quarta-feira, 1 de abril de 2026

ESPIRITUALIDADE

 

O significado teológico da Última Ceia de Jesus?


Professor de teologia explica o sentido da refeição que concluiu a vida de Jesus

o dramático momento que precede a prisão e morte de Jesus, os Evangelhos relatam a última ceia. Momento emocionante que as comunidades vivenciam na quinta-feira Santa com a cerimônia do Lava-pés.  

Jesus frequentou diversas mesas segundo os Evangelhos, mas qual a importância dessa última refeição? Segundo o Padre Francys Silvestrini, professor de teologia em Belo Horizonte, Jesus era muito aberto a encontros e frequentava a casa de muitas pessoas e comia com elas. A Última Ceia poderia passar como desconhecida, sem relevância perto das outras ou ser só mais uma, contudo, não é assim. “A grande diferença é que nessa quinta-feira santa a refeição é  completamente nova, completamente diferente, porque nessa refeição o que Jesus quer servir é ele mesmo”, explicou o professor em entrevista à Rede Imaculada de Comunicação

"Em outras palavras, é isso que Jesus diz: Olha, o que vai acontecer amanhã, nessa sexta-feira santa, é o dom da minha vida, é isso que está acontecendo hoje aqui de modo antecipado. Eu estou me oferecendo a vocês como alimento para a vida de vocês”, enfatiza o sacerdote jesuíta.  

A Última Ceia não foi ocasional e nem uma surpresa, mas foi preparada por Jesus e emoldura o drama da Paixão. O Lava-pés celebrado nas igrejas não é teatro e nem representação, mas é o memorial da vida de fé que se alimenta da Eucaristia. Padre Francys explica que Jesus, por meio de seus gestos e palavras, quis se expressar mais ou menos assim, para entendermos melhor: “Eu que passei a minha vida dando a vocês o ensinamento, fazendo gestos da presença do reino no meio de vocês,  agora eu me dou por inteiro por vocês. Esse é meu corpo e esse é meu sangue. Esse é o coração do sentido dessa refeição”. 

Os gestos de Jesus na noite santa foram quatro e Padre Francys nos explica o significado destas atitudes de Jesus em um momento tão emblemático: “Jesus tomou o pão, deu graças, partiu e deu aos discípulos. Jesus entrega aos discípulos esses gestos. Entrega para nós também, para que a gente aprenda a viver assim em nossa vida: dando graças, recebendo os dons, partilhando e nos doando”.

A vida de Jesus foi sempre uma partilha

Segundo Padre Francys, Jesus parte o pão na Última Ceia e ele será partido por amor a todos, aliás, sua vida foi sempre partir-se e se doar aos outros. “Nascer já é partir-se, já é se diferenciar de nossa mãe. Então é a primeira partida que a gente tem que fazer e ao longo de nossa vida nós vamos passando por muitas rupturas, muitas partições,  então a vida também é assim”. 

Jesus ordenou que fosse realizado sempre em memória dele a partilha do pão e do vinho. No Novo Testamento são relatadas as celebrações desse mistério vital para os cristãos e, ao longo de dois milênios a fé cristã se nutre da eucaristia. “Esse mandamento do Senhor que nós fazemos e celebramos em cada Eucaristia indica a maneira como devemos viver, do mesmo jeito que Jesus viveu”. 

No Evangelho de João, após a Última Ceia tem lugar um longo, profundo e emocionado discurso de Jesus, conhecido como testamento, oração sacerdotal ou discurso de despedida, o texto, segundo Padre Francys revela o “grande sentido da narrativa da Última Ceia, da Eucaristia. O desejo de Jesus é que nós tenhamos um tipo de unidade que é o mesmo que ele tem com o Pai,  que é uma unidade profunda de comunhão no amor.  Jesus, no Evangelho de João, está rezando para que isso aconteça conosco e a gente, na fé, em cada celebração eucarística, diz também cremos”, conclui o jesuíta.

RELIGIÃO

Lava-pés: o mandamento chocante em que Deus se abaixa para nos servir




O que significa este gesto de Jesus, tão inesperado e espantoso que Pedro nem queria aceitá-lo

O rito do Lava-Pés, na Quinta-Feira Santa, contém um duplo significado, à luz do Evangelho de João:

– uma imitação do gesto realizado por Cristo ao lavar os pés dos Apóstolos no Cenáculo;

– a expressão do doar-se a si mesmo, exemplificada com aquele ato.

Não por acaso, o gesto é chamado de “mandatum (“mandamento”) na antífona recitada na cerimônia: “Mandatum novum do vobis, ut diligatis invicem, sicut dilexi vos, dicit Dominus” (“Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei, diz o Senhor“; João 13,34).

