segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

IGREJA

 “Uma autêntica vida de fé não pode se reduzir a um espiritualismo desencarnado”, diz Leão XIV

Cerca de 200 membros da Confederação Nacional das Misericórdias da Itália foram recebidos ontem (14) pelo papa Leão XIV no Palácio Apostólico, no Vaticano. No encontro, o papa disse que “uma autêntica vida de fé não pode se reduzir a um espiritualismo desencarnado”.

As Misericórdias são sociedades ou fraternidades espalhadas por toda a Itália, fundadas em Florença em 1244 por são Pedro de Verona, com o objetivo de "conduzir os homens de volta às verdades superiores ensinadas no Evangelho", especialmente a caridade. Desde a sua origem, os membros dedicam-se a colocar em prática as sete obras de misericórdia corporais na vida diária.

Ainda hoje, o serviço das Misericórdias continua como cuidados de saúde de emergência, apoio social, proteção civil e proximidade às pessoas mais vulneráveis, mantendo intacto o vínculo entre caridade, comunidade e testemunho evangélico.

Falando sobre a virtude da caridade, o papa Leão XIV disse que “uma autêntica vida de fé não pode se reduzir a um espiritualismo desencarnado, mas deságua necessariamente na sensibilidade às necessidades dos outros e no serviço generoso, sem reservas”.

“Penso em tantos de vossos confrades e confreiras” disse o Pontífice, “que pagaram pessoalmente, inclusive a um preço alto, a fidelidade à tarefa que lhes foi confiada: a eles vai o nosso imenso obrigado e a nossa oração”, disse o papa.

Além de membros da confraria de várias partes da Itália, participaram também delegações internacionais da Ucrânia, da Albânia, da Polônia e da Terra Santa. A delegação foi chefiada por Domenico Giani, presidente da confederação.

Leão XIV falou sobre a obra histórica das Irmãs da Misericórdia, comparando-a a uma semente da qual “brotou e cresceu a grande árvore”, espalhando-se pela Europa e depois pelas Américas. Ele disse que a missão delas se fundamenta no Batismo e, portanto, é sacramental.

“Isso implica para vocês o dever de cultivar, antes de tudo e com grande compromisso, a formação cristã dos associados, por meio da oração, da catequese, da fidelidade aos Sacramentos – especialmente à Missa dominical e à Confissão –, da coerência moral das escolhas e dos estilos de vida, segundo os valores do Evangelho e da tradição associativa testemunhada pelos seus Estatutos”, disse ele.

O papa disse que a confederação é composta por “leigos que inspiram leigos” e que exercem seu ministério “num clima de corresponsabilidade, pertencimento afetivo e comunhão, no qual todos são protagonistas de um esforço comum para crescer na perfeição cristã”, em situações de emergência, em zonas de guerra e nos milhares de serviços ocultos de solidariedade diária.

“Meus queridos, encorajo-vos a prosseguir o vosso compromisso como comunidade onde a fé é vivida intensamente e a caridade é praticada”, concluiu o papa Leão XIV, proferindo sua Bênção Apostólica. “Procurem crescer no espírito e servir com alegria e simplicidade, alheios a qualquer lógica de poder, dedicados ao louvor de Deus e ao bem daqueles que o Senhor coloca no seu caminho. 

Por sua vez, Giani disse que o encontro com o papa foi para as Misericórdias “um momento de grande significado espiritual e institucional”.

“Levaremos conosco a história de séculos do nosso serviço, mas sobretudo os rostos dos voluntários que trabalham diariamente em emergências, em treinamentos e no auxílio aos mais vulneráveis”, disse ele.

RELIGIÃO

 

O significado e a origem das cinzas de Quaresma


Daqui a alguns dias começa a Quaresma de 2026, um período marcado por celebrações e práticas específicos de preparação para a Páscoa.

1. O que é a Quarta-feira de Cinzas?

É o primeiro dia da Quaresma, ou seja, dos 40 dias nos quais a igreja chama os fiéis a se converterem e a se prepararem verdadeiramente para viver os mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo durante a Semana Santa. Este ano será celebrada no dia 14 de fevereiro.

