sábado, 11 de abril de 2026

IGREJA

 

“Deus sofre conosco”: o grito do padre Khoury, pároco na Cisjordânia

Cerca de 50.000 cristãos ainda vivem na Terra Santa, formando uma comunidade frágil, mas determinada. O padre Firas Khoury, pároco da Igreja Católica Grega de São Jorge de Zababdeh, na Cisjordânia, conta a Aleteia sobre sua vida cotidiana marcada pela violência, precariedade e esperança. Um testemunho pungente sobre uma presença cristã ameaçada, mas essencial.

comunidade cristã de A Terra Santa é muitas vezes negligenciada e esquecida. No entanto, é essencial para a preservação do rico patrimônio cristão da região. Formando uma pequena comunidade de apenas 1 a 2% da população, cerca de 50.000 pessoas, persiste com uma força notável, apesar das enormes dificuldades. Neste período intenso de conflito, como é o seu dia a dia? Que força a leva a permanecer na Terra Santa, apesar de tudo o que ela está passando? A edição americana de Aleteia conversou com o padre Firas Khoury, pároco da Igreja Católica Grega de São Jorge de Zababdeh. Ele fornece uma visão geral concreta da vida cotidiana dos cristãos de Cisjordânia.

"Pedras vivas" ameaçadas

"Eu chamo os cristãos que vivem aqui de "pedras vivas", diz o padre Khoury. Para ele e sua comunidade, permanecer na Terra Santa não é apenas uma questão de sobrevivência, mas uma missão espiritual: "Se os cristãos desaparecerem daqui, o que resta? Resígios arqueológicos e lugares sagrados, certamente, mas esses lugares nunca contarão a história do meu compatriota, Jesus Cristo." Enraizada por milênios nesta terra, a família do padre Khoury incorpora essa continuidade histórica e espiritual. "Meus avós e meus ancestrais são Palestinos. Não nutrimos nenhum ódio ou atos de violência contra ninguém, mas nos últimos setenta anos fomos vítimas de injustiças."

Uma violência que se intensifica

Desde outubro de 2023, a situação dos cristãos palestinos piorou drasticamente. De acordo com a Ajuda à Igreja em Perigo, a violência perpetrada pelos colonos aumentou 25%, com 111 ataques registrados contra propriedades cristãs. Dom William Shomali, bispo auxiliar do Patriarcado Latino de Jerusalém, denuncia agressões "quase diárias": ameaças, destruição de bens, incêndios de veículos, ocupação de terras pertencentes a famílias cristãs ou congregações religiosas.

Em Taybeh, Birzeit ou Urtas, perto de Belém, os colonos se apropriam das terras cultivadas por cristãos há gerações. "Eles vieram ocupar uma colina pertencente a um convento de irmãs, com o objetivo de construir uma nova colônia lá", relata Dom Shomali. Na vila de Beit Sahour, uma bandeira israelense foi plantada em um território ocupado, apesar da existência de um título de propriedade em nome de uma família cristã. Em 2025, a própria Igreja de São Jorge em Zababdeh foi incendiada. "Estamos sofrendo a violência dos colonos. Eu não saio de Zababdeh, porque se eu sair, eles veem meu carro palestino e batem nele com pedras e garrafas", diz o padre Khoury. "Não temos mais liberdade de expressão. Não temos mais liberdade de movimento. Tudo o que nos é permitido é orar na igreja."

La paroisse du père Khoury propose des activités pour les enfants et les jeunes, afin de les former et de leur apporter l'espérance.
La paroisse du père Khoury propose des activités pour les enfants et les jeunes, afin de les former et de leur apporter l'espérance.

Esperança "nos olhos das crianças"

Além da violência física, é a perda de renda que mais desespera a comunidade. Desde outubro de 2023, as fronteiras estão fechadas e milhares de cristãos palestinos que trabalhavam em Jerusalém perderam seus empregos. "Sou padre de uma comunidade que vive no desespero. A maioria dos pais não conseguiu pagar as mensalidades de seus filhos", diz o padre Khoury. Para tentar superar essa catástrofe econômica, o padre contribui para a criação de pequenas empresas locais: fabricação de sabão de azeite, objetos de madeira, incenso. Apesar de tudo, a Escola Católica de Zababdeh, que recebe 1.200 alunos cristãos e muçulmanos, conseguiu manter suas portas abertas. "É aqui que você encontrará esperança para os palestinos; nos olhos das crianças", garante ele.

A "fé de Eliseu"

Como continuar segurando? O padre Khoury invoca a "fé de Eliseu", em referência ao profeta bíblico cercado por um exército inimigo, que vê as colinas cheias de tanques de fogo enviados por Deus. "Temos esperança, porque temos a fé de Eliseu. Mais deles estão conosco do que contra nós. E não estamos sozinhos. Deus sofre conosco.” Essa fé alimenta sua missão de "construir pontes de paz" entre as comunidades judaica e muçulmana local, apesar da discriminação diária. O padre Khoury lança um apelo urgente aos cristãos de todo o mundo. Em primeiro lugar, ele convida a construir pontes entre Israel e a Palestina: "Precisamos de sua amizade e solidariedade, especialmente em tempos de guerra. Os americanos e os europeus podem nos ajudar a convencer Israel de que os palestinos não são seus inimigos." Mas também e acima de tudo, o padre Khoury exorta a orar por Israel e pela Palestina: "Ore ao Deus da justiça e ao Deus da paz para que eles acabem com esta guerra abominável". Finalmente, o pároco da paróquia de São Jorge de Zababdeh incentiva os cristãos a viajar para a Terra Santa. "Convidamos você a vir nos visitar, ouvir nossas histórias, as de nossos filhos", diz ele. E para concluir: "Venha descobrir nossa escola católica onde alunos cristãos e muçulmanos estudam juntos e trabalham pela paz."

