sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

ESPIRITUALIDADE

 

Redescobrindo o silêncio na Quaresma

São Bento, em sua Regra, observa que é muito difícil viver o ano todo em harmonia com a própria vocação. Realista, ele se propõe, pelo menos durante a Quaresma, como explica Dom Samuel, abade cisterciense de Nový Dvůr (República Tcheca), redescobrir o silêncio como semente de unidade.

Aperseverança na busca do silêncio pode dar belos frutos de conversão e reorientar-nos para a unidade, quando a turbulência do mundo nos sobrecarrega e dispersa. Com efeito, como pode o “nós” do “Pai-Nosso” tornar-se fermento do Reino quando as nossas sensibilidades litúrgicas nos dividem, quando as legítimas opiniões políticas que nos distinguem sistematicamente se azedam, quando as nossas famílias, as nossas comunidades religiosas, as nossas paróquias se sufocam com conflitos mesquinhos?

O remédio não se encontra em uma indulgência ingênua que aceita tudo e qualquer coisa, em um sincretismo brando que renuncia à busca da verdade: "Todo mundo é bonito, todo mundo é bom...", nem em um endurecimento de posições que não respeitam nenhuma divergência. O remédio está no silêncio que abre de par em par a porta ao Senhor, o único capaz de iluminar e restaurar tudo, uma porta sempre estreita, a do Evangelho. 

Tempo de oração

O cristão é convidado a rezar a Deus Pai "nosso". Para que a Quaresma seja um tempo privilegiado de oração, deve tornar-se também um tempo dedicado a fortalecer este “nós”. O "nós", entre nós... Na Missa, todas as orações são expressas em "nós": "nós te pedimos", que essas ofertas "se tornem por nós...", "nós te oferecemos", "nós te damos graças", "nós te pedimos", que "possamos ser reunidos em um só corpo". As únicas orações que se expressam no "eu" são aquelas em que cada um pede perdão pelas próprias faltas: "Confesso-me a Deus...", "Senhor, não sou digno de receber-te..." 

Na escuridão de um silêncio profundo, o caminho a seguir torna-se claro, e isso é suficiente. 

Como podemos orar dizendo "nós" quando estamos assim divididos? Como pode este “nós” atingir a abóbada das nossas igrejas, crescer desde a nave até ao transepto, ressoar como que em eco: nós, nós, nós... Será que o "nós" dos membros dos quais Cristo é a Cabeça finalmente será capaz de se dirigir ao "nosso" Pai com uma só voz, a de Cristo? Mas isso não diz respeito apenas aos cristãos. Isto diz respeito ao imenso povo do qual os cristãos são os representantes diante de Deus nosso Pai, sustentados pelas orações dos monges, todos os habitantes deste mundo com os quais somos solidários.

Quieto...

Como o silêncio pode fortalecer esse "nós"? Colocado na Regra de São Bento entre a obediência e a humildade, o silêncio é um dom de Deus. Para recebê-lo, cabe a nós ficar em silêncio e ouvir. Silenciar as queixas geradas pelas dificuldades que nos ultrapassam, pelas desilusões inesperadas, sempre que os acontecimentos nos surpreendem ou quando os outros que nos rodeiam não reagem como esperávamos.

Para silenciar as falsas ambições que nos habitam, os sonhos de ser santos diante de Deus alcançaram essa transformação em seu próprio ritmo. Silenciar os desejos de dominar, de estar certo contra todos, de saber melhor do que todos, de segurar nossas vidas em nossas mãos. Silencie os projetos que descarrilam, as emoções vãs, os desejos que escondem becos sem saída. Calar-se para se livrar das mil e uma imagens que entulham a imaginação e velam a pureza do olhar: essas imagens e sons artificiais dos quais é tão difícil se desprender.

… e ouça

Calar-se e escutar, especialmente na oração, diante do sacrário onde Jesus ressuscitado nos fala, calando-se. Silencie nossos sentimentos. Silencie nossa agitação. Para silenciar até mesmo nossos belos pensamentos. Silencie as orações automáticas onde você cuida de si mesmo.