A Quarta-feira de Cinzas é uma celebração que está no Missal Romano. No final da Missa, abençoa-se e impõe-se as cinzas obtidas da queima dos ramos usados no Domingo de Ramos do ano anterior.

2. Como nasceu a tradição de impor as cinzas?

A tradição de impor as cinzas remonta à Igreja primitiva. Naquela época, as pessoas colocavam as cinzas sobre a cabeça e se apresentavam diante da comunidade com um “hábito penitencial” para receber o Sacramento da Reconciliação na Quinta-feira Santa.

A Quaresma adquiriu um sentido penitencial para todos os cristãos por volta do ano 400 d.C. e, a partir do século XI, a Igreja de Roma passou a impor as cinzas no início deste tempo.

3. Por que se impõe as cinzas?

A cinza é um símbolo. Sua função está descrita no artigo 125 do Diretório sobre a piedade popular e a liturgia:

“O começo dos quarenta dias de penitência, no Rito romano, caracteriza-se pelo austero símbolo das Cinzas, que caracteriza a Liturgia da Quarta-feira de Cinzas. Próprio dos antigos ritos nos quais os pecadores convertidos se submetiam à penitência canônica, o gesto de cobrir-se com cinza tem o sentido de reconhecer a própria fragilidade e mortalidade, que precisa ser redimida pela misericórdia de Deus. Este não era um gesto puramente exterior, a Igreja o conservou como sinal da atitude do coração penitente que cada batizado é chamado a assumir no itinerário quaresmal. Deve-se ajudar os fiéis, que vão receber as Cinzas, para que aprendam o significado interior que este gesto tem, que abre a cada pessoa a conversão e ao esforço da renovação pascal”.

4. O que as cinzas simbolizam e o que recordam?

A cinza, produto da combustão de algo pelo fogo, adquiriu desde muito cedo um sentido simbólico de morte, expiração, mas também de humildade e penitência.

A cinza, como sinal de humildade, recorda ao cristão a sua origem e o seu fim: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra” (Gn 2,7); “até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” (Gn 3,19).

5. Onde podemos conseguir as cinzas?

Para a cerimônia devem ser queimados os restos dos ramos abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior. Antes de queimá-los, asperge-se água benta e incensam-se os ramos.

6. Como se impõe as cinzas?

Este ato acontece durante a missa, depois da homilia. Hoje é permitido que os leigos ajudem o sacerdote. As cinzas são impostas na fronte, em forma de cruz, enquanto o ministro pronuncia as palavras Bíblicas: “Lembra-te de que és pó e ao pó voltarás” ou “Convertei-vos e crede no Evangelho”.

Depois de receber as cinzas, o fiel deverá retirar-se em silêncio, meditando na frase proferida.

7. O que devem fazer quando não há sacerdote?

Quando não há sacerdote, a imposição das cinzas pode ser realizada sem missa, de forma extraordinária. Entretanto, é recomendável que antes do ato participem da liturgia da palavra.

A bênção das cinzas, porém, como todo sacramental, somente pode ser feita por um sacerdote ou um diácono.

8. Quem pode receber as cinzas?

Qualquer pessoa pode receber este sacramental, inclusive os não católicos. Como explica o Catecismo (1670 ss.), “sacramentais não conferem a graça do Espírito Santo à maneira dos sacramentos; mas, pela oração da Igreja, preparam para receber a graça e dispõem para cooperar com ela”.

9. A imposição das cinzas é obrigatória?

A Quarta-feira de Cinzas não é dia de preceito e, portanto, a imposição das cinzas não é obrigatória..

10. Quanto tempo é necessário permanecer com a cinza na fronte?

Quanto tempo a pessoa quiser. Não existe um tempo determinado.

