sexta-feira, 17 de abril de 2026

IGREJA

 Fiéis de Marajó pedem retratação do bispo por falas sobre adoração eucarística

Fiéis da prelazia de Marajó (PA) escreveram uma carta aberta dirigida ao bispo da prelazia, dom José Ionilton Lisboa de Oliveira, SDV, pedindo esclarecimento público sobre declarações feitas por ele em homilias recentes sobre a adoração eucarística e a recepção da comunhão. Segundo os autores, as falas causaram “grande inquietação, confusão e até escândalo entre os fiéis, sobretudo por parecerem contrariar uma tradição viva e consolidada da Igreja Católica”.

“Nosso pedido não nasce de espírito de julgamento, mas do legítimo anseio de permanecer na verdade da fé e em comunhão com os pastores que Deus constituiu para guiar seu povo”, dizem os fiéis na carta.

Eles também dizem que se dirigem “a Vossa Excelência Reverendíssima, movidos pelo amor à Igreja, pela fidelidade ao Sagrado Magistério e pela profunda reverência ao Santíssimo Sacramento da Eucaristia”

A ACI Digital entrou em contato com cinco católicos da prelazia que confirmaram a autenticidade da carta e disseram que ela foi enviada ao bispo por meio do e-mail oficial da prelazia, mas que ainda não obtiveram resposta. Um dos fiéis disse que não pode divulgar os nomes dos signatários porque eles se sentem “acuados” e “silenciados”.

Segundo apuração da ACI Digital, a iniciativa foi organizada por uma equipe de cerca de 16 pessoas ligadas às paróquias de Sant’Ana, em Breves (PA); São José, em Breves; Santa Maria, em Bagre (PA); Menino Deus, em Soure (PA); e Nossa Senhora da Luz, em Portel (PA); reunindo fiéis de diferentes cidades da prelazia.

As falas de dom Ionilton criticadas pelos fiéis e descritas na carta ocorreram na homilia da missa da Ceia do Senhor, na Quinta-feira Santa, celebrada na paróquia Menino Deus, em Soure (PA). O vídeo da celebração circulou nas redes sociais e repercutiu em diversos canais católicos.

Na missa, dom Ionilton disse que “a eucaristia foi instituída para a gente comer e beber, para a gente comungar, participar e não para adorar”.

Em outro momento da homilia, ele também disse “nós não precisamos ter medo da Eucaristia” e criticou fiéis que deixam de comungar por pensarem: “Não, eu não sou digno de receber Jesus, eu sou pecador”.

 “A gente come a eucaristia indignamente quando a gente não ama e não serve. Aí a gente precisa fazer a confissão, pedir perdão, a reconciliação com Deus, com a igreja e com os irmãos”, disse.

Os autores da carta afirmam que a adoração ao Santíssimo Sacramento “é uma prática profundamente enraizada na fé da Igreja, recomendada por diversos santos, teólogos e reafirmada pelo Magistério ao longo dos séculos”.

Os fiéis também citam outro episódio ocorrido na missa dos Santos Óleos e da Unidade, celebrada em 24 de março na paróquia Santa Maria, no município de Bagre (PA).

Quando o comentarista da missa disse: “aqueles que estão preparados para receber Jesus podem se aproximar à fila da comunhão”. Dom Ionilton resmungou: “Não se diz mais isso, gente. Quem está preparado? Eu mesmo acho que não estou. Quem está preparado para receber Jesus? Esse negócio é sério, hein?”.

Logo em seguida, uma mulher se ajoelha para receber a comunhão na boca e dom Ionilton lhe diz: “A senhora pode comungar em pé, viu? Está vendo a dificuldade. Quem ensina essas coisas?”

A fala foi captada por um microfone de lapela que estava gravando a voz do bispo para a transmissão da missa ao vivo nas redes sociais. Os participantes da missa não o escutaram. O vídeo com as falas viralizou na internet e foi comentado por alguns canais católicos, mas depois foi apagado das redes.

Na carta, os autores lembram que receber a comunhão de joelhos “é uma prática permitida pela Instrução Geral do Missal Romano nº 160, onde diz que é permitido aos fiéis comungarem de joelhos ou de pé, conforme determinação da Conferência Episcopal”.

“Diante disso, e considerando a responsabilidade pastoral que Vossa Excelência exerce como sucessor dos Apóstolos, vimos, com humildade e respeito, solicitar um esclarecimento público acerca de tais declarações”, escreveram.

“Caso tenham sido interpretadas de forma equivocada, pedimos que sejam devidamente esclarecidas. Caso correspondam fielmente ao pensamento de Vossa Excelência, solicitamos, com espírito de comunhão e amor à Igreja, uma reflexão e eventual retratação, a fim de evitar divisões e fortalecer a unidade do Corpo de Cristo”, continua a carta.

A ACI Digital entrou em contato com dom Ionilton em duas ocasiões para pedir um posicionamento sobre as falas mencionadas acima. O bispo disse que retornaria o contato na quarta-feira (15), mas não respondeu até o fechamento desta matéria hoje (16).

“Rezamos por Vossa Excelência, pedindo ao Senhor que o ilumine, fortaleça e conduza sempre na fidelidade à missão episcopal. Na certeza de sermos ouvidos como filhos que amam sua Igreja, subscrevemo-nos, Respeitosamente, Fiéis Católicos desta Prelazia de Marajó”, conclui a carta.

Dom Ionilton participa atualmente do retiro espiritual dos bispos durante a 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Aparecida (SP). O retiro termina hoje (16) com um momento de adoração eucarística às 17h no altar central da basílica nacional, seguido da celebração da missa às 18h. A assembleia termina em 24 de abril.

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