quinta-feira, 23 de abril de 2026

ESPIRITUALIDADE

 

O Papa Leão XIV diz que esta carta pode te ajudar a rezar

Em um voo para a África, o Papa Leão XIV se refere à Carta de Santo Agostinho a Proba, convidando os cristãos a redescobrir a oração como um anseio por Deus

Abordo do voo papal para a Argélia esta semana, o Papa Leão XIV, falando com repórteres, referiu-se a uma carta do século IV: Carta 130 a Proba, de Santo Agostinho de Hipona.

Essa referência nos permite vislumbrar a identidade agostiniana do papa, identidade que ele assumiu abertamente desde sua eleição, autodenominando-se "filho de Agostinho." Essa herança marca sua linguagem e o caminho espiritual que ele propõe a toda a Igreja.

Oração como desejo

Na Carta a Proba, Agostinho responde a uma pergunta sincera: Como se deve orar, especialmente quando a própria Escritura admite que "não sabemos orar como deveria ser" (Rom 8, 26)?

A oração, ele explica, não consiste principalmente de palavras, mas de desejo. "Prolongar a oração", escreve Agostinho, "é ter o coração batendo com uma emoção piedosa e contínua." O que importa não é eloquência, mas a saudade: uma orientação constante da alma em relação a Deus.

Essa ideia, destacada pelo Papa Leão, dissipa uma preocupação moderna: a pressão para "orar bem." Agostinho liberta o fiel da "técnica". Mesmo o desejo sem palavras pode ser mais autêntico do que frases cuidadosamente construídas. A verdadeira oração amplia o coração, ampliando sua capacidade de receber aquilo que você busca, mas ainda não pode compreender plenamente.

A busca por uma vida feliz

O ensinamento de Agostinho sobre a oração é inseparável de sua concepção de felicidade. Na Carta 130, ele insiste que todo ser humano, em última análise, anseia por uma vida feliz, e que a felicidade não é outra senão Deus.

Esse tema ecoa sua obra anterior, Sobre a Vida Feliz, um dos Diálogos de Cassiciacum escrito logo após sua conversão. Nele, Agostinho explora a felicidade como participação na verdade e comunhão com Deus. A busca inquieta pela integridade, tão familiar hoje, encontra sua resposta em alinhamento com o divino.

A oração, então, torna-se o campo de treinamento do desejo. Pedimos o que ainda não podemos ver e, ao pedir, aprendemos a desejar corretamente.

Os Diálogos de Cassiciacum

Estes escritos estão entre os primeiros escritos de Agostinho, escritos após sua conversão em 386, durante um retiro próximo a Milão. Entre eles está Sobre a Vida Feliz, onde Agostinho argumenta que a verdadeira felicidade não se encontra no sucesso ou nos confortos, mas em Deus. Esse tema ajuda a entender por que a referência do Papa Leão a Agostinho é relevante: para Agostinho, a oração está intimamente ligada ao desejo mais profundo do coração de alcançar uma alegria duradoura.

O Papa agostiniano

A recomendação do Papa Leão é especialmente correta considerando sua peregrinação ao Norte da África, terra onde Agostinho serviu como bispo de Hipona. Sua visita à basílica perto de Hippo Regia é um retorno às suas raízes espirituais.

Na verdade, na mesma conversa com jornalistas, ele afirmou: "Nesta viagem em particular, eu diria que, se alguém não leu As Confissões de Santo Agostinho, é um excelente ponto de partida."

Essa continuidade também explica as referências recorrentes do papa a Agostinho, mesmo com um toque de humor, como Mares relata. A voz do santo oferece algo de relevância duradoura: uma forma de entender o coração humano que transcende os séculos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário