Os bispos do Brasil diante das urnas
Certa vez, em uma paróquia em uma cidade do interior um padre estava saindo da escola em que votou e uma senhora questionou: Padre também vota?
Brincando, o sacerdote disse: A senhora deve estar se confundindo, padre não se casa, mas vota. Aliás, não é simples para um padre votar. Precisa ser um dos primeiros a votar para conduzir as Missas do domingo; ou entre uma celebração e outra passar no local de votação. Além disso, a cada transferência de paróquia precisa também mudar o domicílio eleitoral.
Tem outra questão ligada à Igreja e às eleições. Padre vota, mas não pede voto; Padre também não pode ser filiado a partido político. E quando um padre resolve ser candidato ele precisa se afastar do ministério. mesmo que na urna o nome esteja de padre, ele está afastado do ministério devido as eleições e o eventual cargo que ocupe.
Numa arena onde a política e a religião frequentemente colidem de forma explosiva, a Igreja Católica, por meio de seus padres e bispos, a Igreja não se omite. Longe de impor bandeiras partidárias ou indicar candidatos de palanque, os padres e bispos brasileiros lançaram um conjunto de reflexões incisivas, verdadeiros manifestos de lucidez republicana e evangélica que convocam o eleitor a resgatar a responsabilidade, a memória histórica e a verdade nua e crua dos fatos, indo além das notícias falsas e dos boatos.
O perigo da desinformação e a ligeireza com que boatos circulam nas redes sociais foram o alvo inicial de severas advertências episcopais. Para o arcebispo de Natal, Dom João Santos Cardoso, a era digital potencializou o fenômeno pernicioso do testemunho de “ouvir dizer”, onde narrativas repetidas à exaustão adquirem a falsa aparência de fatos imutáveis. Inspirando-se na profecia bíblica de Isaías — que narra que o Messias não julgaria pelas aparências nem por boatos —, Dom João alertou que “a repetição não transforma uma narrativa em fato”. O arcebispo enfatizou ainda que “a justiça exige que rumores não se convertam em sentenças e que a força da repetição não substitua a verdade dos fatos”.
Nessa mesma toada de resguardo institucional e histórico, o bispo de Campos (RJ), Dom Roberto Francisco Ferreira Paz, lembrou a importância de ancorar o voto no chão firme da Constituição de 1988, a chamada Constituição Cidadã. Convocando o eleitorado a um discernimento fundamentado, Dom Roberto apontou que o processo eleitoral “não pode ser um ato de irresponsabilidade ou somente para cumprir o calendário eleitoral e muito menos uma adesão personalista e superficial”. Para o bispo, o voto exige a consciência de “quem somos, de onde viemos e para onde queremos ir”, avaliando com rigor se o projeto de nação em disputa “vai fazer avançar o processo democrático tornando-o mais participativo ou vai retirar direitos da Constituição”.
Política e caridade
Aprofundando a dimensão moral e espiritual do sufrágio, o bispo da Prelazia do Marajó, Dom José Ionilton Lisboa de Oliveira, recordou o ensinamento do Papa Francisco de que “a política é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum”. Dom Ionilton convocou os católicos a rejeitarem o voto de revolta, ódio ou protesto cego, lembrando que o compromisso cristão exige um voto consciente, livre e responsável. “Quem propõe ações contrárias ao amor, foge da proposta de Jesus e não merece o nosso voto”, pontuou o bispo, enumerando que propostas de ódio, perseguição ou desrespeito aos vulneráveis são radicalmente incompatíveis com o Evangelho.
Essa preocupação com a ética na vida pública também norteou a reflexão do arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, que denunciou a degradação do debate político por parte de candidatos focados na demolição moral do adversário. “Significativa parte da classe política busca simplesmente validar a própria imagem, inclusive a partir de falácias ou do costumeiro ato de promover a desmoralização do adversário”, criticou Dom Walmor, alertando para o veneno corrosivo do relativismo ético e recordando que “uma democracia sem valores se converte em um totalitarismo aberto ou dissimulado”.
Fechando o coro episcopal, o bispo de Santa Cruz do Sul, Dom Itacir Brassiani, apontou a chaga contemporânea da mercantilização do sagrado. Criticando severamente “uma espécie de captura da religião pelos interesses políticos e mercadológicos”, Dom Itacir lembrou com clareza cirúrgica que, ao contrário de outras correntes, a Igreja Católica não impõe partidos nem candidatos, mas oferece critérios inegociáveis para o discernimento: “a busca do bem comum; a defesa dos direitos humanos, da democracia e da soberania nacional; o cuidado da casa comum; a primazia incondicional dos pobres e vulneráveis e a dignidade da vida de todos”.
Nas palavras firmes do episcopado, o voto deixa de ser mero ato burocrático para se transformar em um supremo exercício de conversão social e salvaguarda da dignidade humana.

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