11. O jejum e a abstinência são necessários?

O jejum e a abstinência são obrigatórios durante a Quarta-feira de Cinzas, como também na Sexta-feira Santa, para as pessoas maiores de 18 e menores de 60 anos. Fora desses limites, é opcional. Nesse dia, os fiéis podem ter uma refeição principal uma vez durante o dia.

A abstinência de comer carne é obrigatória a partir dos 14 anos. Todas as sextas-feiras da Quaresma também são de abstinência obrigatória. Às sextas-feiras do ano também são dias de abstinência. O gesto, dependendo da determinação da Conferência Episcopal de cada país, pode ser substituído por outro tipo de mortificação ou oferecimento como a oração do terço.

SANTO DO DIA

 Hoje é celebrado santo Onésimo, bispo de Éfeso

Hoje (16), a Igreja celebra santo Onésimo, que foi um escravo fugitivo que se tornou bispo de Éfeso e que morreu mártir ao ser apedrejado em Roma. Seu nome vem do grego e significa “proveitoso”.

Segundo o Martirológio Romano, Onésimo “foi acolhido por são Paulo de Tarso e concebido como filho na fé”. Isto ocorreu quando fugia da justiça depois de ter roubado seu amo Filêmon, um cristão rico e líder da Igreja de Colossos (território da atual Turquia).

Foi quando Onésimo entrou em contato com são Paulo, que se encontrava, então, como prisioneiro em Roma. O apóstolo o converteu, batizou e o enviou à casa de seu antigo amo com uma carta de recomendação tal como está escrito em sua carta a Filêmon 10-12: “Venho suplicar-te em favor deste filho meu, que gerei na prisão, Onésimo. Ele poderá ter sido de pouca serventia para ti, mas agora será muito útil tanto a ti como a mim. Torno a enviá-lo para junto de ti, e é como se fora o meu próprio coração”.

Nos versículos 18-19 da mesma epístola, Paulo se compromete a pagar as dívidas de Onésimo. “Se ele te causou qualquer prejuízo ou está devendo alguma coisa, lança isto em minha conta. Eu, Paulo, escrevo de próprio punho: Eu pagarei. Para não te dizer que tu mesmo te deves inteiramente a mim!”.

Dos 25 versículos que a carta de são Paulo a Filêmon contém, 12 são dedicados a apresentar Onésimo com seu filho . Em sua carta aos Colossenses (4,7-9), cita novamente Onésimo e conta que voltou à casa de Filêmon e finalmente foi enviado como um verdadeiro irmão:

“Quanto ao que me concerne, o caríssimo irmão Tíquico, ministro fiel e companheiro no Senhor, vos informará de tudo. Eu vo-lo envio para este fim, para que conheçais nossa situação e console os vossos corações. Ele vai juntamente com Onésimo, nosso caríssimo e fiel irmão, conterrâneo vosso. Ambos vos informarão de tudo o que aqui se passa”.

Ao que parece, Filêmon perdoou e colocou em liberdade seu escravo arrependido e o mandou se reunir de novo com são Paulo.

São Jerônimo conta que Onésimo chegou a ser pregador do Evangelho e, em seguida, bispo de Éfeso por ordem do apóstolo Paulo. Posteriormente, Onésimo foi feito prisioneiro e levado a Roma, onde morreu apedrejado.

LITURGIA DIÁRIA

Evangelho de segunda-feira: o sinal para esta geração

Comentário ao Evangelho de segunda-feira da VI semana do Tempo Comum. «Porque pede esta geração um sinal?». O testemunho da nossa vida cristã normal pode ser o melhor sinal para esta geração.


 Evangelho (Mc 8, 11-13)

Naquele tempo, apareceram alguns fariseus e começaram a discutir com Jesus. Para O porem à prova, pediam-Lhe um sinal do céu. Jesus suspirou do fundo da alma e respondeu-lhes:

«Porque pede esta geração um sinal? Em verdade vos digo: não se dará nenhum sinal a esta geração».

Depois deixou-os, voltou a subir para o barco e foi para a outra margem do lago.


