quarta-feira, 19 de agosto de 2026

ESPIRITUALIDADE

 

Por que o Presidente da Colômbia fez um retiro espiritual antes da posse?

Uma observação atenta do cenário político latino-americano nos ensina que a fronteira entre o palco institucional e o altar religioso tornou-se cada vez mais tênue. Na Colômbia, contudo, o ritual que precedeu a posse presidencial marcada para este mês de agosto ultrapassou os limites convencionais do simbolismo democrático. A poucos dias de assumir o Palácio de Nariño para o mandato 2026-2030, o presidente eleito Abelardo de la Espriella optou por não confinar seus futuros ministros em um centro de convenções para alinhar planilhas orçamentárias ou definir metas fiscais. Em vez disso, reuniu a cúpula do novo governo em um retiro espiritual nas imediações de Barranquilla, em Puerto Colombia, inaugurando o mandato sob uma mística abertamente confessional.

A cena carregava elementos gráficos inconfundíveis: a distribuição de Bíblias personalizadas — gravadas com o mapa do país e o Sagrado Coração de Jesus —, ao lado de declarações categóricas de que a futura administração responderá a uma ordem providencial. A proclamação de que a equipe se encontra “tocada pelo Espírito Santo” não é um mero uso retórico, tampouco uma demonstração ingênua de devoção pessoal. Trata-se da aplicação prática que leva a fé a atuar como a principal ferramenta de coesão, disciplina e articulação do poder executivo.

A teologia da autoridade

Sob a denominação de “Patria Milagro”, o projeto que chega ao topo do poder colombiano articula uma síntese eficiente entre o conservadorismo moral, a doutrina de segurança e a aproximação estratégica com setores católicos tradicionais e igrejas evangélicas. Ao declarar que os desafios da Colômbia não se resumem à gestão macroeconômica ou ao combate à criminalidade, mas representam uma “batalha espiritual”, a nova liderança altera substancialmente a gramática do debate público.

Quando os atos da administração pública são enquadrados sob a chancela da orientação divina, espera-se que a intuição moral da luz da fé evite também os casos de corrupção e prevaricação que marcam o país. Trata-se de um modelo de governança focado no alinhamento irrestrito de sua base de apoio que é popular e religiosa, ao mesmo tempo coloca um escrutínio moral sobre as ações do governo.

O impasse constitucional

O uso intensivo de símbolos cristãos no topo da administração gerou, como era previsível, reações imediatas na capital. Setores do atual governo e congressistas da oposição denunciaram a iniciativa como uma afronta explícita ao princípio da laicidade do Estado, consagrado pela Constituição colombiana. Do outro lado do espectro, defensores da nova gestão rebatem argumentando que o texto constitucional protege a liberdade de consciência e que a manifestação da fé do mandatário não altera a estrutura legal das instituições.

O que se desenha no horizonte de Bogotá não é uma simples contenda ideológica, mas um choque profundo sobre o próprio conceito de legitimidade republicana. Enquanto a oposição aponta para o risco do maniqueísmo político, a liderança eleita sinaliza que utilizará a mobilização espiritual como um pilar permanente de sua comunicação oficial. A Colômbia inicia este novo ciclo sob o signo da convicção: os desafios do país latino americano são imensos e precisam, certamente, de muita ajuda, sobretudo, da divina.

Nenhum comentário:

Postar um comentário