sexta-feira, 6 de março de 2026

ESPIRITUALIDADE

 

Quaresma: tempo de desconectar e fazer silêncio no coração

Estamos sempre com pressa, procurando sem encontrar, sem tempo para assimilar todas as experiências que temos no dia a dia

omo vai a sua vida de oração? A Quaresma é um tempo privilegiado para buscar mais momentos de oração e de silêncio, para contemplar o Senhor na adoração, para ler a Bíblia e saborear a Palavra de Deus.

Tempo para meditar sobre a própria vida à luz de Maria no Santuário, buscando discernir os caminhos que precisamos seguir. Tempo para ler livros de espiritualidade que despertem novas perguntas em nós. Tempo para enxergar Deus na nossa vida, no silêncio, no escondido. Tempo para fazer algum retiro e voltar nosso olhar para o próprio coração.

Desconectar

Como é difícil desconectar, deixar as coisas um pouco de lado, parar e fazer silêncio! Estamos sempre com pressa, procurando sem encontrar, sem tempo para assimilar todas as experiências que temos. A Quaresma nos convida a ir ao deserto, seguindo os passos de Jesus, acompanhando sua busca.

Jesus sentiu fome no deserto. Jesus vivenciou a necessidade, a fome, a sede, a solidão. O ser humano sempre evita ter fome. Como é difícil fazer jejum quando a Igreja o propõe! Parece que é quando temos mais fome.

Na vida, buscamos satisfazer os sentidos, as necessidades, à medida em que vão surgindo. Se temos fome, comemos; se temos sede, bebemos; se precisamos de alguma coisa, compramos.

Achamos que satisfazer os desejos é o caminho da verdadeira felicidade. Como nos equivocamos! Um desejo satisfeito abre a porta para outro desejo. Maior ou diferente. E assim vamos, em um círculo interminável. Saber renunciar nos torna mais livres e, portanto, mais capazes de ser felizes.

Renúncia

Mas como custa sofrer a fome, a sede, a renúncia! Por isso, a Quaresma adquire um tom cinza, porque sentimos que temos de renunciar e nos parece que renunciar é perder algo importante, que não ter é ausência do que desejamos. Como podemos ser felizes renunciando?

Sempre que Deus nos pede uma renúncia, ela adquire um sentido muito verdadeiro. Ele nos convida a preencher nosso coração com o seu amor, com a sua vida. Mas é claro que isso dói.

O homem de hoje perdeu a imagem positiva da renúncia, que parece já não ter valor para ele. Não gostamos de sofrer a escassez, queremos tudo para "agora", achamos que precisamos de muitas coisas. Então, já saciados, nosso amor se empobrece e nossa personalidade se enfraquece.

Estamos acostumados a ter tudo facilmente. Nesta sociedade do bem-estar, nós nos habituamos rapidamente às coisas boas. O aburguesamento da alma é paulatino, lento, mas crescente. A alma vai perdendo força, ímpeto, e adormece. Vai se enfraquecendo quase sem percebermos.


RELIGIÃO

 

Você sabe o que é o Dicastério para a Doutrina da Fé do Vaticano? 

Nos livros de história se fala muito sobre o papel do Santo Ofício durante as inquisições, mas qual o papel dessa instituição hoje? 

De antiga Inquisição a Dicastério renovado, o órgão mais influente do Vaticano busca equilibrar a proteção da tradição com os desafios de uma Igreja em saída. Em 2026, a nova diretriz do Vaticano é clara: a doutrina deve pulsar no ritmo da evangelização. 

No imaginário popular, o palácio situado à esquerda da Basílica de São Pedro ainda evoca ecos da antiga "Suprema Sagrada Congregação da Inquisição Romana e Universal". No entanto, quem percorre os corredores do Dicastério para a Doutrina da Fé (DDF) hoje encontra uma atmosfera distinta. Sob a liderança do Cardeal Víctor Manuel Fernández, a instituição que já foi o braço de ferro da ortodoxia atravessa uma metamorfose histórica, priorizando o diálogo e a "inteligência da fé" sobre a mera condenação. 