Comentário

No sábado passado, alegrámo-nos ao contemplar a compaixão de Jesus pela multidão faminta. Com alguns pães, Ele alimenta-os até todos ficarem saciados: um sinal prodigioso do Céu. Mas hoje ficamos contrariados: depois do grande milagre, os fariseus confrontam Jesus e pedem outro milagre. E Jesus fica chocado: como é possível tanta dureza de coração? Por que pedem um sinal? A resposta é um decidido não. Não haverá nenhum sinal.

Algo semelhante acontece com a técnica do som: às vezes um recetor diz: “não há sinal”, porque há uma falha na conexão com o transmissor. Aqui não há conexão entre Jesus e os que O procuram com más intenções: não para ouvir a Sua palavra, mas para contradizê-la. E, como não conseguem derrotá-l'O verbalmente, pedem-Lhe que prove a sua verdade com um sinal do Céu. Eles acreditam em milagres, mas não na palavra de quem faz esses milagres. Em resumo, eles não acreditam em Jesus. Na verdade, eles rejeitam-n'O. Eles viram-Lhe as costas com a sua atitude, e Jesus não pode fazer outra coisa senão virar-lhes as costas também, retomando a sua travessia na barca. Não é a primeira vez que vemos Jesus «com indignação e entristecido com a dureza dos seus corações» (Mc 3, 5).

Que sinal pode servir para os corações endurecidos? Nenhum. Ao contrário, o sinal é não lhes dar nenhum sinal. Deve ter sido muito doloroso para Jesus ter que deixá-los sem poder praticar a misericórdia com eles. Talvez tenha sido a única saída para eles, para sua possível conversão. Como S. Josemaria nos ensina: «Nunca Jesus Se mostra distante e altivo. Por vezes, durante os anos de pregação, podemos vê-l'O desgostoso por lhe doer a maldade humana. Mas, se repararmos melhor, logo perceberemos que o que Lhe provoca o desgosto ou a cólera é o amor, que o desgosto e a cólera são apenas um novo modo de nos arrancar à infidelidade e ao pecado»[1].

domingo, 15 de fevereiro de 2026

SANTO DO DIA

 

Hoje é celebrado são Cláudio de la Colombiere, jesuíta entregue ao Coração de Jesus

Hoje (15), a Igreja Católica comemora são Cláudio de la Colombiere, sacerdote jesuíta francês do século XVII, que escreveu sobre as visões do Sagrado Coração de Jesus de outra grande santa, Margarida Maria Alacoque.

Quando canonizou Cláudio em 1992, o papa são João Paulo II o apresentou como modelo de jesuíta, recordando como “se entregou por completo ao Sagrado Coração, ‘sempre abrasado de amor’. Inclusive, praticou o esquecimento de si mesmo a fim de alcançar a pureza do amor e de elevar o mundo a Deus”.

Nascido no sul da França durante 1641, são Cláudio fazia parte de uma família de sete filhos, dos quais quatro entraram no sacerdócio ou na vida religiosa. Frequentou uma escola da Companhia de Jesus em sua juventude e ingressou na ordem aos 17 anos.

Como noviço, Cláudio admitiu ter uma “terrível aversão” ao rigoroso tratamento requerido pela ordem, mas o noviciado conseguiu incrementar o seu talento natural, o que o levaria, em seguida, a fazer um voto privado de obedecer as regras o mais perfeitamente possível.

Depois de completar os períodos de estudo, Cláudio foi ordenado sacerdote em 1669. Conhecido como um grande pregador, também ensinou na universidade e serviu como tutor dos filhos do ministro de finanças do rei Luís XIV.

Em 1674, foi eleito superior de uma casa dos jesuítas na cidade de Paray-le-Monial. Nessa época, quando também foi confessor em um convento de religiosas da localidade, Cláudio fez parte de diversos acontecimentos que mudariam sua própria vida e a história da Igreja no Ocidente.

Uma dessas religiosas era santa Margarida Maria Alacoque, que dizia ter experimentado revelações privadas de Cristo, solicitando a devoção ao Seu coração. Entretanto, dentro do convento, esta notícia – que o tempo e a Igreja se encarregariam de mostrar que era verdadeira – foi recebida com certo desprezo.

