É obrigatório fazer jejum na Quaresma?
O jejum e a abstinência: mais que privação, um exercício de liberdade e solidariedadeNo calendário cristão, poucas práticas são tão mal compreendidas quanto o jejum e a abstinência. Muitas vezes vistos como meros ritos de privação ou regras dietéticas religiosas, esses exercícios são, na verdade, ferramentas espirituais profundas. Segundo o Dicionário de Liturgia, o jejum é um "sinal de penitência e de busca de Deus", um modo de o corpo expressar a fome da alma pela graça divina.
A diferença entre jejum e abstinência
Embora caminhem juntos, possuem regras e significados distintos. O jejum consiste na redução da quantidade de alimento. A prática comum da Igreja prescreve uma única refeição completa durante o dia, permitindo duas pequenas refeições que, juntas, não igualem a principal. É obrigatório para fiéis entre 18 e 59 anos.
Já a abstinência refere-se especificamente à privação de carne (especialmente carnes vermelhas e aves). Diferente do jejum, foca no "sacrifício da qualidade" e no paladar. É obrigatória para todos os fiéis a partir dos 14 anos.
O calendário da penitência
De acordo com a Constituição Apostólica Paenitemini e o Código de Direito Canônico, os dias de penitência obrigatória são:
Quarta-feira de Cinzas e Sexta-feira Santa: Dias de Jejum e Abstinência simultâneos.
Todas as Sextas-feiras do ano: Dias de Abstinência, em memória da Paixão do Senhor. Em muitos países, como Portugal e Brasil, as Conferências Episcopais permitem substituir a abstinência por outras formas de penitência (caridade ou piedade), exceto nas sextas-feiras da Quaresma.
O sentido do jejum
O jejum cristão não é uma greve de fome nem uma dieta para saúde física. Ele possui três dimensões fundamentais: "O jejum não deve ser apenas um ato de ascese pessoal, mas um ato de caridade. O que se economiza no jejum deve ser dado aos que têm fome."
Dimensão Teocêntrica: É um ato de culto. Jejuamos para dizer que "nem só de pão vive o homem", mas de Deus.
Dimensão Antropológica: Ajuda o fiel a retomar o domínio sobre si mesmo. No deserto das tentações, Cristo venceu a gula e o egoísmo; o cristão, pelo jejum, treina sua vontade contra as paixões desordenadas.
Dimensão Social: O jejum cristão é inseparável da esmola. A privação pessoal ganha sentido pleno quando se transforma em socorro ao próximo.
Mas é obrigatório?
Sim, é uma obrigação para aqueles que seguem a religião católica. Mas não no sentido de um dever imposto, mas no sentido de “obrigado” quando agradecemos a alguém. Sentimos que somos gratos a Deus, a Jesus por seu sacrifício, à Igreja, e à nossa comunidade. Por isso, realizamos esses sacrifícios com amor e gratidão, nos sentimos “obrigados” a fazer esse esforço não como uma imposição, mas como uma resposta prática à nossa fé. Mas, a Igreja, como "mãe e mestra", recorda que a lei da caridade e da saúde física precede a lei do jejum. Estão dispensados da obrigação: Pessoas doentes ou com condições médicas debilitantes; mulheres grávidas ou que amamentam; trabalhadores braçais em condições extremas que necessitem de sustento pleno; pobres que já vivem em situação de carência alimentar.
O jejum quaresmal prepara o corpo e o espírito para o Mistério Pascal. É um "jejum de alegria" disfarçado de sobriedade: retiramos o excesso para que o essencial — a Ressurreição — possa brilhar. Como ensina a liturgia, ao privarmo-nos do alimento terrestre, despertamos em nós a fome do Pão Vivo descido do Céu.
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