Amoris laetitia está em consonância com a doutrina da Igreja, diz freira ao papa e a bispos
CIDADE DO VATICANO — Amoris Laetitia, exortação apostólica do papa Francisco sobre a família, de 2016, está em consonância com a doutrina e a prática da Igreja que a precederam, disse a freira Helen Alford, OP, na abertura de uma reunião hoje (7) no Vaticano sobre o documento.
Assim como um documento anterior sobre a família, de autoria do papa são João Paulo II, Amoris laetitia foi uma resposta inovadora ao desafio de seguir a lei moral "quando as situações sociais são turbulentas e mudam rapidamente", disse Alford.
A publicação do documentoAmoris laetitiaem 2016 gerou intenso debate, especialmente depois que os bispos da Região Pastoral de Buenos Aires a interpretaram como permitindo, depois de um processo de discernimento pastoral acompanhado, o acesso aos sacramentos da reconciliação e da Eucaristia para alguns católicos divorciados e recasados no civil, “quando a pessoa julgar que incorreria numa falta adicional prejudicando os filhos da nova união”.
Em 2023, o Dicastério para a Doutrina da Fé disse que essa interpretação faz parte do magistério autêntico, depois de ter sido incorporada na Acta Apostolicae Sedis, boletim oficial da Santa Sé.
No início deste ano, o papa Leão XIV convocou os presidentes das conferências episcopais e os chefes das Igrejas Orientais, junto com alguns casais e especialistas em teologia, para passarem uma semana no Vaticano em “discernimento sinodal” sobre as famílias e os desafios que enfrentam hoje, como “abandono, separação e divórcio”, à luz da Amoris laetitia.
A 'lei da gradualidade'
O discurso de Alford no primeiro dia do encontro de bispos, que ocorreu de 7 a 14 de outubro, seguiu-se a uma oração de abertura e a um discurso do papa Leão XIV, que também disse haver continuidade na doutrina sobre o matrimônio desde o papa beato João Paulo I até o papa Francisco.
Assim como Leão XIV, Alford também relacionou as duas recentes exortações apostólicas sobre a família: aFamiliaris consortio, do papa são João Paulo II, e a Amoris laetitia, do papa Francisco.
Ambas, disse ela, incluem a ideia da “lei da gradualidade”. Em Amoris laetitia, o papa Francisco disse que João Paulo II a propôs “ciente de que o ser humano ‘conhece, ama e cumpre o bem moral segundo diversas etapas de crescimento’ ”.
Alford, citando o papa Francisco, disse que “isso não é uma 'gradualidade da lei', mas sim uma gradualidade no exercício prudente de atos livres por parte de indivíduos que não estão em condições de compreender, apreciar ou cumprir plenamente as exigências objetivas da lei. Pois a lei em si é uma dádiva de Deus que aponta o caminho, uma dádiva para todos, sem exceção; ela pode ser seguida com a ajuda da graça”.A freira disse que ambos os papas “preocupam-se em manter o ideal de que 'a lei é uma dádiva de Deus que aponta o caminho', e em reconhecer que muitos não são capazes de 'compreender, apreciar ou... cumprir plenamente as exigências objetivas da lei' ”.
Ela disse que 35 anos separam a Familiaris consortio da Amoris laetitia, período no qual a situação vivida pelas famílias cristãs sofreu muitas transformações.
“Como em outros casos, como na doutrina social da Igreja, quando as situações sociais são turbulentas e mudam rapidamente, pode ser necessário encontrar novas maneiras de conciliar as ‘exigências objetivas da lei’ (AL , 295) e a ‘lei da gradualidade’ (FC , 34) que muitos experimentam ao tentar ingressar nela. Tanto a Familiaris consortio quanto a Amoris Laetitia tentam fazer isso em seus diferentes contextos históricos”, disse ela.“Não nos esqueçamos”, disse a freira, “que são Tomás de Aquino e toda a tradição que remonta a ele diriam que a lei de Deus atinge sua maior expressão na nova lei, a lei do Evangelho: a graça de Jesus”.
O objetivo da reunião
“Neste encontro… somos chamados a proclamar o Evangelho tanto das famílias quanto para as famílias”, disse a freira dominicana. “Isso implica que a família é parte integrante da proclamação do Evangelho. A família tanto proclama ativamente o Evangelho quanto precisa recebê-lo”.
Alford disse que o estresse e as dificuldades frequentemente presentes na vida familiar e no casamento são uma oportunidade para maior santidade e confiança em Deus. Para unir seu sofrimento ao de Cristo, as famílias precisam ouvir as boas novas do Evangelho.
“Muitas famílias em situações de sofrimento e necessidade poderiam encontrar grande ajuda para enfrentar suas provações ao ouvirem as boas novas que lhes são proclamadas, ao receberem a nova perspectiva que o Evangelho nos dá sobre a vida e, assim, a graça dos sacramentos”, disse ela. “As próprias dificuldades, tensões e rupturas na vida familiar podem ser suportadas com mais fortaleza e com a esperança de que podem ser superadas pela união aos sofrimentos de Cristo”.
“Como diz o papa Francisco, ‘Nas horas mais sombrias da vida de uma família, a união com Jesus em seu abandono pode ajudar a evitar a ruptura’ ”, disse ela, citando Amoris laetitia nº 317.“A beleza da vocação ao matrimônio reside em sua fragilidade, sobretudo porque a fraqueza pode reacender a confiança em Deus, e a confiança em Deus desperta o desejo de santidade”, disse Alford. “Em resumo, esse é o Evangelho da e para a família de que estamos falando”.
Ajudando os jovens a escolher o casamento
A palestra de Alford também abordou o olhar relacional de Jesus e sua importância para reconhecer e "enxergar" os relacionamentos que compõem nossas vidas, que não são visíveis como objetos físicos, mas que, como o ar que respiramos, estão realmente presentes.
Ela também falou sobre a importância de ajudar os jovens a entrarem no casamento com a perspectiva e as ferramentas adequadas para enfrentar as dificuldades que ele acarreta.
“No mundo altamente instável em que vivemos hoje, se quisermos ajudar os jovens a terem a coragem de se casar e a desenvolver a capacidade de lidar com o estresse que enfrentarão, eles precisarão 'enxergar' seus relacionamentos e pensar sobre o casamento e a vida familiar de uma perspectiva relacional”, disse ela.
“O amor social, como reflexo da Trindade, é o que verdadeiramente unifica o significado espiritual da família e sua missão para com os outros, pois torna presente o querigma em todos os seus imperativos comunitários”, disse, citando Amoris laetitia n.º 324.
Ela encorajou os participantes da reunião a "buscarem maneiras de encorajar os jovens a aceitarem o grande desafio do casamento e da vida familiar, abraçando-o com a plena consciência de que experimentarão grande fragilidade como parte do processo de perceber sua beleza, e que nessa fragilidade encontrarão novas e inesperadas fontes da graça de Deus e experimentarão um desejo de santidade que lhes é próprio".
“Vamos nos unir a Jesus para convidá-los a aceitar o desafio, assim como Jesus chamou a mulher samaritana, de proclamar o Evangelho aos outros, precisamente reconhecendo sua fragilidade, para que outros se unam a eles na confiança na graça de Deus e na experiência do desejo cristão de santidade”, disse Alford.

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