Santa Sé publica a carta de 2024 em que rejeitou bênçãos ritualizadas a uniões do mesmo sexo na Alemanha
A Santa Sé divulgou hoje (4) uma carta datada de novembro de 2024 na qual o dicastério para a Doutrina da Fé rejeitou categoricamente uma proposta do episcopado alemão de introduzir bênçãos ritualizadas para uniões do mesmo sexo e em situação irregular, alertando que tal formato poderia ser interpretado como uma legitimação de uniões incompatíveis com a doutrina da Igreja.
O documento está assinado pelo prefeito do dicastério, o cardeal Víctor Manuel Fernández, e dirigido ao bispo de Trier, dom Stephen Ackermann, e, por meio dele, a todo o episcopado alemão.
Na carta, a Santa Sé responde com uma negação categórica a um texto que propunha a implementação de bênçãos com uma forma ritual estabelecida, uma possibilidade que — segundo a Santa Sé — entra em conflito com a doutrina da Igreja.
A carta, datada de 18 de novembro de 2024, responde a um Vade Mecum elaborado pelo episcopado alemão um mês antes, em 24 de outubro. O documento — um guia para sacerdotes redigido em alemão e italiano — pretendia servir de auxílio prático para as “Bênçãos para casais que se amam” e foi apresentado como uma aplicação da declaração Fiducia supplicans à realidade pastoral das dioceses na Alemanha.
O antecedente: Fiducia supplicans
Em 2023, a então congregação para a Doutrina da Fé — hoje dicastério — publicou o documento Fiducia supplicans, que abriu a possibilidade de abençoar casais “em situação irregular” ou do mesmo sexo, sem equipará-los ao matrimônio. O texto especificava que tais bênçãos não poderiam ser realizadas dentro de um ritual específico nem com os sinais próprios de um casamento.
A Igreja na África expressou então sua rejeição unânime ao documento e solicitou esclarecimentos ao papa Francisco.
O dicastério relembra, na carta de 2024, publicada em seu site, que Fiducia supplicans estabelece claramente que a “Igreja não tem o poder de conferir sua bênção litúrgica quando esta, de alguma forma, possa oferecer uma forma de legitimação moral a uma união que pretende ser um casamento ou a uma prática sexual extraconjugal”, nem tampouco àqueles que reivindicam “a legitimação de um próprio status”.
Diante disso, a carta do cardeal Fernández diz que no Vade Mecum alemão “fala-se de uma união e de uma ‘regulação oficial’, por parte dos Pastores, de casais que se amam fora do matrimônio”, e inclusive de uma “aclamação”, “gesto que normalmente está previsto no ritual matrimonial”. Nesse sentido, a Santa Sé di que tal ato legitima “o status desses casais, em sentido contrário ao afirmado pela Fiducia supplicans”.
Por que a Santa Sé a publica agora
A carta começou a circular amplamente na internet, o que gerou confusão ao ser apresentada como se fosse uma declaração recente. Diante dessa situação, o próprio cardeal Fernández disse, em declarações à ACI Prensa, agência em espanhol da EWTN, o motivo de sua publicação neste momento.
“O Santo Padre disse no voo de volta da África que a Santa Sé já havia enviado uma resposta sobre esse tema aos bispos alemães e muitos perguntavam onde estava essa resposta ou o que ela dizia. Por essa razão, decidimos torná-la pública”, disse o prefeito do dicastério para a Doutrina da Fé.
A Santa Sé “não concorda”
No voo de regresso a Roma, depois uma viagem de onze dias pela África, o papa Leão XIV disse perante os jornalistas que a Santa Sé “não concorda com a bênção formal de uniões homossexuais”.
O papa respondeu a uma pergunta de uma jornalista sobre a diretriz dada pelo cardeal alemão Reinhard Marx, arcebispo de Munique e Freising, que instava padres e agentes pastorais a abençoarem de maneira uniforme uniões do mesmo sexo ou divorciados que se casaram novamente em sua arquidiocese.
Antes de responder diretamente, Leão XIV ressaltou que “a unidade ou a divisão da Igreja não deve girar em torno de questões sexuais” e lamentou a tendência de reduzir a moral cristã exclusivamente a esse âmbito. “Existem questões muito maiores e mais importantes, como a justiça, a igualdade, a liberdade dos homens e das mulheres, a liberdade religiosa, que deveriam ter prioridade”, disse.
No entanto, o papa insistiu que “a Santa Sé já se dirigiu aos bispos alemães e deixou claro que não concorda com a bênção formal de casais homossexuais”, para além do permitido pelo papa Francisco ao afirmar que “todas as pessoas recebem bênçãos”.
“Quando um padre dá a bênção no final da missa ou quando o papa dá uma bênção no final de uma grande celebração, trata-se de bênçãos para todas as pessoas”, destacou, lembrando a expressão habitual de seu predecessor Francisco: “Tutti, tutti, tutti”.
Ir além disso, advertiu Leão XIV, “pode causar mais desunião do que unidade”. “Todos estão convidados a seguir Jesus, mas também todos estão convidados a buscar a conversão em suas vidas”, concluiu.
Com a publicação desta carta de 2024, a Santa Sé deixou claro que as declarações do papa Leão XIV não representam uma mudança recente de posição, mas a divulgação de uma resposta anterior, emitida há quase dois anos, com o objetivo de esclarecer dúvidas e reiterar que não são admissíveis formas de bênção que possam ser interpretadas como uma legitimação de situações incompatíveis com o ensinamento doutrinário da Igreja.
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