[ENTREVISTA] Frei Gustavo nos fala sobre “A Regra” de São Francisco de Assis
Um santo, um caminho de vida e oito séculos que nos separam desse testemunho sempre atual. Vamos conhecer um pouco mais sobre São Francisco de AssisEm meio às celebrações dos centenários franciscanos, Frei Gustavo Jonas reflete sobre como os escritos de São Francisco de Assis, redigidos há oito séculos, oferecem respostas surpreendentemente atuais para os conflitos e divisões do mundo contemporâneo.
Frei Gustavo, estamos vivendo um ciclo de centenários franciscanos. Como a Regra de São Francisco se insere nesse contexto e qual sua importância histórica?
A Regra é o documento que dá identidade e forma de vida aos seguidores de Francisco. No ano de 2023, celebramos os 800 anos da chamada "Regra Bulada", aprovada pelo Papa Honório III em 1223. Ela não é apenas um conjunto de leis, mas a cristalização de uma experiência de vida baseada no Evangelho. Francisco queria que seus irmãos vivessem sem nada de próprio, em obediência e castidade, mas, acima de tudo, em fraternidade.
O senhor relaciona a Regra diretamente com a "Mística da Paz". Como essa conexão se dá na prática franciscana?
Para Francisco, a paz não é apenas a ausência de guerra, mas uma atitude interior que transborda para o exterior. Na Regra, ele exorta os frades a não discutirem e a não julgarem os outros. A paz nasce da "minoridade": quando eu me coloco abaixo do outro, não há motivo para conflito. Ele dizia que, ao entrar em uma casa, a primeira saudação deve ser "O Senhor te dê a paz". É uma mística que exige despojamento de si mesmo para acolher o diferente.
O que o "espírito da Regra" de São Francisco tem a dizer para o homem do século XXI?
O legado mais urgente é a capacidade de diálogo. Francisco viveu em um tempo de Cruzadas, de ódio religioso e social, e ele escolheu o caminho do desarmamento. Ele foi ao encontro do Sultão não para converter pela força, mas para estabelecer uma ponte. A Regra nos ensina que o outro não é um inimigo a ser vencido, mas um irmão a ser abraçado. Se aplicarmos essa mística hoje, nas redes sociais e nas famílias, transformamos a cultura do cancelamento na cultura do encontro.
Como a Regra dialoga com a ecologia integral proposta pelo Papa Francisco?
A espiritualidade franciscana não separa o amor a Deus do amor às criaturas. O Cântico das Criaturas, escrito por Francisco ao final da vida, é o desdobramento natural da Regra. Se eu sou irmão de todos, sou também irmão do sol, da lua e da "Irmã Terra". A paz franciscana é cósmica. Quando exploramos a natureza de forma gananciosa, estamos quebrando a regra fundamental da fraternidade universal. A ecologia integral é, no fundo, a atualização da mística de Assis.
Para encerrar, como um leigo pode viver o "espírito da Regra"?
Através da simplicidade e da retidão de coração. Não precisamos usar o hábito para sermos instrumentos de paz. Viver a Regra hoje é buscar uma vida menos consumista, mais solidária e atenta aos que sofrem nas periferias. É fazer de cada dia um exercício de reconciliação, começando pelas pequenas coisas.