Durante seu tempo em Paray-le-Monial, o padre Cláudio se tornou o diretor espiritual desta grande santa e escutou cuidadosamente seu testemunho sobre as revelações, chegando à conclusão de que a Irmã Margarida Maria as tinha recebido, efetivamente, de maneira extraordinária.

Os escritos de Cláudio de la Colombiere e seu testemunho da realidade das experiências da santa ajudaram a estabelecer o Sagrado Coração como um dos pilares da devoção católica. Isto, por sua vez, ajudou a combater a heresia jansenista, que afirmava que Deus não quer a salvação de algumas pessoas.

No outono de 1676, o padre Cláudio foi chamado à Inglaterra. Durante um momento de tensão no país religiosamente desgarrado, exerceu seu ministério como capelão e pregador de Maria de Modena, uma católica que havia se tornado a Duquesa de York.

Em 1678, um falso rumor se estendeu sobre um suposto complô católico contra a monarquia inglesa. A mentira levou à execução de 35 pessoas inocentes, entre eles, oito jesuítas. O padre Cláudio não foi assassinado, mas foi acusado, detido e preso em um calabouço durante várias semanas.

O jesuíta francês suportou heroicamente a provação, mas as condições na prisão maltrataram muito sua saúde antes de sua expulsão da Inglaterra. Voltou para a França em 1679 e retomou seu trabalho como professor e sacerdote, fomentando o amor pelo Sagrado Coração de Jesus entre os fiéis.

Em 1681, Cláudio de la Colombiere voltou a Paray-le-Monial, o local das revelações de santa Margarida Maria Alacoque.

Lá, em 1682, quando tinha apenas 41 anos, o sacerdote morreu de uma hemorragia interna no primeiro domingo da Quaresma, no dia 15 de fevereiro.

Foi beatificado em 1929 – nove anos depois da canonização de santa Margarida Maria Alacoque – e canonizado 63 anos depois, por são João Paulo II.

LITURGIA DIÁRIA

 

Evangelho de domingo: a plenitude da Lei

Comentário ao Evangelho do VI domingo do Tempo Comum (Ciclo A). «Vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão e vem depois apresentar a tua oferta». Deus espera-nos em cada Missa. Agradeçamos a sua chamada, espalhando a paz e a alegria à nossa volta.


Evangelho (Mt 5, 17-37)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:

«Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas completar. Em verdade vos digo: Antes que passem o céu e a terra, não passará da Lei a mais pequena letra ou o mais pequeno sinal, sem que tudo se cumpra. Portanto, se alguém transgredir um só destes mandamentos, por mais pequenos que sejam, e ensinar assim aos homens, será o menor no reino dos Céus. Mas aquele que os praticar e ensinar será grande no reino dos Céus. Porque Eu vos digo: Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos Céus.

Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Não matarás; quem matar será submetido a julgamento’. Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que se irar contra o seu irmão será submetido a julgamento. Quem chamar imbecil a seu irmão será submetido ao Sinédrio, e quem lhe chamar louco será submetido à geena de fogo. Portanto, se fores apresentar a tua oferta ao altar e ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão e vem depois apresentar a tua oferta. Reconcilia-te com o teu adversário, enquanto vais com ele a caminho, não seja caso que te entregue ao juiz, o juiz ao guarda, e sejas metido na prisão. Em verdade te digo: Não sairás de lá, enquanto não pagares o último centavo.

Ouvistes que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que olhar para uma mulher com maus desejos já cometeu adultério com ela no seu coração. Se o teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e lança-o para longe de ti, pois é melhor perder-se um só dos teus olhos do que todo o corpo ser lançado na geena. E se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado, corta-a e lança-a para longe de ti, porque é melhor que se perca um só dos teus membros, do que todo o corpo ser lançado na geena.

Também foi dito: ‘Quem repudiar sua mulher dê-lhe certidão de repúdio’. Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que repudiar sua mulher, salvo em caso de união ilegítima, expõe-na ao adultério. E quem se casar com uma repudiada comete adultério.

