Acompanhar pastoralmente não é o mesmo que revisar a doutrina, diz bispo de Frederico Westphalen
“Acompanhar pastoralmente as pessoas, com misericórdia e discernimento — como o papa Francisco insistentemente recordava — não é o mesmo que revisar a doutrina”, disse à ACI Digital o bispo de Frederico Westphalen (RS), dom Antonio Carlos Rossi Keller.
A preocupação com a unidade da moral católica com a verdade revelada levou o bispo a publicar a nota Pastoral “A Pessoa Humana, o Amor, a Sexualidade e a Missão da Igreja”, em 16 de agosto.
A nota é “pastoral, não polêmica”, disse dom Keller. “Vivemos um tempo em que se fala muito de pessoa humana, liberdade, afetividade, sexualidade, matrimônio e família — e, paradoxalmente, nunca foram tão frequentes as dúvidas, as confusões e as interpretações contraditórias”.Para ele, a “diocese precisava de um texto de referência, sereno, positivo e acessível, que unisse fidelidade doutrinal e linguagem clara para a formação”.
Para o bispo, há “ao menos, cinco confusões que o documento procura enfrentar”: “a redução da liberdade a pura autonomia, desvinculada da verdade e da responsabilidade diante de Deus e dos outros; a redução do amor a sentimento ou a busca de satisfação imediata, esvaziando-o da dimensão de dom, fidelidade e sacrifício; a banalização da sexualidade, separada da dignidade da pessoa e reduzida a objeto de consumo; a confusão sobre a identidade sexual, que dissocia a pessoa da corporeidade querida pelo Criador” e “a fragilidade dos vínculos, tratando o matrimônio como contrato revogável e a família como projeto meramente emocional”.
‘Só a verdade liberta’
“Que ninguém se separe da verdade, porque só a verdade liberta”, essa é a mensagem central da nota pastoral, segundo dom Antonio Carlos Keller.
Para ele, “a pessoa humana só se compreende plenamente em Jesus Cristo”, porque “Nele, o amor, a liberdade, a sexualidade, o matrimônio e a família encontram o seu sentido mais profundo”.“Quem descobre isso descobre, ao mesmo tempo, a alegria de viver e a beleza da própria vocação”, disse.Segundo o bispo, “a Igreja sempre acompanhou os seus fiéis com paciência, com gradualidade no crescimento, sem jamais alterar o depósito da fé recebido dos Apóstolos”.
Para ele, “a verdade do matrimônio entre homem e mulher, da sua unidade, indissolubilidade e abertura à vida, não pode ser apresentada como uma entre várias opções” porque “é um bem para a pessoa humana”.
“Acolher, sim; relativizar, não. Acolher uma pessoa nunca significa concordar com tudo o que ela faz; significa caminhar com ela em direção à verdade que liberta. É exatamente o que procurei deixar claro no capítulo “A verdade e a misericórdia caminham juntas”, ressaltou o bispo.Criado por Francisco em fevereiro de 2024 para tratar de questões doutrinais, pastorais e éticas “controversas”, entre elas as relações homossexuais, o Grupo de Estudos 9 do Sínodo da Sinodalidade publicou, em 5 de maio de 2026, o relatório final intitulado Critérios Teológicos e Metodologias Sinodais para o Discernimento Compartilhado de Questões Doutrinais, Pastorais e Éticas Emergentes.
Segundo o relatório, o discernimento das “questões emergentes” é uma oportunidade para uma “autêntica mudança de paradigma”, processo que, segundo o texto, foi iniciado pelo Concílio Vaticano II. Essa expressão usada pelo relatório remete à Constituição Apostólica Veritatis gaudium, na qual o papa Francisco defende uma “mudança radical de paradigma” e uma “corajosa revolução cultural” na renovação dos estudos eclesiásticos.
O documento do grupo 9 ainda diz que essa “mudança” significa “redescobrir a concepção bíblica da verdade de Deus que se revela na história” e promover “processos de aprendizagem compartilhada na comunidade cristã”.
Na Carta Encíclica Veritatis Splendor, o papa são João Paulo II fala sobre “o conjunto do ensinamento moral da Igreja, com a finalidade concreta de evocar algumas verdades fundamentais da doutrina católica que, no atual contexto, correm o risco de serem deformadas ou negadas” e “requerem, portanto, ser corrigidas ou purificadas à luz da fé”.Para dom Antonio Keller, “a Veritatis Splendor permanece inteiramente atual”. Ele explicou que “a moral católica não é, nunca foi e nunca será “moral de situação”” porque “a bondade ou malícia dos atos humanos não se mede apenas pelas intenções, emoções ou circunstâncias, mas pela conformidade com a verdade da pessoa humana e com o desígnio do Criador”.
Segundo o bispo, “a circunstância pode atenuar a responsabilidade subjetiva, mas não reescrever a objetividade da norma moral”.