Calar-se sobre tudo isto, recuperar a confiança do filho que segura a mão do Pai e não pede mais do que a sua presença. Na escuridão de um silêncio profundo, o caminho a seguir torna-se claro, e isso é suficiente. É o trabalho de uma vida. Portanto, sejamos pacientes, gratos pelos fragmentos de silêncio recebidos e, acima de tudo, perseverando em procurá-lo incansavelmente.

SANTO DO DIA

 Hoje é celebrado são Gabriel das Dores, copadroeiro da juventude católica italiana

“Jesus, José e Maria, expire em paz, entre vós, a alma”, foram as últimas palavras de são Gabriel de Nossa Senhora das Dores, copadroeiro da juventude católica italiana, cuja festa é celebrada hoje (27). Ele abandonou toda uma série de “vaidades” para seguir o conselho da Virgem Maria.

Seu nome original era Francisco, assim como são Francisco de Assis. Inclusive, nasceu em Assis (Itália), em 1838, e foi batizado na mesma pia batismal que são Francisco e santa Clara. Era o décimo primeiro de treze irmãos e ficou órfão de mãe quando tinha quatro anos.

Desde criança, destacou-se por seu grande amor aos pobres, mas tinha o defeito de explodir rapidamente de raiva. Na adolescência, sua vaidade cresceu. Gostava de se vestir na moda, com roupas elegantes. Ia frequentemente ao teatro, gostava de ler romances e sentia paixão por bailes.

Entretanto, Francisco cumpria fielmente suas práticas religiosas e tinha uma grande devoção pela Virgem Maria, sob a advocação de Nossa Senhora das Dores. Em casa, conservava uma imagem da Pietá que enfeitava com flores.

Era um líder entre os jovens. Frequentou o colégio dos irmãos das Escolas Cristãs e o liceu clássico com os jesuítas. Certo dia, um conhecido lhe fez uma proposta imoral e Francisco puxou um canivete que ocultava entre suas roupas para afastá-lo.

O chamado

Aos 17 anos, a vocação sacerdotal começou a inquietá-lo. Ficou gravemente doente e, acreditando que estava morrendo, prometeu se tornar religioso se sua vida fosse salva. Uma vez recuperado, esqueceu-se de sua promessa. Mais tarde, ficou novamente doente e se encomendou ao então Beato jesuíta (hoje santo) Andrés Bobola.

Quando recuperou a saúde, prometeu igualmente se tornar religioso, mas as diversões o atraiam mais. Em um dia de caça, Francisco tropeçou e disparou um tiro que passou de raspão em seu rosto. Viu nisso um aviso do céu e renovou sua promessa. Tempos depois, comunicou sua inquietação vocacional ao seu pai, que o distraiu com teatro e reuniões.

Um 22 de agosto de 1856, na procissão de “Santa Ícone” (imagem mariana venerada em Spoleto), Francisco fixou seus olhos nos da imagem da Virgem e escutou a voz da Mãe de Deus em seu coração que lhe disse: “Tu não és chamado a seguir no mundo. O que fazes, então, nele? Entra na vida religiosa”.

Mais tarde, despediu-se de sua suposta “noiva” chamada Maria, que esteve presente em sua beatificação, e ingressou no noviciado passionista. Quando recebeu o hábito, adotou o nome “Gabriel de Nossa Senhora das Dores”. “A alegria e o gozo que disfruto dentro dessas paredes são indescritíveis”, escreveu uma vez.

Teve que aprender a controlar seu gênio e, em 1857, emitiu a profissão religiosa. No jardim, são Gabriel tinha reservado um espaço para semear e cuidar das flores especificamente para o altar. Posteriormente foi enviado ao convento passionista de Isola del Gran Sasso.