Uma longa história

A história do Dicastério é, em muitos aspectos, a própria história da resistência e adaptação da Igreja Católica. Fundado em 1542 pelo Papa Paulo III como a "Congregação da Inquisição", seu objetivo inicial era defender a fé de heresias e cismas. Ao longo dos séculos, mudou de nome e de métodos. Em 1965, às vésperas do encerramento do Concílio Vaticano II, Paulo VI transformou-o na Congregação para a Doutrina da Fé, eliminando o índice de livros proibidos e priorizando a promoção da sã doutrina. 

Contudo, foi a Constituição Apostólica Praedicate Evangelium (2022) que selou a mudança estrutural mais profunda. A reforma de Francisco retirou do Dicastério o status de "Supremo" — não por perda de importância, mas para integrá-lo a uma lógica de serviço e não de hierarquia absoluta sobre os demais ministérios vaticanos. 

A estrutura no Vaticano

A estrutura atual do Dicastério é binária, dividida em duas seções que operam com autonomias distintas, mas propósitos convergentes. Esta divisão é fundamental para entender como a Igreja gere seus maiores dilemas contemporâneos. 

A seção doutrinária é responsável por aprofundar a compreensão da fé e os novos desafios éticos (como bioética e inteligência artificial). É a grande equipe  do Papa, onde documentos são gestados para iluminar a vida dos fiéis. 

Já a seção disciplinar trata dos chamados delicta graviora (crimes graves), que incluem desde delitos contra a santidade dos sacramentos até os dolorosos casos de abuso de menores. Aqui, o Dicastério atua como um tribunal supremo de apelação. 

A doutrina como fonte de alegria

Neste início de 2026, o Dicastério reafirma sua missão sob uma luz mais pastoral. Durante a recente Plenária do órgão, o Cardeal Víctor Manuel Fernández, Prefeito do Dicastério, propôs uma meditação que ressoa em todas as dioceses. Para cardeal argentino, a doutrina não pode ser um museu. "O nosso Dicastério não existe apenas para fiscalizar erros, mas para fazer brilhar a beleza da fé," afirmou o Cardeal Fernández em sua intervenção. Ele destaca que a tarefa do teólogo e do oficial do Vaticano é ajudar o povo de Deus a entender que o dogma é, na verdade, uma "janela aberta para o mistério de Deus", e não um muro. 

A visão apresentada em 2026 foca na dimensão sapencial. Isso significa que, ao analisar uma questão doutrinária, o Dicastério não busca apenas a correção lógica, mas se aquela resposta ajuda o fiel a viver melhor o Evangelho. "A verdade sem caridade torna-se fria; a caridade sem verdade torna-se cega," ressalta a liderança do Dicastério, ecoando a necessidade de uma Igreja que saiba acolher sem abrir mão de sua identidade. 

Olhar para o futuro

Dicastério para a Doutrina da Fé continua sendo o "para-raios" das tensões dentro da Igreja. Seja lidando com as pressões por mudanças em questões de moral sexual ou mantendo o rigor nos processos disciplinares para garantir a proteção de vulneráveis, o órgão é o ponto de equilíbrio precário, mas necessário. 

A missão é clara: "promover e salvaguardar a doutrina sobre a fé e os costumes em todo o mundo católico". No entanto, a forma como essa salvaguarda ocorre mudou. Se antes o foco era o silenciamento de dissidentes, hoje o esforço reside na "evangelização da cultura". 

O Dicastério para a Doutrina da Fé prova que a ortodoxia cristã é dinâmica. Ele permanece como a âncora que impede o barco da Igreja de deriva, mas com velas ajustadas para os ventos de um novo tempo, onde a verdade é servida com o tempero da misericórdia.