De que adianta ser curada e deixar a fé, dizia Maria Eduarda, morta de câncer aos 17 anos em Juiz de Fora
“De que adiantaria ser curada logo, esquecer o milagre e abandonar a fé?”, dizia Maria Eduarda Nogueira de Paula, a Duda. Ela morreu de câncer aos 17 anos na cidade de Juiz de Fora (MG), em 17 de janeiro de 2025. Para quem a conheceu, ela viveu o sofrimento com alegria, sem murmurações, entregue a Deus, a Nossa Senhora, e à eucaristia. Para o arcebispo-emérito da cidade, dom Gil Antônio Moreira, ela é a versão feminina de são Carlo Acutis.
Maria Eduarda nasceu em 28 de dezembro de 2007, primeira dos três filhos de Octacília Silva Nogueira e Juliano Tarcísio de Paula. Cresceu no bairro São Mateus, em Juiz de Fora, e desde cedo participou da vida paroquial: missas, procissões e coroações marianas faziam parte de sua rotina. Recebeu a primeira comunhão em 2017 e passou a servir como coroinha.

Em 2022, aos 14 anos, Duda começou a sentir fortes dores nas pernas. Depois de muitas consultas e exames, foi diagnosticada com sarcoma de Ewing em estado avançado, com metástase óssea. Iniciou quimioterapia em Juiz de Fora, e os médicos recomendaram tratamento especializado na Espanha. Diante do alto custo, a família lançou uma campanha online que arrecadou R$ 820 mil em menos de 30 horas, superando a meta de R$ 700 mil.
Tratamento e fé
No tratamento na Espanha, Duda sofreu complicações, entre elas uma lesão no esôfago que a impediu de engolir. A mãe relatou à ACI Digital que, em um momento de dor, a filha perguntou: “Mãe, o que você agradeceu na sua oração hoje?”
“Hoje eu agradeci por respirar, andar”, disse Duda. Segundo a mãe, durante cinco dias, ela se alimentou só da comunhão, porque o esôfago estava em “carne viva”.
Mesmo em sofrimento, Duda manteve práticas de devoção: terços rezados no quarto, músicas e a presença de padres que celebravam missa para ela. No fim de 2024, já com mobilidade reduzida, fez questão de ir à Missa do Galo na Igreja dos Arautos do Evangelho. Ao chegar na Igreja, o seu confessor, padre Sebastião, disse que ela não precisava ter ido e ela respondeu: “Padre, por Ele vale a pena, por Ele a gente faz tudo, por Jesus.”
Fama de santidade em Juiz de Fora
Dom Gil acompanhou de perto a história da jovem. “Ela respirava Jesus Cristo; isso se via no rosto, no sorriso, nas palavras. Tinha grande devoção à Eucaristia, a Nossa Senhora e à Igreja. Esses sinais apontam para uma afinidade com o sobrenatural. Na cidade de Juiz de Fora ela tem a fama de santidade”, disse o arcebispo à ACI Digital.