De fato, o mandamento do amor fraternal compromete todos os discípulos de Jesus, sem qualquer distinção ou exceção. Em instruções litúrgicas do século VII já lemos a indicação de que o Pontífice e todos os membros do clero devem realizar o rito do lava-pés, o que também pode ser conferido, com variações em diferentes dioceses e abadias, no Pontifical Romano do século XII, no Pontifical da Cúria Romana do século XIII e no Missal Romano do Papa São Pio V, de 1570, que diz:

“Post denudationem altarium (…) conveniunt clerici ad faciendum mandatum. Maior abluit pedes minoribus: tergit et osculatur”

(“Após o desnudamento do altar, os clérigos procedem ao cumprimento do ‘mandatum’. O maior lava os pés dos menores, os enxuga e os beija”).

O “mandatum“, em sua essência, não é reservado ao clero: o seu sentido é o de colocarmos em prática o serviço humilde a todos os nossos irmãos, conforme o exemplo de Jesus a todos os seus discípulos.

Precisamente por isso, o rito do lava-pés, ao longo da história da Igreja, não foi necessariamente reservado a doze clérigos ou a doze homens. No “De Mandato seu lotione pedum” (“Sobre o ‘mandatum’ ou lava-pés“), que consta no Caeremoniale Episcoporum de 1600, é mencionada a tradição de que o bispo deve lavar, enxugar e beijar os pés de “treze” pessoas pobres, após tê-las vestido e alimentado e ter-lhes ofertado esmola em caridade. O ato poderia igualmente ser conduzido com religiosos, de acordo com os costumes locais ou a determinação do bispo, mas não de modo obrigatório.

As mudanças mais recentes no rito estabelecem que quaisquer indivíduos podem ser escolhidos dentre o povo de Deus, já que a significação do rito não se limita a uma imitação exterior do gesto de Jesus; trata-se de expressar o sentido profundo do ato realizado por Ele: doar-se “até o fim” pela salvação da humanidade, ato que assume importância universal.

O amor de Cristo, abrangendo toda a humanidade, faz de todas as pessoas irmãos e irmãs pela força do Seu exemplo. O “mandatum” deixado por Ele nos convida a transcender o ato físico de lavar os pés do outro para vivenciar o pleno sentido desse gesto: servir, com amor palpável, ao próximo.

Os 3 verbos do lava-pés, segundo o Papa Francisco

lavapes papa fco

Na audiência geral que antecedeu a Semana Santa de 2016, o Papa Francisco abordou o significado do lava-pés, esse ato de Jesus na Última Ceia que foi “tão inesperado e chocante” a ponto de que “Pedro nem queria aceitá-lo”.

Quando se abaixou até os pés dos discípulos e os lavou, Jesus quis deixar claro que se fez servo e que nós também devemos ser servos uns dos outros: “Também vós deveis lavar os pés uns dos outros”, afirma Ele, explicitamente, em Jo 13,12-14.

SERVIR

Ser “servos” uns dos outros nada tem a ver com “servilismo” ou “escravidão”: trata-se do “mandamento novo” do amor real ao próximo através do “serviço concreto”, e não apenas “de palavra”. O amor é um “serviço humilde”, concretizado “no silêncio”: “Não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita”, pede Ele, em Mt 6,3.

PERDOAR

O lava-pés representa o chamado de Jesus a “confessarmos os nossos pecados e a rezarmos uns pelos outros, para saber-nos perdoar de coração”. O papa Francisco evocou neste sentido um texto de Santo Agostinho: “Não desdenhe o cristão fazer aquilo que Cristo fez. Porque quando o corpo se inclina até o pé do irmão, acende-se no coração o sentimento de humildade, ou, já se existisse, é alimentado (…) Perdoemo-nos os nossos erros e rezemos uns pelo perdão dos pecados dos outros. Assim, de algum modo, lavaremos nossos pés mutuamente”.

AJUDAR

O papa recordou as pessoas que vivem a vida inteira “no serviço dos outros” e, como exemplo, contou que recebeu uma carta de uma pessoa agradecida por este ano da misericórdia: a pessoa em questão “me pediu rezar por ela, para que ela esteja mais perto de nosso Senhor. A vida dessa pessoa era cuidar da mãe e do irmão; a mãe está de cama, idosa, lúcida, mas sem poder se mexer; e o irmão é deficiente, numa cadeira de rodas”. Francisco resumiu duas vezes este caso declarando: “Isto é amor!”.

Conclusão

O Papa Francisco encerrou a audiência com uma frase que sintetiza toda a mensagem:

Queridos irmãos e irmãs: ser misericordiosos como o Pai significa seguir Jesus no caminho do serviço”.