Pregador da Cúria Romana propõe ‘êxodo quaresmal do egocentrismo e do orgulho’
O monge trapista e bispo de Trondheim, Noruega, Erik Varden, exortou as pessoas a empreender “um êxodo quaresmal do egocentrismo e do orgulho”, na segunda meditação dos exercícios espirituais que conduziu ontem (23) para o papa Leão XIV e Cúria Romana na capela Paulina.
O ciclo Iluminado por uma Glória Oculta de meditações iniciado no último domingo (22) tem como fonte são Bernardo de Claraval (1090-1153), soldado e asceta, conselheiro de príncipes e diretor de almas, fundador de mosteiros e da ordem cisterciense e mediador em conflitos políticos.
Varden apresentou a figura do monge, que com 25 anos tornou-se abade de Clairvaux, como um modelo para uma jornada quaresmal de conversão.
Segundo o bispo norueguês, a doutrina de são Bernardo sobre a conversão deriva "da luta pessoal, do aprendizado de não presumir que o próprio caminho seja sempre o correto".
É um processo de aprendizagem forjado “pela experiência, pelas feridas e pelas provocações”, que leva a pôr em dúvida as próprias presunções e a maravilhar-se com “a justiça misericordiosa de Deus”, disse ele.
Varden disse que o santo medieval é “um excelente companheiro para qualquer pessoa que embarque num êxodo quaresmal do egocentrismo e do orgulho”, determinada a buscar a verdade sobre si mesma “com o olhar fixo no amor de Deus que ilumina tudo”.
Inovação e reforma no século XII
O bispo disse que são Bernardo se destacou no século XII por seu carisma extraordinário e ética de trabalho. Quando o mosteiro cisterciense, fundado por Roberto de Molesme em 1098, estava só começando a tomar forma, Bernardo decidiu ingressar nele, apesar da oposição de sua família.
Ele não só perseverou em seu propósito, como também convenceu cerca de 30 parentes e amigos a se juntarem a ele. Essa onda de vocações forneceu um impulso decisivo para a nascente reforma cisterciense à qual o bispo Varden pertence.
“Foi ao mesmo tempo uma inovação e uma reforma”, disse Varden. Os fundadores chamaram sua casa de novum monasterium, um projeto que “não nasceu como uma reação contra nada nem ninguém”.
“Ainda bem, porque projetos puramente reacionários, mais cedo ou mais tarde, acabam não levando a lugar nenhum”, disse ele.
No primeiro dia dos exercícios espirituais, no último domingo (23), o bispo também exortou os cristãos a resistir ao uso do Evangelho como arma política e a avaliar a fé autêntica pela fidelidade a Cristo e pela paz que os fiéis personificam.
“A fidelidade ao exemplo e aos mandamentos de Cristo é a marca da sinceridade cristã”, disse Varden em sua primeira meditação, proferida na Capela Paulina no retiro do papa Leão XIV e de membros da Cúria.
“A extensão da paz que incorporamos — aquela paz especial que o mundo não pode dar — indica a presença constante de Jesus em nós”, disse ele. “Precisamos enfatizar isso agora, quando o Evangelho às vezes é usado como arma em guerras culturais”.
Varden pediu aos cristãos que se oponham à "instrumentalização da linguagem e dos sinais cristãos", não só com indignação, mas ensinando o que é a verdadeira luta espiritual.
“A instrumentalização da linguagem e dos símbolos cristãos deve ser contestada, não só com uma indignação tímida, mas ensinando os termos da autêntica guerra espiritual”, disse ele. “Porque a paz cristã não é uma promessa de facilidade, mas uma condição para a transformação da sociedade”.
Na mesma meditação, Varden apontou a raiva como um perigo espiritual, citando são João Clímaco: "Não há obstáculo maior à presença do Espírito em nós do que a raiva".
Ele falou sobre a disciplina quaresmal da Igreja como um "programa" marcado pela clareza e pela paz.
O arcebispo que a Quaresma “nos confronta com o essencial”, eliminando distrações e convidando “à abstinência dos sentidos”, enquanto convoca os fiéis a lutar contra os vícios e as paixões nocivas com um simples “sim, sim” e “não, não”.
Varden disse que a liturgia da Igreja estabelece esse tom desde o início da Quaresma, observando o canto tradicional do Salmo 90 (91), Qui habitat, que é cantado no primeiro domingo da Quaresma, quando o Evangelho fala sobre a tentação de Cristo no deserto.
De ateu a bispo
Nascido em 1974, Erik Varden tem um perfil incomum entre os pregadores dos retiros da Cúria. Ele falou em várias ocasiões sobre sua jornada pessoal do ateísmo à fé cristã, um caminho que culminou em seu ingresso na Ordem Cisterciense depois de seus estudos nas ilhas Britânicas. Anos depois, ele voltou ao seu país natal, onde foi nomeado bispo de Trondheim.
Seus livros de espiritualidade como Sobre a Conversão Cristã: Entrando no Duplo Mistério, em que exorta os leitores a reorientar suas vidas para Deus, atravessando a dor e a alegria humanas, e Feridas que Curam, em que combina reflexão teológica com experiência pessoal, alcançaram reconhecimento internacional.
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