quinta-feira, 11 de junho de 2026

IGREJA

 

Na imensa Sagrada Família Leão XIV escolheu a porta estreita dos pobres e pequenos

O quinto dia da visita do Papa à Espanha foi marcado, na noite de quarta-feira, por sua visita à Sagrada Família, onde abençoou a "Torre de Cristo", que se eleva a mais de 172 metros. Longe dos clichês turísticos habituais, ele destacou o edifício como um local de catequese popular, profundamente enraizado na vida deste bairro e da cidade de Barcelona.

Um edifício icônico e magnífico, a Sagrada Família, cuja construção deverá continuar por mais dez anos, é fruto do gênio arquitetônico de Antoni Gaudí, cujo centenário de morte é comemorado este ano, em 2026. Durante um século, milhares de artesãos, operários e arquitetos contribuíram para a construção da basílica. Alguns, que inicialmente vieram contribuir com suas habilidades técnicas, encontraram o Senhor ali: foi o caso, notavelmente, do escultor japonês Etsuro Sotoo, nascido em 1953. Fascinado pela basílica durante uma visita à Europa em 1978, ele retornou inicialmente como um simples pedreiro, sendo posteriormente levado a esculpir algumas das figuras na fachada da Natividade. Essa trajetória artística o levou a pedir o batismo na Igreja Católica e a receber o Prêmio Ratzinger em 2024.

Foi essa dimensão de uma fé viva que o Papa quis destacar durante sua visita, entrando nesse lugar imenso por uma pequena “porta”, a da vulnerabilidade e da fragilidade. Cercada e acolhida com ternura pelo Rei e pela Rainha da Espanha, Valentina, uma menina cega de 12 anos, recebeu o Papa explorando, pelo tato, uma maquete da Torre de Jesus Cristo. Por vários minutos, como se o tempo tivesse parado, ela dedicou-se a explicar seus sentimentos e sua compreensão do edifício.

Este gesto, apoiado pela ONCE — uma organização espanhola que organiza, nomeadamente, sorteios em benefício de pessoas cegas — visava destacar a importância da acessibilidade cultural para pessoas com deficiência visual. Mas também teve um profundo significado espiritual, demonstrando que a basílica acolhe a todos, e especialmente as crianças.

"Uma grande honra"

Poucos minutos antes da chegada do Papa, observar os edifícios perto da Sagrada Família também revelou a estreita ligação entre as crianças e esta basílica, erguida num bairro operário. Entre algumas bandeiras do Vaticano e as mais numerosas bandeiras catalãs, algumas varandas ganharam vida com cenas do quotidiano: uma menina de dois anos a brincar com uma trotinete, uma senhora idosa a observar as medidas de segurança com uma expressão de dúvida, um casal a desfrutar de um aperitivo… A vida quotidiana seguia o seu curso.

Mercedes, uma mulher nascida no bairro há cinquenta anos, não escondeu a sua preocupação ao ver o seu prédio rodeado por um perímetro de segurança bastante restritivo, mas disse estar encantada por ver o edifício à sombra do qual cresceu no centro das atenções mundiais. “A basílica nos inspira e evoluiu consideravelmente ao longo dos anos. Ela mudou a imagem de Barcelona”, explicou ela. “E é uma maravilha arquitetônica”, acrescentou seu marido, Carlos. Embora se declarassem ateu, reconheceram que esta visita papal era “uma grande honra para a sua cidade”.

Um momento de unidade

"Hoje, a Basílica da Sagrada Família nos acolhe nesta bela cidade, abrindo suas portas como se fossem seus braços para convidar a todos a este altar, para ouvir a Palavra de Deus que nos torna uma família amada pelo Senhor, alimentada por sua própria vida na Eucaristia", declarou o Papa em sua homilia.

A presença conjunta do Rei Felipe VI e da Rainha Letizia com líderes catalães e até mesmo do Primeiro-Ministro Pedro Sánchez — que nunca havia participado de uma celebração católica desde que assumiu o cargo — conferiu a este evento a imagem de uma "família sagrada" reunida em torno de um símbolo unificador. O Papa não se enganou ao descrever este edifício como um "sinal de unidade e concórdia para toda a Espanha".

Muitos na plateia esperavam que Leão XIV retornasse para a inauguração final da basílica após a conclusão de sua construção, possivelmente por volta de 2034-2036. Essa era uma perspectiva plausível e bem-vinda para os catalães, que acolheram o Papa como um dos seus, apreciando seus esforços linguísticos: desde sua chegada a Barcelona, ​​ele de fato surpreendeu a população ao falar catalão com uma fluência inesperada. O Papa Leão XIV colocou, assim, o povo da Catalunha no centro das atenções mundiais.

Mas, além da especificidade catalã, ele também destacou o poder da Sagrada Família como instrumento catequético para todos. “Em sua sabedoria, a Igreja renova a Bíblia dos pobres, que são as antigas catedrais, que são em si mesmas mensagens de evangelização de grande riqueza”, insistiu o Papa em sua homilia, enfatizando que “a arte e a beleza são canais eminentes de evangelização”. Ao levar milhares de pessoas diariamente a elevar o olhar para o céu, a Sagrada Família ajuda, assim, a abrir espaços para a presença de Deus.

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