sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

IGREJA

 

O perdão: uma decisão que cura a alma

Perdoar é uma escolha. Uma decisão profunda da alma.

Quantas vezes já ouvimos que precisamos perdoar? E, no entanto, como pode ser difícil soltar a mágoa, deixar de lado a raiva e decidir seguir em frente. A verdade é que o perdão não nasce de um impulso emocional.

Muitas vezes, carregamos dentro de nós dores antigas, palavras que feriram, gestos que decepcionaram, ausências que nos marcaram. E sem perceber, vamos ficando pesados, desconfiados, amargos. Como se, ao não perdoar, pudéssemos fazer o outro pagar pelo mal que nos causou.

Mas a realidade é outra: quem mais sofre com o rancor somos nós mesmos. O perdão é um presente que damos a nós mesmos

Perdoar não é dizer que o que aconteceu foi justo. Não é apagar a história ou negar a dor. É simplesmente escolher não viver mais a partir dessa ferida. Ao perdoar, libertamos o outro — mas, acima de tudo, libertamo-nos de dentro. Soltamos o peso, deixamos o veneno sair do coração, abrimos espaço para a paz.

Os frutos espirituais do perdão:

Na vida espiritual, o perdão é um dos caminhos mais fecundos de cura.

Quando perdoamos, nos tornamos mais parecidos com o próprio Deus, que é misericórdia infinita.

Cristo, na cruz, nos ensinou isso com Seu exemplo mais radical:

“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34).

Ao decidirmos perdoar, mesmo quando ainda sentimos dor, abrimos espaço para que a graça de Deus atue em nós. E essa decisão tem o poder de restaurar a nossa alma, curar feridas profundas e trazer uma paz que o mundo não pode dar.

Os benefícios do perdão nesta vida:

Além dos frutos espirituais, o perdão também traz benefícios concretos para nossa saúde emocional e física. Estudos mostram que o perdão reduz sintomas de ansiedade, depressão e estresse. Guardar rancor, ao contrário, pode gerar adoecimento: insônia, dores no corpo, taquicardia, crises de angústia. O perdão não apaga o passado, mas transforma o modo como o carregamos.

Perdoar é uma forma de autocuidado. É uma escolha consciente de viver mais leve, mais livre, mais inteiro. O perdão é um caminho, não um sentimento imediato. 

É importante lembrar que perdoar não significa “sentir” que perdoamos. Nem sempre a mágoa desaparece de imediato. O perdão é um processo — mas começa com uma decisão sincera diante de Deus: “Senhor, eu quero perdoar. Mesmo que doa, mesmo que eu ainda não saiba como.”

A partir dessa entrega, a graça de Deus vai fazendo o restante. A ferida, aos poucos, deixa de doer. O coração, com o tempo, volta a bater em paz.

Perdoar é um ato de amor — não apenas pelo outro, mas por si mesmo.

É dizer: “Eu escolho não carregar esse peso. Eu escolho a paz. Eu escolho seguir em frente.”

Que Deus nos dê a graça de perdoar. E que, ao fazê-lo, sejamos profundamente curados por dentro. Porque quem perdoa, se liberta. E quem se liberta, consegue amar de novo.

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RELIGIÃO

 

Pedir perdão é pouco. Por que, após uma crise no relacionamento, precisamos de algo mais?

Pedir desculpas é importante, mas não basta. Se, após uma mágoa, um mal-entendido ou um grande conflito, a relação deve realmente renascer, é necessário um processo mais profundo

Trabalhar na reparação dos relacionamentos pelo perdão é algo absolutamente fundamental para vínculos saudáveis. Isso se aplica a relacionamentos românticos, mas também a amizades, relações familiares, profissionais e sociais. Se uma relação deve durar e ser satisfatória, deve haver uma disposição para reparar não apenas as grandes mágoas, mas também as pequenas do dia a dia.

Podemos falar de três tipos de feridas nos relacionamentos. Existem os erros – danos não intencionais, acidentais, decorrentes de desatenção. Existem os mal-entendidos, quando duas pessoas estavam convencidas de que entendiam a questão da mesma forma, mas na realidade pensavam em coisas diferentes. E existem as mágoas conscientes – momentos que atingem o alicerce do senso de segurança e o valor da outra pessoa.

A experiência mostra, no entanto, que após qualquer um desses cenários é possível reconstruir a relação e voltar a uma profunda satisfação, desde que certas condições sejam cumpridas.

Primeiro passo: Reconhecer que você feriu – mesmo que "não tenha tido más intenções"

A base do trabalho de reparação é reconhecer o fato de que a outra pessoa foi ferida. Mesmo quando alguém está convencido de que não fez "nada de errado". Em relacionamentos íntimos, não se trata de um processo judicial para estabelecer a culpa, mas de responder à pergunta: "eu me importo com o fato de que minha ação te causou dor?".