Ouvistes ainda que foi dito aos antigos: ‘Não faltarás ao que tiveres jurado, mas cumprirás diante do Senhor o que juraste’. Eu, porém, digo-vos que não jureis em caso algum: nem pelo Céu, que é o trono de Deus; nem pela terra, que é o escabelo dos seus pés; nem por Jerusalém, que é a cidade do grande Rei. Também não jures pela tua cabeça, porque não podes fazer branco ou preto um só cabelo. A vossa linguagem deve ser: ‘Sim, sim; não, não’. O que passa disto vem do Maligno».


Comentário

No Evangelho de S. Mateus há cinco grandes discursos de Jesus intercalados por narrações de factos e milagres. A passagem deste domingo faz parte do primeiro destes discursos, o Sermão da Montanha, e consiste num fragmento das chamadas “antíteses”. A atraente novidade que o Mestre prega não cai no fácil tópico da transgressão da norma estabelecida ou da sua abolição: «Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas completar». Para ser cidadãos do Reino dos Céus, Jesus propõe o de sempre, mas de uma forma nova, plena e perfeita: a que Ele mesmo encarna. E a lei do amor que Jesus inaugura exige cumprimento pleno até nas menores coisas.

No discurso aparece várias vezes uma expressão peculiar para mencionar a Lei de Moisés: «Ouvistes que foi dito». Esta fórmula remete por um lado à tradição oral em Israel (“ouvistes”), por meio da qual os mestres ensinavam como viver com justiça, ou seja, segundo a vontade de Deus exposta na Lei. Por outro lado, a fórmula “foi dito” é um modo semítico de evitar o nome de Deus por respeito: quer dizer, foi Deus quem disse, e d'Ele vem a Lei mosaica. Jesus situa-se acima de Moisés e com a mesma autoridade legisladora de Deus: «Eu, porém, digo-vos».

Para corroborar o valor da vida humana, a Lei dizia «não matarás» (Ex 20, 13; Dt 5, 17) porque serás réu de juízo (cf. Lv 24, 17). Jesus assegura que até a ira para com outro e o insulto já nos tornam merecedores de castigo; e amaldiçoar a outro, faz merecer inclusive o inferno. É tão grande a dignidade da pessoa, que antes de fazer ofertas a Deus, devemos reconciliar-nos até das menores desavenças com o outro.

Falando do preceito sobre o adultério (cf. Ex 20, 14; Dt 5, 18), Jesus enfatiza novamente, de outro ponto de vista, o excelso respeito para com os outros, subjacente na Lei. Se o adultério consiste em apossar-se de uma pessoa casada para satisfação pessoal, não é lícito fazê-lo nem sequer no foro íntimo, onde se comete o mesmo pecado, ainda que não se realize externamente: «já cometeu adultério com ela no seu coração» (v. 28).

«Se o teu olho direito te escandaliza...» (v. 29). Por meio de exageros que são muito comuns na retórica semítica, Jesus esclarece que é melhor perder parte de si mesmo do que pecar e merecer o inferno por completo. Literalmente, “escandalizar” não significa tanto mexer com a consciência de alguém como levá-lo a atuar mal. Se algo em nós mesmos se opõe à lei do amor e do respeito ao outro, deve ser arrancado, inclusive o que mais se estima, como dá a entender a expressão “olho direito” e “mão direita”.

No antigo costume do repúdio, a legislação mosaica introduziu a obrigação da certidão de divórcio: que dizer, uma ata assinada pelo marido que permitia à mulher ser recebida por outro homem. No entanto, para sublinhar a grandeza e a dignidade do vínculo matrimonial com uma mulher, Jesus torna inválidos todos os repúdios, já que continuavam expondo ao adultério a mulher e quem a recebesse. E era o marido, que repudiava, que se tornava culpado. Não é fácil interpretar a exceção a esta culpa que Jesus menciona: “em caso de fornicação (porneia)” (v. 32). Pode ser que se refira a rejeitar uma mulher com a qual se tem uma união ilegítima.