Aos 23 anos, são Gabriel se sentiu cansado, sem forças e vomitou sangue pela primeira vez, por causa da tuberculose. A comunidade se alarmou, o santo permaneceu sereno, mas piorou.

ESPIRITUALIDADE

 

É obrigatório fazer jejum na Quaresma? 

O jejum e a abstinência: mais que privação, um exercício de liberdade e solidariedade 

No calendário cristão, poucas práticas são tão mal compreendidas quanto o jejum e a abstinência. Muitas vezes vistos como meros ritos de privação ou regras dietéticas religiosas, esses exercícios são, na verdade, ferramentas espirituais profundas. Segundo o Dicionário de Liturgia, o jejum é um "sinal de penitência e de busca de Deus", um modo de o corpo expressar a fome da alma pela graça divina. 

A diferença entre jejum e abstinência

Embora caminhem juntos, possuem regras e significados distintos. O jejum consiste na redução da quantidade de alimento. A prática comum da Igreja prescreve uma única refeição completa durante o dia, permitindo duas pequenas refeições que, juntas, não igualem a principal. É obrigatório para fiéis entre 18 e 59 anos. 

Já a abstinência refere-se especificamente à privação de carne (especialmente carnes vermelhas e aves). Diferente do jejum, foca no "sacrifício da qualidade" e no paladar. É obrigatória para todos os fiéis a partir dos 14 anos. 

O calendário da penitência

De acordo com a Constituição Apostólica Paenitemini e o Código de Direito Canônico, os dias de penitência obrigatória são: 

Quarta-feira de Cinzas e Sexta-feira Santa: Dias de Jejum e Abstinência simultâneos. 

Todas as Sextas-feiras do ano: Dias de Abstinência, em memória da Paixão do Senhor. Em muitos países, como Portugal e Brasil, as Conferências Episcopais permitem substituir a abstinência por outras formas de penitência (caridade ou piedade), exceto nas sextas-feiras da Quaresma.

O sentido do jejum

O jejum cristão não é uma greve de fome nem uma dieta para saúde física. Ele possui três dimensões fundamentais: "O jejum não deve ser apenas um ato de ascese pessoal, mas um ato de caridade. O que se economiza no jejum deve ser dado aos que têm fome." 

Dimensão Teocêntrica: É um ato de culto. Jejuamos para dizer que "nem só de pão vive o homem", mas de Deus. 

Dimensão Antropológica: Ajuda o fiel a retomar o domínio sobre si mesmo. No deserto das tentações, Cristo venceu a gula e o egoísmo; o cristão, pelo jejum, treina sua vontade contra as paixões desordenadas. 

Dimensão Social: O jejum cristão é inseparável da esmola. A privação pessoal ganha sentido pleno quando se transforma em socorro ao próximo. 

Mas é obrigatório?

Sim, é uma obrigação para aqueles que seguem a religião católica. Mas não no sentido de um dever imposto, mas no sentido de “obrigado” quando agradecemos a alguém. Sentimos que somos gratos a Deus, a Jesus por seu sacrifício, à Igreja, e à nossa comunidade. Por isso, realizamos esses sacrifícios com amor e gratidão, nos sentimos “obrigados” a fazer esse esforço não como uma imposição, mas como uma resposta prática à nossa fé. Mas, a Igreja, como "mãe e mestra", recorda que a lei da caridade e da saúde física precede a lei do jejum. Estão dispensados da obrigação: Pessoas doentes ou com condições médicas debilitantes; mulheres grávidas ou que amamentam; trabalhadores braçais em condições extremas que necessitem de sustento pleno; pobres que já vivem em situação de carência alimentar.

O jejum quaresmal prepara o corpo e o espírito para o Mistério Pascal. É um "jejum de alegria" disfarçado de sobriedade: retiramos o excesso para que o essencial — a Ressurreição — possa brilhar. Como ensina a liturgia, ao privarmo-nos do alimento terrestre, despertamos em nós a fome do Pão Vivo descido do Céu.