Muitas vezes as pessoas se defendem dizendo: "mas eu não queria", "não tive essa intenção", "não foi nada demais". O problema é que as intenções não anulam os efeitos. Se a outra pessoa está sofrendo e sua dor é ignorada, a reparação não tem por onde começar.

Todo processo de cura — seja em escala individual ou social — exige o reconhecimento do que aconteceu. Esse reconhecimento traz consigo o arrependimento, não necessariamente pelo ato em si (que pode ter sido um erro simples), mas pela mágoa que ele causou. Sem isso, resta apenas a negação do problema ou o distanciamento, e a relação se deteriora.

Cuidado com a armadilha da vergonha

O arrependimento é por vezes confundido com a vergonha. E este é um momento muito perigoso. Quando dizemos "estou com vergonha disso", soa como assumir a responsabilidade, mas muitas vezes não é. "Eu sou horrível", "como pude fazer algo assim", "não consigo olhar para mim mesma" – tudo isso continua concentrando a atenção em si próprio.

A vergonha transforma-se facilmente numa forma subtil de narcisismo. A pessoa que feriu continua no centro – só que agora focada no próprio sofrimento e na sua autoimagem. Nessa situação, não há espaço para a empatia para com a outra pessoa.

O verdadeiro trabalho começa quando alguém consegue assumir a responsabilidade adequada pela mágoa e, ao mesmo tempo, suportar a tensão de ser testemunha da dor alheia, sem fugir para a defesa nem para a autocondenação egocêntrica. O arrependimento construtivo é a atitude de: "sinto muito por ter causado o seu sofrimento, eu entendo como você se sente com isso".

Segunda etapa: Atribuir novamente valor à outra pessoa

Uma ferida, especialmente uma mágoa causada conscientemente, traz sempre consigo uma mensagem muito dolorosa: "você não foi suficientemente importante para mim". Por isso, pedir desculpas, mesmo que sinceramente, não basta. É preciso algo mais – mostrar concretamente que a outra pessoa e a relação têm valor.

Isso significa uma mudança de atitude. A pessoa que feriu deve tornar-se uma espécie de guardiã da relação. Alguém que a protege com atenção, disponibilidade e prontidão para estar presente. Às vezes são gestos simples: perguntar "como você se sente hoje?", "quer conversar sobre isso?". Muitas vezes a outra parte responde: "não, agora não". Mas a própria consciência de que o espaço está aberto tem um significado enorme.

É difícil, pois envolve medo. Medo de que cada pergunta desencadeie novas acusações ou lembre a culpa. No entanto, sem sair do próprio desconforto, não é possível reconstruir a confiança.

Por que é tão difícil o perdão

Muitas pessoas ficam surpresas com a escala do sofrimento da outra parte. "Não achei que doeria tanto", "pensei que não teria tanta importância". Frequentemente, no momento da mágoa, ocorre uma desconexão psíquica – não se pensa nas consequências, não se vê o outro ser humano.

A confrontação com a dor de alguém é por vezes mais difícil do que a confrontação com a raiva. A raiva pode ser rebatida, racionalizada ou considerada um exagero. O sofrimento exige parar e aceitar a responsabilidade. E sem aceitar as consequências das próprias ações, não há verdadeira maturidade nem liberdade.

Pedir desculpas é necessário, mas insuficiente

Por isso, pedir desculpas, embora necessário, muitas vezes não basta. Existem formas de desculpas que servem principalmente para restaurar a própria dignidade e o bem-estar de quem errou. São manobras de autodefesa. Enquanto isso, o verdadeiro pedido de desculpas mostra que alguém está realmente presente junto à dor da outra pessoa, e não quer apenas "encerrar o assunto".

Renascimento, não apenas reparação

A reparação não é o fim da história. Seu objetivo é o renascimento da relação. Algo muito maior do que o retorno ao estado anterior à crise. É um processo de regeneração – como uma pele nova que cresce sobre a ferida. A cicatriz permanece. Ela é sensível, exige atenção e lembra que aquele lugar não deve ser ferido novamente. Mas ela já não domina toda a vida do relacionamento.

É por isso que, ao reparar as mágoas, é essencial refletir e pensar num plano: o que podemos fazer para evitar uma situação semelhante no futuro? O plano deve ser concreto. Não basta um genérico "vou prestar mais atenção". É preciso refletir de onde surgiu o problema – de um erro, de um mal-entendido, da raiva? Por que se tornou um problema? E o que concretamente podemos fazer no futuro para que situação semelhante não ocorra.

Cada situação dessas, inclusive as crises graves, é uma oportunidade para se conhecerem melhor, para deter-se sobre uma sensibilidade do outro até então desconhecida e para criar planos para o futuro. Graças a isso, as pessoas em uma relação próxima — familiar, de amizade (ou mesmo profissional) — podem ver-se de novo: não apenas como aqueles que passaram por uma crise, mas como pessoas capazes de criar algo vivo e cheio de esperança.