segunda-feira, 5 de outubro de 2026

ESPIRITUALIDADE

 

Não nos resta que rezar

Maria não é uma ideologia ou a um projeto de poder.

A Novena de Nossa Senhora Aparecida, iniciada em 3 de outubro e celebrada até o dia 11 tem como centro o convite a “conhecer e praticar a Palavra”, colocando a Sagrada Escritura no coração da devoção mariana.

Não é uma coincidência menor.

A devoção a Nossa Senhora Aparecida nasceu de um gesto simples de homens simples, passou pela história do Brasil e chegou a 1930, quando Pio XI proclamou Nossa Senhora Aparecida Padroeira do Brasil. Hoje, o Santuário Nacional é a casa espiritual de milhões de brasileiros.

Mas uma devoção verdadeira não se mede apenas pelo número de velas acesas, de peregrinos ou de orações pronunciadas.

Mede-se pela vida que se transforma depois da oração.

Maria não substitui Cristo: conduz a Ele

É aqui que a espiritualidade mariana precisa ser compreendida em toda a sua seriedade.

Maria não é um amuleto nacional. Não é uma espécie de garantia celeste para os destinos de uma nação. É a serva do Senhor, aquela que diz: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5).

Por isso, colocar o Brasil sob a proteção de Nossa Senhora Aparecida significa, antes de qualquer outra coisa, desejar que o Brasil seja novamente um povo capaz de escutar e praticar a mensagem de amor, de perdão e de justiça.

Os bispos brasileiros têm insistido justamente nessa direção. Ao iniciarem sua Assembleia Geral em Aparecida, em abril deste ano, os membros da CNBB foram recebidos sob o olhar de Nossa Senhora e afirmaram que suas reflexões sobre a missão da Igreja e os desafios do tempo presente deveriam ser iluminadas pelo Evangelho.

A ordem é importante: primeiro o Evangelho; depois, a presença do cristão no mundo.

A Igreja não precisa de um partido católico para ser fiel ao seu Senhor. Precisa de católicos fiéis.

A própria CNBB recorda, em sua mensagem ao povo brasileiro, que a Igreja não indica candidatos nem partidos. Ao mesmo tempo, afirma que a fé cristã e a Doutrina Social da Igreja têm consequências para a vida pública, especialmente na defesa da dignidade humana, da vida e do bem comum.

E Maria continua dizendo a mesma coisa: voltem para o meu Filho.

Uma fé que não pode ser apenas cultural

Talvez este seja o ponto mais exigente da devoção a Nossa Senhora Aparecida.

Não basta um país declarar-se católico.

Não basta uma imagem de Maria em uma casa.

Não basta carregar um terço.

Não basta recorrer a Deus quando precisamos de alguma coisa.

A fé católica é uma forma de vida.

Por isso a mensagem de Fátima permanece tão exigente. Entre as palavras que condensam a mensagem de Fátima estão adoração, conversão, oração e penitência.

E La Salette apresenta a mesma lógica espiritual. Em 1846, a Senhora apareceu chorando e chamou os seus filhos à conversão e à penitência. A imagem da Virgem das Lágrimas não é uma decoração piedosa: é uma advertência materna diante do pecado e do afastamento de Deus.

Fátima e La Salette, cada uma em seu contexto e dentro do discernimento da Igreja, recordam uma verdade simples: não existe devoção mariana autêntica sem conversão.

Maria não nos consola para que continuemos iguais.

Maria nos consola para que voltemos a Cristo.

O Brasil aos pés da Padroeira

É significativo que, em 2026, os bispos brasileiros tenham iniciado sua Assembleia Geral justamente diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida.

Não porque a Igreja precise escolher um lado político.

Mas porque a Igreja precisa recordar de que lado está.

Está de Cristo.

E é precisamente por isso que pode servir a todos, dialogar com todos, defender a dignidade de todos e chamar todos à conversão.

A CNBB confiou novamente a missão do novo arcebispo de Aparecida à intercessão de Nossa Senhora, chamando-a de “padroeira do Brasil” e pedindo que ela seja guia e intercessora.

Eis a perspectiva correta.

Não precisamos de uma Nossa Senhora capturada pela política.

Precisamos de uma Igreja suficientemente livre para anunciar Cristo a quem governa e a quem é governado; a quem vence e a quem perde; a quem concorda e a quem discorda.

Não nos resta que rezar

Por isso, aos pés de Nossa Senhora Aparecida, a oração pelo Brasil não deve ser uma oração para que Deus realize os nossos projetos.

Deve ser uma oração para que nós realizemos a vontade de Deus.

Que Maria ensine as famílias brasileiras a rezar.

Que ensine os pais a transmitir a fé.

Que ensine os jovens a não ter vergonha de Cristo.

Que ensine os católicos a não reduzirem o Evangelho a opiniões políticas.

Que ensine os homens públicos a compreenderem que toda autoridade é serviço.

Que ensine a Igreja a permanecer livre diante de todo poder humano.

E que ensine o Brasil a reencontrar aquilo que está no centro de sua própria devoção mariana:

Jesus Cristo.

Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, não precisa que o Brasil a transforme em símbolo de uma causa humana.

Precisa que o Brasil escute sua única grande mensagem:

“Fazei tudo o que Ele vos disser.”

Então, sim, não nos resta que rezar.

Mas rezar de verdade.

Com o terço nas mãos, a Palavra no coração e a vida disposta à conversão.

Porque uma nação não se torna cristã apenas por suas tradições.

Torna-se cristã quando seus filhos começam, de fato, a viver como discípulos de Cristo.

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