, Jesus nos recorda que a santidade tem um preço caro: o preço da cruz. “Quem quiser vir após mim, tome a sua cruz e siga-me!” Eu nunca encontrei um santo que não tenha sofrido incompreensões, dores e cruzes. Isto faz parte da pedagogia de Deus, que purifica os seus amigos de tudo o que é puramente humano, tornando-os capazes de saborear o doce alimento da cruz. E você e eu, caminhamos na via da santidade? Ou estamos esperando um caminho que seja fácil? Vamos nos questionar com seriedade.

Por Frei Patrício Sciadini, Carmelita descalço

IGREJA

 Papa cita Bob Dylan para criticar corrida armamentista ‘que assusta e aterroriza hoje’

O papa Leão XIV citou Bob Dylan para criticar a corrida armamentista "que assusta e aterroriza hoje".

“Como escreveu o cantor, compositor e poeta Bob Dylan, dirigindo-se figurativamente à bomba atômica, num de seus poemas: Eu te odeio porque o homem te criou, e o homem te tem e te controla”, escreve o papa, citando a canção Go Away You Bomb (1963).

A referência consta de um texto inédito incluído no livro Desarmada e Desarmante: A Paz é uma Dádiva, publicado hoje (21), por enquanto só em italiano, pela Livraria Editorial do Vaticano (LEV). Essa é a primeira antologia a reunir várias falas do papa sobre o tema da paz desde a sua eleição em 8 de maio do ano passado, e insere esta reflexão como introdução.Leão XIV diz que a paz é o grande anseio que move muitos corações, mas diz que ela também é “frequentemente ameaçada, pisoteada e ridicularizada”. Ele diz também que “hoje, nada menos que 103 Estados estão envolvidos de algum modo numa guerra na Terra”, referindo-se ao Índice Global da Paz 2026.

“As armas estão rugindo e matando na Ucrânia, no Oriente Médio, no Sudão, em Mianmar, no Iêmen, no Congo e em muitas outras situações”, diz ele em texto publicado pelo Vatican News, serviço de informações da Santa Sé.

Desarmamento, um caminho para a paz“Na era atômica, a verdade deve prevalecer: não são as armas atômicas que geram a paz, mas sim o desarmamento”, diz o papa.

Ele também lamenta que "essa verdade, que parecia indiscutível nas últimas décadas — nas quais testemunhamos uma desescalada nuclear —, tenha sido manchada por uma corrida armamentista que hoje assusta e aterroriza".

O papa também levanta uma questão que, segundo ele, a Igreja dirige humildemente a toda a humanidade: “Deve a espécie humana continuar habitando a Terra? A combinação da dominação cibernética com o rearme global leva-nos a considerar seriamente essa questão”.“Na era atômica, a verdade deve prevalecer: não são as armas atômicas que geram a paz, mas sim o desarmamento”, diz o papa.

Ele também lamenta que "essa verdade, que parecia indiscutível nas últimas décadas — nas quais testemunhamos uma desescalada nuclear —, tenha sido manchada por uma corrida armamentista que hoje assusta e aterroriza".

O papa também levanta uma questão que, segundo ele, a Igreja dirige humildemente a toda a humanidade: “Deve a espécie humana continuar habitando a Terra? A combinação da dominação cibernética com o rearme global leva-nos a considerar seriamente essa questão”.“Na era atômica, a verdade deve prevalecer: não são as armas atômicas que geram a paz, mas sim o desarmamento”, diz o papa.

Ele também lamenta que "essa verdade, que parecia indiscutível nas últimas décadas — nas quais testemunhamos uma desescalada nuclear —, tenha sido manchada por uma corrida armamentista que hoje assusta e aterroriza".


Em outra passagem do texto, Leão XIV cita Floribert Bwana Chui, congolês de 26 anos e membro da Comunidade de Santo Egídio, que foi assassinado em 2007 por se recusar a aceitar um suborno que permitiria a entrada de arroz estragado na cidade de Goma, na República Democrática do Congo. Ele foi beatificado em junho do ano passado.

O texto também menciona os servos de Deus Giorgio La Pira e Dorothy Day, dois proeminentes ativistas católicos do século XX, unidos por seu compromisso com a paz e a justiça social.

“Eles são emblemáticos de tantos homens e mulheres que, em primeira pessoa, promoveram a paz, vencendo a tentação da corrupção, ajudando os pobres e fomentando a diplomacia”, disse o papa.

Ele diz também que a paz também está presente em "protagonistas desconhecidos que seguiram sua própria consciência".

“Já aconteceu na história de estarmos à beira de uma catástrofe nuclear”, diz o papa, antes de falar sobre o caso do oficial soviético Stanislav Petrov, cuja decisão ajudou a evitar uma possível guerra nuclear global em 26 de setembro de 1983.

“Os radares do bunker próximo a Moscou, onde Petrov estava de guarda, detectaram o lançamento de vários mísseis balísticos intercontinentais dos EUA com destino à União Soviética. Mas, foi um erro no sistema soviético de rastreamento por satélite”, diz ele.

“Petrov, desobedecendo ordens, decidiu não denunciar o suposto ataque: uma decisão tomada com a consciência de quem sabia que esse simples gesto poderia ter causado milhões de mortes”, escreve o papa.

“Um mundo em que máquinas, por mais sofisticadas e rápidas que sejam, decidam bombardear pessoas indefesas seria verdadeiramente aterrador”, diz ele.

Leão XIV diz: "A consciência de um único homem pode valer tanto quanto o mundo inteiro". A paz, diz ele, precisa de esperança.

“A Igreja continuará pregando a caridade para com todos os homens e mulheres. Se há algo que o mundo busca hoje, creio que seja uma mensagem de esperança para o futuro”, escreve o papa.

Assim, ele exorta as pessoas a olhar para o amanhã “com esperança, tendo encontrado na mensagem de Jesus a única fonte”.

“A essência do ensinamento de Cristo é essa: a caridade, o amor, dar a vida pelos outros vencem a morte, o isolamento e a violência: Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância (cf. Jo 10,10)”, diz Leão XIV.

Por fim, ele dirige uma mensagem àqueles que correm o risco de cair no desespero diante das várias guerras travadas no mundo, citando o convite que o papa Pio XI fez a toda a Igreja: “Demos graças a Deus por nos fazer viver em tempos difíceis. Agora, ninguém tem permissão para ser medíocre”.

O papa conclui desejando que Deus “nos guie pelos caminhos da não-violência” e “que os fiéis e as pessoas de boa vontade jamais deixem de agir como pacificadores”.

“Que cada um de nós faça da paz a causa de nossas vidas”, conclui