ESPIRITUALIDADE

 

Uma oração poderosa para fazermos diante do crucifixo

Ela pode nos ajudar a engrandecer em nosso coração o nosso próprio amor por Ele, cuja doação por nós é infinita

Para muitos cristãos, a presença de um crucifixo em casa é um constante lembrete do imenso amor de Deus pela humanidade. O crucifixo é visto por todos no lar e traz à mente e ao coração o que Jesus foi capaz de fazer para nos reconciliar com o Pai.

Além de ser um silencioso e ao mesmo tempo eloquente recordatório, o crucifixo é também um ponto focal de oração diária.

Ao voltarmos a ele o nosso olhar, podemos nos voltar com toda a nossa mente, com todo o nosso coração e com todo o nosso espírito a Deus, de modo que tudo ao nosso redor se torne tênue perante a Sua grandeza absoluta: é Ele que pode dar sentido a tudo em nossa existência, particularmente quando tudo parece sem sentido nem propósito.

Oração

Uma tradicional e preciosa oração que podemos fazer perante o Cristo que Se doou por nós na cruz é esta, capaz de engrandecer em nosso coração o nosso próprio amor por Ele:

Eis-me aqui, ó bom e dulcíssimo Jesus; de joelhos me prostro em vossa presença.

Eu vos peço e suplico, com todo o fervor da minha alma, que vos digneis gravar no meu coração os mais vivos sentimentos de fé, esperança e caridade, verdadeiro arrependimento de meus pecados e firme propósito de emenda, enquanto por mim próprio considero e em espírito contemplo, com grande afeto e dor, as vossas cinco chagas, tendo presentes as palavras que já o profeta Davi punha em vossa boca, ó bom Jesus: “Transpassaram minhas mãos e meus pés e contaram todos os meus ossos”.

Caso se deseje, pode-se rezar em seguida um Pai-Nosso, uma Ave-Maria e o Glória.

IGREJA

 

A viagem de Tomé ao coração de Deus contada em uma pintura

Caravaggio eternizou por meio da luz e da sombra o sentimento que imaginou ter Tomé ao encontrar Jesus 

Essa pintura não chama a atenção somente pelas cores ou pelo claro e escuro, mas pela ação. Há um homem, um pescador de mãos calosas e com a fronte sulcada pelas rugas do pó e do cansaço, que enfia — literalmente — um dedo dentro da ferida de outro homem. Não é um gesto delicado. É um ato brutal, quase anatômico. Caravaggio, aquele gênio atormentado que pintava como se tivesse uma câmera de cinema nas mãos em pleno século XVII, não nos deu uma cena sagrada sobre Deus e distante. Ele nos arremessou para dentro da verdade da carne.

A obra, A Incredulidade de São Tomé, pintada por volta de 1600, provavelmente para o banqueiro Vincenzo Giustiniani, é um instantâneo daquele momento em que a dúvida humana colide com o impossível divino. E Caravaggio, com sua sensibilidade aguçadíssima, decide narrá-lo com um realismo de tirar o fôlego: a pele de Cristo que se dobra sob a pressão do dedo de Tomé, o retalho de carne que se levanta, o olhar fixo, quase assustado, do apóstolo. 

Tocar a verdade de Deus

Nesta tela, o "ver" já não basta. Tomé, que somos um pouco todos nós quando a vida se torna dura e as promessas parecem desvanecer, precisa tocar. E Cristo, não se esquiva. Pelo contrário, segura a mão do amigo e a guia para dentro de si. É um momento de uma intimidade desconcertante. As cabeças dos protagonistas se aproximam tanto que quase se tocam, formando, junto aos outros dois apóstolos testemunhas, uma cruz ideal que sustenta toda a composição. 

Caravaggio rompe com a tradição da abstração. Aqui, a divindade não é uma entidade etérea que flutua entre as nuvens, mas uma "presença viva" que se pode encontrar na rua, no canto escuro de uma estalagem ou no silêncio de um quarto. É a confidência que Deus concede à nossa frágil e tola inadequação. Naquele dedo que entra no costado, está toda a filosofia do pintor: a verdade não reside nas ideias, mas na experiência tátil, no corpo que sofre e que, milagrosamente, vence a morte. 

Escrever com a luz

Se Caravaggio vivesse hoje, provavelmente não usaria pincéis, mas uma câmera de filmar. O corte desta imagem é puramente fotográfico ou, melhor dizendo, cinematográfico. Um fundo escuro, quase um "nada" que serve para fazer ressaltar o único protagonista verdadeiro do seu naturalismo: a luz. Uma luz rasante, que irrompe do alto como o olho de um diretor, escrevendo a história sobre a pele das personagens. 

Esta técnica de "condensação" da realidade é o que torna Caravaggio incrivelmente moderno. Ele isola um instante, ilumina-o e transforma-o num eterno presente. Cada ruga na testa de Tomé, cada rasgo em sua veste, cada reflexo no corpo de Jesus é um detalhe que "chama" o espectador a participar da cena. Não somos apenas observadores; estamos ali, com o fôlego suspenso, a perguntar-nos se aquele toque curará também a nossa incredulidade. 

O sucesso desta obra foi tal que foram produzidas dezenas de cópias por toda a Europa. Mas o original permanece como um alerta: a fé, para Caravaggio, não é um conceito intelectual, mas um encontro. É a descoberta de que o Mistério tem um peso, um calor e, sobretudo, uma ferida onde ainda podemos inserir a nossa esperança.