Jesus também ensina sobre os juramentos dentro da lei mosaica (cf. Lv 19, 12; Nm 30, 3; Dt 23, 22), que procura evitar a mentira e o engano. Estes atos realizavam-se mais facilmente se, ao cometê-los, se invocava Deus ou algo muito valioso; por isso eram mais graves. Jesus resolve toda casuística e juramento grandiloquente exigindo simplicidade e honestidade: «A vossa linguagem deve ser: ‘Sim, sim; não, não’. O que passa disto vem do Maligno» (v. 37), talvez porque a necessidade de sublinhar mais a palavra dada seja um início de suspeita.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

IGREJA

 

[ENTREVISTA] Frei Gustavo nos fala sobre “A Regra” de São Francisco de Assis

Um santo, um caminho de vida e oito séculos que nos separam desse testemunho sempre atual. Vamos conhecer um pouco mais sobre São Francisco de Assis 

Em meio às celebrações dos centenários franciscanos, Frei Gustavo Jonas reflete sobre como os escritos de São Francisco de Assis, redigidos há oito séculos, oferecem respostas surpreendentemente atuais para os conflitos e divisões do mundo contemporâneo. 

Frei Gustavo, estamos vivendo um ciclo de centenários franciscanos. Como a Regra de São Francisco se insere nesse contexto e qual sua importância histórica?

A Regra é o documento que dá identidade e forma de vida aos seguidores de Francisco. No ano de 2023, celebramos os 800 anos da chamada "Regra Bulada", aprovada pelo Papa Honório III em 1223. Ela não é apenas um conjunto de leis, mas a cristalização de uma experiência de vida baseada no Evangelho. Francisco queria que seus irmãos vivessem sem nada de próprio, em obediência e castidade, mas, acima de tudo, em fraternidade. 

O senhor relaciona a Regra diretamente com a "Mística da Paz". Como essa conexão se dá na prática franciscana?

Para Francisco, a paz não é apenas a ausência de guerra, mas uma atitude interior que transborda para o exterior. Na Regra, ele exorta os frades a não discutirem e a não julgarem os outros. A paz nasce da "minoridade": quando eu me coloco abaixo do outro, não há motivo para conflito. Ele dizia que, ao entrar em uma casa, a primeira saudação deve ser "O Senhor te dê a paz". É uma mística que exige despojamento de si mesmo para acolher o diferente. 

O que o "espírito da Regra" de São Francisco tem a dizer para o homem do século XXI?

O legado mais urgente é a capacidade de diálogo. Francisco viveu em um tempo de Cruzadas, de ódio religioso e social, e ele escolheu o caminho do desarmamento. Ele foi ao encontro do Sultão não para converter pela força, mas para estabelecer uma ponte. A Regra nos ensina que o outro não é um inimigo a ser vencido, mas um irmão a ser abraçado. Se aplicarmos essa mística hoje, nas redes sociais e nas famílias, transformamos a cultura do cancelamento na cultura do encontro. 

Como a Regra dialoga com a ecologia integral proposta pelo Papa Francisco?

A espiritualidade franciscana não separa o amor a Deus do amor às criaturas. O Cântico das Criaturas, escrito por Francisco ao final da vida, é o desdobramento natural da Regra. Se eu sou irmão de todos, sou também irmão do sol, da lua e da "Irmã Terra". A paz franciscana é cósmica. Quando exploramos a natureza de forma gananciosa, estamos quebrando a regra fundamental da fraternidade universal. A ecologia integral é, no fundo, a atualização da mística de Assis. 

Para encerrar, como um leigo pode viver o "espírito da Regra"?

Através da simplicidade e da retidão de coração. Não precisamos usar o hábito para sermos instrumentos de paz. Viver a Regra hoje é buscar uma vida menos consumista, mais solidária e atenta aos que sofrem nas periferias. É fazer de cada dia um exercício de reconciliação, começando pelas pequenas coisas.