domingo, 12 de julho de 2026

TESTEMUNHO

 

Kate Middleton: exercício físico como aliado aos remédios no combate contra o câncer 

Enquanto a ciência desvenda o mecanismo molecular que protege os músculos durante a doença, exemplos reais mostram que a atividade física e o cuidado holístico são indispensáveis para atravessar o diagnóstico. 

Quando uma pessoa recebe o diagnóstico de câncer, o impacto inicial é sempre avassalador. O chão some sob os pés. A medicina evoluiu de forma fantástica nas últimas décadas, oferecendo cirurgias precisas, quimioterápicos modernos e imunoterapias altamente eficazes. Mas quem já passou por isso ou acompanhou um paciente de perto sabe perfeitamente: tratar o câncer exige muito mais do que apenas tomar remédios. É um processo que mexe com a cabeça, com a rotina e, de forma muito agressiva, com a estrutura física do paciente. 

No final de junho de 2026, um exemplo vindo da realeza britânica ilustrou essa dinâmica de forma marcante. A princesa Kate de Gales completou a Three Peaks Challenge — um desafio hercúleo de resistência que consiste em escalar os picos mais altos da Inglaterra, Escócia e País de Gales em apenas 24 horas. O objetivo foi arrecadar fundos para a instituição onde ela própria realizou seu tratamento oncológico. Ao atingir o topo do Ben Nevis, ela resumiu uma grande verdade médica: o câncer não afeta apenas o corpo; ele altera profundamente a forma como pensamos e sentimos, e a jornada durante e após a cura exige mais do que a abordagem medicamentosa isolada. 

O colapso silencioso dos músculos

Na oncologia, médicos e pacientes enfrentam um inimigo paralelo, silencioso e frequentemente negligenciado: a caquexia. Trata-se de uma síndrome metabólica complexa, caracterizada pela perda progressiva e severa de massa muscular. Quem olha de fora pode pensar que se trata de uma desnutrição comum, daquela que se resolve simplesmente insistindo para que o paciente coma mais. Não é. 

O tumor maligno estabelece um estado de inflamação crônica generalizada no organismo, provocando o que chamamos de resistência anabólica. O corpo simplesmente perde a capacidade de utilizar os nutrientes que recebe para fabricar novas proteínas e manter os músculos saudáveis. Por essa razão, oferecer suporte nutricional de forma isolada é insuficiente. 

É aqui que o treinamento físico aeróbio entra como uma intervenção médica indispensável. O exercício fornece o estímulo mecânico e bioquímico necessário para quebrar essa resistência metabólica. Ele reativa as vias de construção do tecido muscular, permitindo que a nutrição seja, de fato, aproveitada pelo organismo do paciente.

A descoberta de um escudo

Recentemente, uma pesquisa minuciosa desenvolvida na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP trouxe luz aos bastidores moleculares desse benefício. O estudo, conduzido pela pesquisadora Ailma Oliveira da Paixão sob a orientação da professora Patrícia Chakur Brum — com etapas complementares na Harvard Medical School —, investigou o comportamento de uma enzima específica no tecido muscular: a Heme oxigenase-1 (HO-1), conhecida por suas potentes propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. 

Utilizando modelos animais submetidos a uma rotina de treinamento aeróbio — sessões de 60 minutos realizadas cinco vezes por semana —, os cientistas observaram resultados promissores: 

  • Os animais exercitados apresentaram uma redução drástica na atrofia das fibras musculares
  • O treinamento físico conseguiu retardar o crescimento do próprio tumor

A grande virada da pesquisa ocorreu quando os cientistas inativaram geneticamente a enzima HO-1 nos músculos esqueléticos dos animais. Sem essa peça no tabuleiro, todos os benefícios protetores do exercício físico simplesmente desapareceram, e o volume do tumor voltou a expandir-se. 

Uma conversa essencial entre músculo e câncer

Esse achado revela a existência de uma comunicação direta e bioquímica entre o tecido muscular ativado pelo exercício e a progressão da doença no organismo. Os sinais mediados pela enzima HO-1 a partir do músculo treinado agem como uma espécie de freio molecular contra o avanço do tumor. 

É evidente que, por se tratar de um estudo em modelo experimental, os resultados exigem cautela e não podem ser transportados diretamente para a rotina clínica humana sem critérios estritos. No entanto, os dados reforçam o que a prática médica já observa nos consultórios: o sedentarismo nunca é uma opção viável, e menos ainda diante de uma doença crônica grave. 

O repouso absoluto absoluto absoluto ficou no passado. Mexer o corpo de forma orientada, respeitando os limites de cada fase do tratamento, não é apenas um capricho estético ou um passatempo; é parte integrante da terapêutica para preservar a autonomia, a força física e a dignidade de quem luta pela vida. 

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