A comovente visita de Leão XIV à Argélia realizada longe das câmeras
Em Bab El Oued, uma visita privada seguindo os passos dos mártires da Argélia<br>Amemória dos mártires da "Década Negra" esteve presente desde o primeiro dia da visita do Papa Leão XIV à Argélia: em Bab El Oued, o Papa fez uma parada simbólica, longe das câmeras, para homenageá-los.
As missionárias assassinadas
A visita de 48 horas de Leão XIV à Argélia não se concentra na memória dos mártires da "Década Negra", as 19 vítimas católicas da guerra civil argelina que foram beatificadas em Oran em 2018, mas, mesmo assim durante seu primeiro dia na Argélia, o Papa prestou-lhes homenagem fazendo uma visita privada ao "Centro de Acolhimento e Amizade" das Irmãs Missionárias Agostinianas no bairro operário de Bab El Oued. Ali viviam duas freiras espanholas da congregação agostiniana, a Irmã Esther Paniagua Alonso e a Irmã Caridad Álvarez Martín. Ambas foram assassinadas em 23 de outubro de 1994, a caminho da missa no convento das Irmãzinhas de Jesus, localizado a uma curta distância dali. Essas missionárias optaram por permanecer no país, apesar dos apelos para que partissem, em meio à grande instabilidade e violência da guerra civil.
“Ninguém pode tirar nossas vidas porque já as entregamos”, escreveu a Irmã Esther em seus diários, em palavras proféticas. O Papa, que também serviu como missionário no Peru e se recusou a deixar o país durante o turbulento período sociopolítico da década de 1980, visitou seus túmulos a portas fechadas, sem câmeras ou microfones. Após um momento de oração com as irmãs daquela residência, o Papa homenageou suas companheiras mártires e os mártires beatificados com elas — incluindo os monges de Tibhirine —, reconhecendo nelas “uma presença preciosa nesta terra”, como reiterou posteriormente ao se encontrar com católicos na basílica. Segundo uma nota do Vaticano, Leão XIV enfatizou a vocação agostiniana de “dar testemunho até o martírio”. Respeito pela dignidade de cada pessoa
Reencontro com a família agostiniana
Dentro das paredes do que hoje é um “Centro de Acolhimento e Amizade”, o Papa reencontrou sua família espiritual — as Agostinianas — mas também uma conhecida de longa data: a Irmã Lourdes Miguelez, uma freira agostiniana de 77 anos que ele conhece há cerca de quinze anos. A freira espanhola é uma sobrevivente do atentado: ela caminhava atrás da Irmã Esther e da Irmã Caridad quando estas foram mortas pelos terroristas. Foi ela quem acolheu Robert Prevost, que chegou à Argélia como Prior da Ordem de Santo Agostinho, antes de sua eleição como o 267º Papa.
Durante esta breve visita, o pontífice americano encorajou essas freiras — três residentes na Argélia e três em outros locais de Argel — a “promover o respeito pela dignidade de cada indivíduo” e a “afirmar que é possível viver em paz, valorizando as diferenças”.
Hoje, o centro oferece apoio acadêmico, aulas de francês e espanhol e oficinas de artesanato para mulheres (costura, crochê, pintura, etc.).
Durante o encontro subsequente com católicos argelinos na Basílica de Nossa Senhora da África, Leão XIV também prestou homenagem à memória desses mártires que, “diante do ódio e da violência, […] permaneceram fiéis à caridade até o sacrifício de suas vidas, ao lado de tantos homens e mulheres, cristãos e muçulmanos”. “Seu sangue é uma semente viva que jamais deixará de dar frutos”, declarou.
Como lembrança de sua visita, o sucessor de Pedro deixou para a pequena comunidade de Bab El Oued uma cruz de vidro cravejada de pedras preciosas, adornada com pedras vermelhas – como o sangue dos mártires –, pedras azuis – como o céu – e pedras verdes – como a esperança.
Este crucifixo, gravado com os símbolos dos quatro Evangelistas, permanecerá também como uma lembrança sutil, um discreto eco do vínculo que une os mártires da Argélia e o Papa eleito em 8 de maio – dia de sua comemoração no calendário romano.
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