terça-feira, 29 de setembro de 2026

IGREJA

 

“A cura interior é um encontro permanente

 com o amor de Deus”

Todos nós carregamos feridas. Algumas são bem identificadas, outras mais profundas, mas podem continuar a influenciar nossa maneira de olhar para nós mesmos, de nos relacionar com os outros… e até mesmo com Deus. Como reconhecer essas feridas? O que fazer para curá-las? E que lugar a fé pode ocupar nesse caminho de cura? É a essas questões que Bob Schuchts dedica seu trabalho há muitos anos.

Terapeuta católico e fundador, nos Estados Unidos, do John Paul II Healing Center (Centro de Cura João Paulo II), ele defende uma abordagem integral da pessoa, na qual corpo, alma e espírito estão profundamente interligados. Em seu livro Seja curado! O poder restaurador do amor de Deus (ed. Première Partie / Be Healed), lançado em junho de 2026, ele mostra como feridas antigas podem continuar afetando os relacionamentos, a imagem de si e até a relação com Deus. Para a Aleteia, Bob Schuchts explica como reconhecê-las e avançar em um caminho de cura interior onde psicologia, oração, perdão e sacramentos se encontram.

Aleteia: Em seu livro Be Healed [Seja curado!], o senhor explora inúmeras feridas — rejeição, abandono, traição, vergonha, trauma… Como essas feridas podem continuar afetando nossa vida, às vezes sem que tenhamos consciência disso?

Bob Schuchts: As pesquisas mostraram que as feridas do nosso passado continuam a se manifestar no nosso presente. Nossa mente e nosso corpo guardam na memória as experiências dolorosas e os traumas que não foram resolvidos. Enquanto esses traumas não forem curados, eles podem afetar nossos relacionamentos atuais, bem como nossa saúde física, espiritual e psicológica. Um sofrimento que não é transformado acaba sendo transmitido em nossas relações mais próximas, seja na família, nas amizades ou nas comunidades religiosas.

Quais sinais ajudam a reconhecer que uma ferida do passado ainda afeta nossa vida hoje?

Os mais recorrentes são a recusa em perdoar, problemas de relacionamento recorrentes, áreas de vergonha ou medos persistentes, distorções da imagem de Deus, compulsões e vicios, isolamento…

O processo de cura produz plenamente seus frutos quando é guiado pelo Espírito Santo.

Segundo sua experiência, quais são os mitos mais frequentes sobre a cura interior e o que muitas vezes nos impede de curar?

Às vezes pensa-se que apenas pessoas que viveram traumas graves precisam de cura interior. Na realidade, todos nós precisamos, pois existem em cada um de nós dimensões da nossa vida que ainda não estão plenamente unificadas nem em comunhão com Deus e com os outros.

Como trazer essas feridas à tona, especialmente quando não temos total consciência delas?

Quando tomamos consciência de dificuldades de relacionamento persistentes ou de lutas pessoais recorrentes, elas podem nos revelar nossa necessidade de uma cura mais profunda. O processo de cura produz plenamente seus frutos quando é guiado pelo Espírito Santo, que ilumina o que precisa ser curado e nos leva a apresentar nossas feridas e nosso coração a Jesus para que Ele os cure. Trata-se, então, de estar pronto para receber essa revelação. Também podemos buscar a ajuda de um terapeuta, um acompanhador espiritual, um padre, um amigo ou nosso cônjuge.

Que distinção o senhor faz entre cura física, emocional e espiritual? Essas diferentes formas de cura estão interligadas?

A cura física diz respeito às feridas do corpo, às doenças ou às enfermidades. A cura psicológica trata das feridas da alma causadas pelas deformações do amor e pelas relações rompidas. Quanto à cura espiritual, ela diz respeito à nossa relação com Deus e restaura a graça onde o pecado nos enfraqueceu.

Todas as fontes de graça presentes na Igreja permitem que a ação curadora de Deus se desdobre em nossa vida e na dos outros.

Essas diferentes dimensões são frequentemente consideradas separadamente, mas uma visão católica — e, portanto, integral — da pessoa as enxerga como profundamente interligadas. Muitos males físicos podem estar ligados a feridas psicológicas ou a pecados que afetam nossa vida espiritual. Da mesma forma, as feridas da nossa alma podem influenciar nossa relação com Deus. Somos uma única e mesma pessoa — corpo, alma e espírito. Precisamos, portanto, ser considerados em nossa totalidade, e não como um conjunto de partes fragmentadas ou de sintomas a serem tratados separadamente.

Concretamente, quais ferramentas a fé cristã nos oferece para nos ajudar a curar nossas feridas interiores?

A Igreja tem uma missão de cura, porque Jesus veio curar a pessoa por inteiro — corpo, alma e espírito. A cura é um encontro permanente com o amor e a verdade de Deus, que nos conduz à unidade interior e à comunhão, e que conforma nossa vida à de Cristo. Todas as fontes de graça presentes na Igreja — seu ensino, os sacramentos, uma vida comunitária saudável, mas também a ação a serviço dos outros, a oração pela cura e o perdão — permitem que a ação curadora de Deus se desdobre em nossa vida e na dos outros.

Como elas se inserem concretamente em um verdadeiro processo de cura interior? E como colocá-las em prática a partir de hoje?

Por exemplo, quanto ao perdão, podemos imaginar a pessoa que nos magoou diante de nós e dizer-lhe em que nos fez mal. Na presença de Jesus, podemos expressar nossa raiva, nosso medo e nossa tristeza. Em seguida, podemos apresentar essa pessoa a Jesus ao pé da Cruz e ouvi-Lo pronunciar palavras de perdão. No sacramento da reconciliação, podemos nomear não apenas os comportamentos pecaminosos, mas também as atitudes profundas do nosso coração que deram origem ao pecado — em particular os ressentimentos ligados a feridas não resolvidas e os medos que revelam uma falta de confiança em Deus —, bem como os julgamentos feitos sobre nós mesmos e sobre os outros.

Na Eucaristia, podemos rezar acompanhando o decorrer da missa, concentrando-nos em um aspecto que necessita de cura: no ato penitencial, pedir perdão por nossos ressentimentos ou julgamentos; durante a oração universal, rezar pela pessoa que nos magoou; no ofertório e na consagração, oferecer a Jesus na cruz a ferida de que sofremos; no momento do Pai Nosso e do abraço da paz, perdoar a quem nos fez mal; e na comunhão, convidar Jesus a revelar Seu amor e Sua verdade onde atualmente lutamos ou onde residem nossas feridas passadas. Podemos, depois, fazer uma oração de ação de graças. Em todos esses passos, podemos pedir a Jesus que restaure nossa identidade de filhos e filhas amados, onde tínhamos adotado uma falsa identidade moldada por nossas feridas.

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