Conselho de um padre do deserto: não se conformar com o pouco
Aba Lot, a quem já conhecemos, visita outro Padre do deserto, aba José, cuja fama chegou até ele. Segundo o costume, cada um expõe ao seu irmão sua regra de vida, com a esperança de ouvir palavras que o edifiquem e renovem seu esforço diário com o conselho dado.
A conversa entre os dois monges é um famoso apotegma dos Padres do Deserto. Lot busca a perfeição espiritual:
O abade Lot dirigiu-se à casa do abade José e disse-lhe: "Padre, impus a mim mesmo uma pequena regra, de acordo com as minhas forças: um pequeno jejum; uma pequena oração; uma pequena meditação e um pequeno descanso; e me esforço, na medida das minhas possibilidades, para me livrar dos meus pensamentos; o que mais devo fazer?"
Um programa sem brilho
Eis que o programa de Lot parece pouco chamativo. Sem dúvida para não dar a impressão de estar se exibindo, tudo é modesto na regra de vida que ele estabeleceu para si mesmo: um pequeno jejum, uma pequena oração, uma pequena meditação e um pequeno descanso, tudo isso "em proporção às suas forças".
Quanto ao mais, ele se esforça, como todos os monges, para afastar os pensamentos que lotam sua mente durante a oração, mas esse esforço, repetido indefinidamente, não parece realmente libertá-lo. Então ele pergunta ao Aba José: "O que mais devo fazer?". A resposta de José se resume em seu gesto:
O ancião levantou-se e estendeu as mãos para o céu; então, seus dedos se transformaram em chamas. Disse ao abade Lot: "Se quiseres, podes te transformar por completo em fogo".
O desejo de ter tudo
O extraordinário não consiste em adicionar mais um exercício ao programa que Lot estabeleceu para si, mas reside inteiramente nesse impulso, nesse chamado ardente, nesse desejo de ter "tudo" (para dizer como Santa Teresa): "Se quiseres, podes te transformar por completo em fogo".
"O desejo do céu obtém tanto quanto espera", afirma por sua vez João da Cruz. Deus cumula a alma na medida dos seus desejos. Àquele que se conforma com pouco, pouco lhe será dado; mas àquele que bate obstinadamente à porta, esta se lhe abrirá.
Tantas vezes ficamos às portas, tantas vezes nos conformamos em cumprir as normas, que o Senhor, antes de nos abrir os seus tesouros, assegura-se da constância do nosso desejo, aviva a sede insaciável que deve habitar em nós, enquanto nos sentimos tentados a nos enganar com lamentáveis substitutos… E é aí, bem no final do caminho, onde Ele virá!
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