Em julho de 2025, durante viagem a Roma para o Jubileu dos Bispos e para apresentar sua renúncia por limite de idade, ele entregou ao papa Leão XIV um dossiê sobre a vida de Duda. “Não estou querendo adiantar o juízo da Igreja, mas antes de sair da arquidiocese, me achava no dever de dar um testemunho positivo à Igreja, ao papa, sobre um caso, que no meu entender, é uma vida de muita santidade de uma jovem”, disse dom Gil à ACI Digital.
Ao comparar Duda a Carlo Acutis, dom Gil afirmou: “Eu digo que é a versão feminina de Carlo Acutis, justamente porque o que havia no coração e na vida dessa menina se parece muito com aquilo que havia no coração e na vida de Carlo Acutis: são dois jovens… Carlo Acutis tinha um grande amor à Eucaristia, a Nossa Senhora e a Igreja, ela também demonstrava isso.”
Ela também usava a internet para evangelizar, fazendo lives para rezar o terço, também para falar sobre a vida dos santos e da Igreja e foi na internet onde ela aprendeu a fazer rosários e os vendia para ajudar os pais a pagarem o tratamento e os distribuía para fomentar a devoção a Nossa Senhora.
“Os próprios jovens se inspiram nela para viver uma vida de piedade mais intensa, de amor a Cristo, de participação na missa, nas coisas que podem ajudar aos outros, no amor aos pobres”, contou o arcebispo.
“A Maria Eduarda, portanto, me parece ser daqui de dentro de sua casa, sem sair porque não podia mais sair por causa da doença, me parece ser uma imitadora de santa Teresinha, missionária que nunca saiu do convento”.
Alegria divina em meio ao sofrimento
A professora Letícia Cristina Pereira autora do dossiê a pedido de dom Gil e responsável pela biografia em andamento, contou à ACI Digital que “no primeiro momento que eu a conheci, ela estava com um sorriso, uma alegria tão divina. Eu percebi ali que é uma santinha que nós temos”. Letícia descreve o quarto de Duda como um espaço de oração e celebração, onde o sofrimento era vivido com fé e alegria.
No terço que rezaram, Duda agradecia por ter a doença. “Num tempo que a gente vive uma sociedade que quer só bem-estar, só anestesia das dores, ninguém quer sofrer mais, a Duda consegue agradecer por sofrer, porque ela podia se unir ao sofrimento de Jesus”, disse.
“Sofrendo naquela menina que sofre, a gente encontrava o próprio Cristo sofredor. E víamos a Cristo numa menina que não reclamava, não murmurava, não se queixava, muito pelo contrário, o quarto de Duda era um quarto de celebração”, continuou.
“Para mim, o que fica na Duda é um amor tão grande a Jesus Cristo, é uma menina que tinha uma clareza de que Ele era o tesouro da vida dela, e por Ele valiam a pena todas as coisas”.
Para Letícia, Duda viveu as virtudes de forma heroica, principalmente o amor pelas almas, buscando sempre “apontar para Deus, sempre apontar para o céu. Ela irradiava esse amor a Jesus, era uma luz que vinha da Eucaristia na vida da Duda, e a gente conseguia quase que tocar. Então, estar na casa dela era a gente falar assim, vou visitar Deus, Jesus está ali”.
Duda incentivou os pais a se casarem na Igreja e receberem os sacramentos
A jovem também teve papel decisivo na vida espiritual da família: foi ela quem incentivou os pais a se casarem na Igreja e a receberem os sacramentos. Octacília, a mãe, resume: “Eu tive a honra de receber uma filha que foi quem me mostrou o caminho do céu. Foi ela que me mostrou que a meta da nossa vida não pode ser o mundo, tem que ser o céu”.
“Ela quis que nós nos casássemos, ela quis que nós nos confessássemos, ela queria tudo o que ela estava vivendo, todo esse encontro que ela estava tendo com Deus, ela queria para todo mundo, ela não queria só para ela e principalmente para os de casa”, contou Octacília.

O pai de Maria Eduarda contou que no Natal de 2024 ela pediu que eles se reunissem pois ela queria um presente. Sabendo que sua vida estava no fim, ele estava disposto a dar qualquer presente que ela pedisse, por mais caro que fosse. Então ela disse que queria que eles se confessassem para passar o nascimento de Jesus em estado de graça.
No início de janeiro de 2025, Duda piorou, teve que ser internada no hospital. Os médicos perceberam que sua vida estava terminando e liberaram visita irrestrita à jovem. Todos os dias cerca de 25 pessoas passavam por ali. Ela morreu no dia 17 de janeiro de 2025. Segundo o dossiê, uma multidão acorreu ao velório e ao sepultamento na cidade de Andrelândia (MG).
“A morte de Maria Eduarda não foi marcada pelo luto, mas por uma silenciosa certeza de que o céu havia se aberto para acolher uma de suas filhas muito amadas”, diz o dossiê.
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