terça-feira, 21 de abril de 2026

IGREJA

 Cristo não é 'um guru ou um amuleto da sorte', diz o papa em missa em Angola

O papa Leão XIV alertou, em missa celebrada hoje (20) em Saurimo, Angola, sobre o perigo de transformar Deus num ídolo, buscado só quando conveniente — “quando a fé autêntica é substituída por um comércio supersticioso”.

“Existem motivos errados para procurar Cristo, sobretudo quando é considerado um guru ou um amuleto da sorte”, disse hoje o papa, referindo-se à reação das multidões na leitura do Evangelho depois de Jesus Cristo fazer o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes.

“Eles não procuram, efetivamente, um mestre a quem amar, mas um líder a reverenciar por interesse”, disse ele.

Fé alegre em Saurimo

Desde sua chegada à África Subsaariana — primeiro em Camarões e depois em Angola — o papa Leão XIV foi recebido por fiéis. Em Saurimo, cidade no nordeste de Angola, o sucessor de são Pedro foi recebido com cânticos, danças e aplausos.

Apesar do calor intenso, ao chegar à esplanada antes da missa, Leão XIV saudou cerca de 60 mil fiéis de todas as idades que vieram de toda a região e de dioceses vizinhas fazendo um percurso no papamóvel.

“Essa é a primeira vez que um papa vai além da zona costeira de Angola e vem — usando as palavras do papa Francisco — às periferias”, disse o diretor do escritório de comunicação da Arquidiocese de Saurimo. “Esta é uma região rica em diamantes, mas também com muita pobreza, e ele vem aqui para mostrar a nossa realidade. Para nós, ter o Santo Padre em nossa região é uma grande alegria”.

“Este é um momento único e inesquecível na minha vida e na vida dos muitos peregrinos que estão aqui hoje”, disse Filomena Vunda, que trabalha na secretaria pastoral da arquidiocese de Malanje, à ACI Africa, agência da EWTN na África, na missa.

Vunda incentivou os não-católicos em Angola a "manterem em mente nossa palavra africana, Ubuntu: A felicidade dos outros depende de mim; minha felicidade depende unicamente da felicidade dos outros".

Ubuntu é uma filosofia africana sobre a interconexão humana. Pode ser traduzida como "Eu sou porque nós somos".

'Discípulos de Cristo'

Em sua homilia na missa, concelebrada por bispos angolanos, o papa Leão XIV disse: “Em todas as partes do mundo, a Igreja vive como povo que caminha no seguimento de Cristo, nosso irmão e Redentor”.

"Ele, o Ressuscitado, ilumina-nos a via para o Pai e santifica-nos com a força do Espírito, para que transformemos o nosso estilo de vida segundo o seu amor", disse o papa. "Essa é a Boa Nova, o Evangelho que corre como sangue nas veias, sustentando-nos ao longo do caminho".

“Quando o Filho de Deus se faz homem, realiza gestos eloquentes para manifestar a vontade do Pai: ilumina as trevas dando a vista aos cegos, dá voz aos oprimidos soltando a língua dos mudos, sacia a nossa fome de justiça multiplicando o pão para os pobres e os fracos”, disse Leão XIV sobre o Evangelho do dia. “Quem ouve falar destas obras põe-se à procura de Jesus. Ao mesmo tempo, o Senhor vê o nosso coração, perguntando-nos se o procuramos por gratidão ou por interesse, por cálculo ou por amor”.

“Com efeito, à gente que o seguia [o Senhor] diz: Vós procurais-me, não por terdes visto sinais miraculosos, mas porque comestes dos pães e vos saciastes (Jo 6, 26)”, disse o papa. “As suas palavras manifestam os projetos de quem não deseja o encontro com uma pessoa, mas o consumo de objetos. A multidão vê Jesus como um instrumento para atingir outros fins, vê-O como um prestador de serviços. Se Ele não lhes desse de comer, os seus gestos e ensinamentos não interessariam”.

“O mesmo acontece quando a fé autêntica é substituída por um comércio supersticioso, no qual Deus se torna um ídolo que se procura só quando nos serve e enquanto nos serve”, disse ele. “Até os mais belos dons do Senhor, que cuida sempre do seu povo, se tornam então uma exigência, um prêmio ou uma chantagem, e são mal compreendidos precisamente por quem os recebe”.

“Bem diferente é a atitude de Jesus para conosco: Ele não rejeita esta procura insincera, mas incentiva à sua conversão”, disse Leão XIV. “Não manda embora a multidão, mas convida todos a examinar o que palpita no nosso coração. Cristo chama-nos à liberdade: não quer servos nem clientes, mas procura irmãos e irmãs a quem se dedicar com todo o seu ser”.

“A advertência que o Senhor dirige à multidão transforma-se assim num convite: Trabalhai, não pelo alimento que desaparece, mas pelo alimento que perdura e dá a vida eterna (Jo 6, 27)”, disse o papa.

“O seu dom ilumina o nosso presente: com efeito, hoje vemos que muitos desejos das pessoas são frustrados pelos violentos, explorados pelos prepotentes e enganados pela riqueza”, disse ele. “Quando a injustiça corrompe os corações, o pão de todos torna-se propriedade de poucos”.

“Perante tais males, Cristo escuta o clamor dos povos e renova a nossa história: em cada queda levanta-nos, em cada sofrimento conforta-nos, na missão encoraja-nos”, disse Leão XIV.

“Por isso, seguindo Jesus, o caminho eclesial é sempre um ‘Sínodo da ressurreição e da esperança’, como disse são João Paulo II na sua exortação apostólica para a África: continuemos nessa sábia direção”, disse o papa. “Com o Evangelho no coração, tereis coragem diante das dificuldades e desilusões: o caminho, que Deus abriu para nós, nunca desilude. O Senhor caminha sempre ao nosso lado, para que possamos prosseguir na sua estrada: o próprio Cristo dá orientação e força à caminhada, uma caminhada que queremos aprender a viver cada vez mais como deve ser, ou seja, de modo sinodal”.

Leão XIV concluiu falando sobre a importância dos mártires e santos, cujo testemunho “encoraja-nos e impele-nos a um caminho de esperança, de reconciliação e de paz, ao longo do qual o dom de Deus se torna o compromisso do homem na família, na comunidade cristã, na sociedade civil”.

“A vitalidade das vocações que vivenciais é, de modo particular, sinal da correspondência ao dom do Senhor, sempre abundante para quem o acolhe com coração puro", disse ele.

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