domingo, 3 de maio de 2026

IGREJA

 

São Paulo da Cruz inspira brasileiros a acolher moradores de rua

Uma instituição que atende com caridade quem mais precisa 

Caminhamos pelas ruas vibrantes de Campina Grande, a "Rainha da Borborema", no coração da Paraíba. O sol, impiedoso, banha o asfalto por onde circulam milhares de histórias cruzadas. Mas, se aguçarmos o olhar para além do vaivém do comércio e das feiras agroecológicas, encontraremos figuras que parecem suspensas no tempo: os homens e mulheres em situação de rua. Para muitos, eles são invisíveis, sombras que habitam as esquinas escuras e os vãos da história urbana. No entanto, em um endereço específico, na Rua Vila Nova da Rainha, número 376, uma porta se abre para algo que vai muito além de um simples teto. Estamos diante da Casa de Acolhida São Paulo da Cruz

Esta instituição, fundada em 19 de outubro de 2003, não é apenas um abrigo; é um laboratório de humanidade fundamentado em uma tradição que remonta à Itália do século XVIII. Cruzar este umbral é como fazer uma viagem no tempo e no pensamento. Aqui, a assistência material — o prato de comida, o banho quente, a muda de roupa — é o ponto de partida para uma jornada mais profunda: a ressignificação da dor através de uma mística que o tempo parece ter esquecido. 

O legado de um santo 

Para compreendermos o que acontece dentro dessas paredes, precisamos retroceder mais de trezentos anos. Imaginem a Itália de 1720. Um jovem chamado Paulo Danei, que mais tarde seria conhecido como São Paulo da Cruz, tem uma visão que mudaria sua vida: ele se vê vestido de preto, com o nome de Jesus e uma cruz branca sobre o peito. Sua missão? Fazer "memória da Paixão". Mas não se trata de um lamento fúnebre sobre um evento passado. Para Paulo, o esquecimento da dor de Cristo era a causa de todas as desgraças humanas. Ele acreditava que, ao participar do sofrimento do outro, participamos de algo sagrado. 

Essa filosofia atravessou o Atlântico e se materializou em Campina Grande sob a égide dos Religiosos Passionistas. Na Casa de Acolhida, os moradores de rua não são vistos apenas como "dependentes químicos" ou "desvalidos do sistema capitalista". Eles são chamados de "crucificados". É uma terminologia poderosa. Ao usar esse conceito, a instituição retira o indivíduo da categoria de "lixo social" e o coloca no centro de uma teologia do cuidado. O sofrimento deixa de ser um vazio para se tornar uma condição existencial que exige resposta. 

O acolhimento 

Mas o desafio é imenso. Viver na rua cria o que os especialistas chamam de "sistema da rua". É uma estrutura de sobrevivência brutal, baseada em disputas por território, abusos e uma liberdade que, embora perigosa, torna-se viciante. Quando um morador entra na Casa São Paulo da Cruz, ele traz consigo esses vestígios. O silêncio da casa, às vezes, é rompido pelo desconforto da adaptação. Muitos procuram apenas o imediato — o banho, a roupa nova — e logo partem, impulsionados  pelo chamado do asfalto. 

Por que alguém deixaria bens e família para viver na precariedade? A resposta pode estar na fuga de ordens estabelecidas ou no esgotamento psíquico. Na Casa, tenta-se implantar a "espiritualidade assistida". Não é doutrinação, mas uma tentativa de reconstruir projetos de vida desencantados.  Hoje, o foco reside na dignidade básica e no restabelecimento da cidadania, ajudando essas pessoas a recuperarem seus documentos e, com eles, sua identidade perante o Estado. 

Como defendia o místico São Paulo da Cruz, a dor está no mundo para humanizar. Em Campina Grande, entre o concreto e a esperança, a Casa de Acolhida São Paulo da Cruz permanece como um lembrete de que o rosto de Deus ainda sofre no rosto do outro. E que a verdadeira sabedoria não é aquela adquirida nos grandes centros acadêmicos, mas a que se obtém ao participar da dor de quem nada tem, transformando o "esquecimento" em memória viva de solidariedade.

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