Da guerra à missão: o menino que se tornou frade para levar Jesus e Maria aos corações
Nascido na Itália, às margens do rio Adige, Frei Sebastião viveu a infância em meio às marcas profundas deixadas pela Segunda Guerra Mundial. As lembranças daquele tempo permaneceram vivas em sua memória ao longo de toda a vida.Avida de Frei Sebastião Benito Quaglio é atravessada pela dor da guerra, pela espiritualidade franciscana e pela missão de evangelizar sob a proteção de Nossa Senhora. Sua trajetória reúne sofrimento, fé e reconstrução — elementos que moldaram não apenas sua vocação sacerdotal, mas também sua forma de olhar para a humanidade.
“Eu me lembro do céu escuro, do barulho das bombas e do medo das pessoas correndo pelas ruas”, recordava em seus testemunhos. “Parecia que o mundo estava acabando.”
Em abril de 1945, sua cidade foi violentamente atingida pelos bombardeios alemães. Pontes destruídas, casas reduzidas a escombros, a igreja e o castelo devastados, corpos sendo levados pela correnteza do rio Adige: imagens duras demais para os olhos de uma criança, mas impossíveis de esquecer.
Foi naquele cenário de destruição que viveu um dos episódios mais traumáticos de sua infância. Durante a reconstrução da cidade, encontrou uma bomba não detonada. O artefato explodiu e quase lhe arrancou uma das pernas quando tinha apenas sete anos de idade.
Naquele momento, sem entender tudo, percebi que a vida podia mudar em segundos”, relatava. O sofrimento físico e emocional deixaria marcas profundas, assim como as perguntas que o acompanhariam desde cedo diante da dor humana.
Aprendendo a fé, em meio a guerra
Mas foi justamente em meio à guerra que também aprendeu o significado mais profundo da fé.
A família enfrentava extrema pobreza. Faltava alimento, faltavam recursos, faltava quase tudo. Em uma dessas noites difíceis, seu pai, Hugo Quaglio, olhou para a mesa praticamente vazia e começou a chorar diante da impotência de não conseguir sustentar a família.

Anos depois, Frei Sebastião recordava aquela cena como uma das maiores lições de sua vida.
“Meu pai abaixou a cabeça e chorou. Eu nunca tinha visto aquilo. Então minha mãe pegou o pouco pão que havia sobre a mesa e disse: ‘Obrigado, Senhor, por esta mesa farta’. Aquilo mudou o ambiente da casa.”
Sua mãe, Giovanna, transformou a escassez em oração. O gesto simples renovou o ânimo da família e ensinou aos filhos que a esperança podia ser maior do que o medo, a guerra e a miséria.
Franciscano desde sempre
Essas experiências moldaram profundamente sua vocação sacerdotal e missionária. Ordenado sacerdote em 1967, Frei Sebastião trouxe ao Brasil o carisma da Milícia da Imaculada, inspirado na espiritualidade de São Maximiliano Maria Kolbe, dedicando sua vida à evangelização e à difusão da devoção mariana.
Com forte visão missionária, compreendeu cedo a importância dos meios de comunicação como instrumentos de evangelização. A partir de pequenas iniciativas radiofônicas, fundou a Rádio Imaculada Conceição e, posteriormente, a Rede Imaculada de Comunicação, que reúne emissoras de rádio, televisão e plataformas digitais voltadas à comunicação católica. As primeiras experiências da Milícia da Imaculada no rádio começaram em 1988 e deram origem a uma das maiores redes de evangelização religiosa do país.

Também impulsionou a construção do Santuário Imaculada Conceição e São Maximiliano Maria Kolbe, espaço dedicado à oração, à formação espiritual e à propagação da espiritualidade mariana.
Seu sacerdócio sempre esteve profundamente ligado ao amor à Imaculada.
“Meu maior desejo é levar Jesus a todos os corações sob a proteção de Nossa Senhora”, costuma afirmar. Ao longo das décadas, tornou-se referência espiritual para milhares de fiéis através das missões populares, da pregação, do rádio e da direção espiritual.
Lembranças do presente e do passado
Em reconhecimento aos serviços prestados à Igreja, recebeu em 2017 a medalha Pro Ecclesia et Pontifice, uma das mais altas distinções concedidas pelo Vaticano a religiosos e leigos que se destacam pela dedicação à missão da Igreja e ao Santo Padre.
O saudoso Cardeal Claudio Hummes, amigo próximo e companheiro de missão, costumava destacar a capacidade de Frei Sebastião de unir sacerdotes, religiosos e leigos em torno da evangelização.
Movido pelo espírito franciscano e pela devoção à Imaculada, Frei Sebastião também dedicou atenção especial aos mais pobres. Seu trabalho missionário alcançou favelas, periferias e comunidades carentes, onde sua presença nunca se limitou apenas à assistência espiritual.
“Muitas vezes as pessoas precisavam primeiro de alguém que as escutasse, que segurasse suas mãos”, diz. “Evangelizar também é devolver dignidade.”
Dessa missão nasceu a Casa Santa Clara, criada para acolher pessoas em situação de vulnerabilidade e expressão concreta da caridade vivida como extensão da própria evangelização.
Mais do que uma trajetória religiosa, a história de Frei Sebastião Benito Quaglio revela o caminho de alguém que transformou as marcas da guerra em testemunho de esperança — e fez da fé um instrumento de reconstrução humana e espiritual.

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