sexta-feira, 4 de setembro de 2026

IGREJA

 

Sutil e devastador: o abuso espiritual

Geralmente, os que nos causam maior escândalo são aqueles relacionados à sexualidade, por serem perceptivelmente gravíssimos, ainda mais quando o contra-testemunho vem de uma liderança cuja missão era cuidar. No entanto, há um tipo de abuso muito mais sutil, que além de ser o primeiro passo para outras violações, é tão devastador quanto desrespeitos físicos: o abuso espiritual. 

A etimologia da palavra “abuso” explica bem no que consiste este pecado. O prefixo latino “ab” quer dizer separação, afastamento. Já o radical “usus” significa “uso”. A união dos dois termos dá a ideia de “afastar-se do uso correto”, ou “ ir além do limite adequado”. 

O abuso é colocar uma pessoa humana, cuja dignidade é sagrada e inalienável, no lugar errado da equação: como um meio, ao invés do fim último da ação. É violar a dignidade da pessoa para que se obtenha um benefício próprio. A violação pode ser física, sexual, financeira, verbal, psicológica, emocional e também espiritual. A última ocorre quando, em um contexto religioso, a vítima tem o seu direito de fazer escolhas roubado por um falso conceito de liberdade e obediência, e a consciência manipulada e extraviada. 

Utilizar inadequadamente a autoridade espiritual - oficializada ou não - para objetificar o outro em nome da própria satisfação: isso é o abuso espiritual. A falsa satisfação do abusador é momentaneamente encontrada na sensação proporcionada pela possibilidade de ter a vida de alguém (cotidiana, ou mesmo psíquica e espiritual) “nas mãos”.

É a velha tentação da serpente: “sereis como deuses” (cf. Gn3,5). A sensação de ser “deus” faz com que o abusador ignore a própria humanidade, e se delicie com o poder, sem exigir de si a santidade. No entanto, o abusador é como a serpente, que apresenta à pessoa um deus tirano, e não um pai amoroso.

Sabemos que o coração humano é um campo de batalha


Os evangelistas enumeram os três tipos de tentações pelos quais qualquer um de nós pode passar, já que o próprio Mestre passou: o risco de ter o coração dominado pelo prazer, pelo poder e pelo possuir. O abuso dentro do mundo religioso muitas vezes é, por parte do abusador, uma tentativa de saciar a sede infinita do coração, que só encontra satisfação no poço da Água Viva que é Cristo, esforçando-se para assumir o lugar de Deus. O abusador se autodeclara um deus, e é movido pela falsa sensação de onipotência que a sua autoridade, oficial ou não, lhe concede. 

O abuso é o mais extremo oposto ao mandamento do amor determinado por Jesus. A consequência é sempre a ferida: no membro da Igreja que foi vítima, e no corpo inteiro. Os remédios são dois: justiça e misericórdia. A justiça se pratica dando a cada um o que lhe é devido. E, por isso, um abusador deve enfrentar as consequências de seus crimes. Já a misericórdia se dá na acolhida e acompanhamento próximo da vítima, e na proposta de conversão apresentada ao abusador. 

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