sexta-feira, 7 de agosto de 2026

FAMÍLIA

 

O que faz um pai de verdade? Homens de todo o Brasil respondem

Quem anda pelos interiores deste nosso imenso Brasil, cruzando estradas de poeira ou caminhando pelas periferias das grandes cidades, costuma encontrar uma sabedoria que não se ensina nos livros. É a sabedoria do homem simples, daquele que pai acorda cedo de olhos voltados para o futuro dos filhos. O poeta Vinícius de Moraes pedia: 

Meu pai, dá-me os teus velhos sapatos manchados de terra   

Dá-me o teu antigo paletó sujo de ventos e de chuvas   

Dá-me o imemorial chapéu com que cobrias a tua paciência   

E os misteriosos papéis em que teus versos inscreveste.   

Meu pai, dá-me a tua pequena chave das grandes portas   

Dá-me a tua lamparina de rolha, estranha bailarina das insônias   

Meu pai, dá-me os teus velhos sapatos. 

á uma beleza crua nisso, porque o calçado gasto pelo trabalho carrega a rota de um homem que serve de guia. E falar de pai, nos tempos de hoje, é falar de gente que descobriu que botar comida na mesa é apenas a metade da jornada. A outra metade, a mais bonita e difícil, é a de se fazer presente por inteiro.  

Nas andanças por esse país afora, a gente topa com relatos que afagam a alma. Lá no Rio Grande do Norte, na Diocese de Caicó, o José Carlos Martins da Silva lida com a realidade da Pastoral da Criança. Ele me conta que ser pai em tempo integral não é vigiar o menino o dia todo, mas assumir o compromisso diário de amar, orientar e proteger. "Pequenos gestos, como conversar, brincar e demonstrar carinho, fazem uma diferença danada", diz. É um ensinamento precioso: o pai que controla a própria raiva e expressa afeto ensina que as emoções são naturais e podem ser vividas com saúde, fazendo com que os filhos se sintam acolhidos para falar de medos e alegrias. 

Pai e porto seguro

Descendo o mapa até Uberlândia, em Minas Gerais, a conversa ganha o sotaque bom do Écio Modesto Ferreira. Para ele, o tripé que sustenta um pai de verdade é feito de presença ativa, escuta e exemplo. O Écio lembra uma coisa que muito marmanjo esquece: "não adianta estar no mesmo cômodo com a cabeça longe. É preciso olhar nos olhos do filho, criar um terreiro seguro onde as crianças se sintam validadas. O exemplo arrasta mais que qualquer sermão decorado, transmitindo valores de ética e fé através de atitudes cotidianas".  

Mas o mundo mudou, e os desafios batem na porta. Em Governador Valadares, o Gleiberson Dias Martins Pereira desabafa sobre a dificuldade de encontrar tempo de qualidade em meio à correria e de orientar a meninada diante das fortes influências das redes sociais. É nessa hora que a comunidade e o suporte da Pastoral da Criança dão o braço forte para o sujeito não desanimar.   

Herança que o tempo não apaga

Se a gente viaja até Castanhal, no Pará, encontra o diácono José Eduardo de Souza Palheta. Com a autoridade de quem vê a vida germinar, ele afirma que os pais são a principal influência na vida dos filhos, moldando o desenvolvimento físico e social. "Essa base forte define escolhas futuras e hábitos de vida, direcionando uma geração inteira. É uma responsabilidade grande, mas que enche o peito de orgulho quando dá frutos bons na comunidade", diz.  

E o fruto bom é o que move o Domingos Fausto Alves da Silva. Ele sorri ao dizer que a maior recompensa é ver o filho seguindo o caminho que Deus sonhou. Esse envolvimento, que o Celso dos Santos Coelho acompanha de perto na Lapa e na Sé, em São Paulo, mostra que a conexão paterna começa bem antes do parto, cuidando da mãe na gestação e garantindo um ambiente de paz. No fim, descobrimos que ser pai neste Brasil plural não é um peso: é o privilégio de estender a mão para que a infância caminhe firme, calçada no afeto.

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