Em vigília de oração, papa diz que a Igreja está a serviço da paz, mesmo que lhe custe ‘incompreensão e desprezo’
O papa Leão XIV rezou hoje (11) com milhares de fiéis um terço a basílica de São Pedro, no Vaticano numa vigília de oração pela paz. “Temos aqui uma barreira contra esse delírio de onipotência que se torna cada vez mais imprevisível e agressivo à nossa volta”, disse o papa.
O papa inspirou-se no Magistério de um seu predecessor e, no dia em que se comemora o 63º aniversário da assinatura da encíclica Pacem in terris de João XXIII, afirmou que “a oração não é, com efeito, um esconderijo para fugir às nossas responsabilidades, nem um anestésico para evitar a dor que tanta injustiça desencadeia. É, pelo contrário, a resposta mais gratuita, universal e revolucionária à morte: somos um povo que já ressurge!”
Numa basílica repleta de fiéis, no final da recitação dos Mistérios Gloriosos do Santo Rosário com meditações dos padres da Igreja, o papa fez a seguinte oração:
Senhor Jesus,
vencestes a morte sem armas nem violência:
derrotastes o seu poder com a força da paz.
Dai-nos a vossa paz,
tal como às mulheres perplexas na manhã da Páscoa,
tal como aos discípulos escondidos e amedrontados.
Enviai o vosso Espírito,
sopro que dá vida, que reconcilia,
que torna irmãos e irmãs os adversários e os inimigos.
Inspirai-nos a confiança de Maria, vossa Mãe,
que, com o coração despedaçado, permaneceu ao pé da vossa cruz,
firme na fé de que teríeis ressuscitado.
Que a loucura da guerra tenha fim
e que a Terra seja cuidada e cultivada por aqueles que ainda
sabem gerar, guardar, amar a vida.
Ouvi-nos, Senhor da vida!
Leão XIV introduziu-a dizendo que “na oração, as limitadas possibilidades humanas unem-se às infinitas possibilidades de Deus. Pensamentos, palavras e obras rompem, assim, a cadeia demoníaca do mal e colocam-se ao serviço do Reino de Deus: um Reino onde não há espadas, nem drones, nem vinganças, nem banalização do mal, nem lucro injusto, mas apenas dignidade, compreensão e perdão”.
“Basta um pouco de fé, uma migalha de fé, para enfrentarmos juntos, como humanidade e com humanidade, este momento dramático da história”, em que “os equilíbrios na família humana estão gravemente desestabilizados. Até mesmo o Santo Nome de Deus, o Deus da vida, é arrastado para os discursos de morte. Desaparece, assim, um mundo de irmãos e irmãs com um único Pai nos céus e, como num pesadelo, a realidade enche-se de inimigos. Por toda a parte, em vez de chamados à escuta e ao encontro”, disse o papa.
“Quem reza não mata nem ameaça com a morte, mas tem consciência dos próprios limites”, disse Leão XIV. “Em vez disso, é escravo da morte aquele que virou as costas ao Deus vivo, para fazer de si mesmo e do próprio poder o ídolo mudo, cego e surdo (cf. Sl 115, 4-8), ao qual sacrifica todos os valores e diante do qual pretende que o mundo inteiro se ajoelhe. Basta com a idolatria de si mesmo e do dinheiro! Basta com a ostentação da força! Basta com a guerra! A verdadeira força manifesta-se no serviço à vida”.
O papa citou as palavras de Pio XII: “Nada se perde com a paz. Mas tudo pode ser perdido com a guerra”.
Leão XIV propôs unir “as forças morais e espirituais de milhões, de milhares de milhões de homens e mulheres, de idosos e de jovens que hoje acreditam na paz, que hoje optam pela paz, que cuidam das feridas e reparam os danos deixados pela loucura da guerra”.
Nas cartas de crianças das zonas de guerra o papa disse que se percebe “com a verdade da inocência, todo o horror e a desumanidade das ações que alguns adultos exaltam com orgulho. Ouçamos a voz das crianças!”
Depois, dirigiu-se aos governantes das nações: “Parai! É tempo de paz! Sentai-vos às mesas do diálogo e da mediação, não às mesas onde se planeia o rearmamento e se deliberam ações de morte!”
O papa disse que há a responsabilidade de todos em rezar para “converter o que resta de violência nos nossos corações e nas nossas mentes: convertamo-nos a um Reino de paz que se edifica dia após dia, nas casas, nas escolas, nos bairros, nas comunidades civis e religiosas, tirando espaço à polémica e à resignação com a amizade e a cultura do encontro. Voltemos a acreditar no amor, na moderação, na boa política. Formemo-nos e impliquemo-nos em primeira pessoa, cada um respondendo à sua vocação. Cada um tem o seu lugar no mosaico da paz!”
Leão comentou que no terço rezado na basílica, “com seu ritmo regular, marcado pela repetição a paz vai ganhando espaço, palavra após palavra, gesto após gesto, como uma pedra que gota a gota se fura, como a tecelagem no tear, que avança movimento após movimento. São os longos tempos da vida, sinal da paciência de Deus. Precisamos de não nos deixar arrastar pela aceleração de um mundo que não sabe o que persegue, para voltarmos a servir o ritmo da vida, a harmonia da criação, curando as suas feridas. Como nos ensinou o Papa Francisco: há necessidade de artesãos de paz prontos a gerar, com inventiva e ousadia, processos de cura e de um novo encontro (Carta Encíclica Fratelli tutti, 225)”.
“Voltemos para casa com este compromisso de rezar sempre, sem desanimar, e de uma profunda conversão do coração”, disse o papa. “A Igreja é um grande povo ao serviço da reconciliação e da paz, que vai em frente sem titubear, mesmo quando a rejeição da lógica bélica lhe pode custar incompreensão e desprezo. Ela anuncia o Evangelho da paz e educa para obedecer a Deus antes do que aos homens, especialmente quando se trata da infinita dignidade de outros seres humanos, posta em risco pelas contínuas violações do direito internacional”.
“Somos uma única família que chora, espera e se levanta”, concluiu o papa.
Antes de entrar na basílica, Leão XIV parou na praça de São Pedro para saudar os milhares de fiéis. “Obrigado pela vossa presença”, disse ele. “Por terem querido responder a este apelo, a este convite, para nos unirmos todos com a nossa voz, com os nossos corações, com a nossa vida, para rezar pela paz. Todos nós temos a paz nos nossos corações; que a paz reine verdadeiramente em todo o mundo, e que sejamos nós os portadores desta mensagem”.
“Deus escuta-nos, Deus acompanha-nos; Jesus disse-nos que onde dois ou três estiverem reunidos em seu nome, Ele está presente entre nós. Nestes dias da Oitava da Páscoa, acreditamos profundamente na presença de Jesus ressuscitado entre nós. Agora, unidos na oração do Santo Rosário, pedindo a intercessão da nossa Mãe Maria, queremos dizer ao mundo inteiro que é possível construir a paz, uma paz nova, que é possível viver juntos com todos os povos, de todas as religiões, de todas as raças, que queremos ser discípulos de Jesus Cristo, unidos como irmãos e irmãs, todos unidos num mundo de paz”.
Na Basílica, sobre o altar, encontrava-se a imagem da Rainha da Paz, vinda da paróquia romana de Mon
Nenhum comentário:
Postar um comentário