Cardeais exortam Fraternidade São Pio X a não ordenar bispos sem a Santa Sé
Os cardeais Gerhard Müller e Robert Sarah, defensores da missa tradicional anterior à reforma do Concílio Vaticano II, manifestaram-se contra a decisão da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) de desafiar a Santa Sé e ordenar bispos em 1º de julho.
A decisão de prosseguir com as ordenações episcopais sem a aprovação do papa foi reafirmada numa carta de 18 de fevereiro , escrita pelo superior geral da FSSPX, padre Davide Pagliarani, uma semana depois de seu encontro em 12 de fevereiro com o cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé (DDF).
Na carta, o grupo católico tradicionalista disse que não poderia “aceitar a perspectiva e os objetivos” para a retomada do diálogo propostos pelo prefeito da DDF, dizendo que as consagrações de 1º de julho “não constituiriam uma ruptura de comunhão” com a Igreja.
A FSSPX, que celebra exclusivamente a missa tridentina, mantém divergências doutrinais com decisões e reformas do Concílio Vaticano II.
Segundo o direito canônico, um bispo que consagra outro bispo sem mandato papal e a pessoa que recebe essa consagração incorrem em excomunhão automática.
Müller, que foi prefeito da então Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) de 2012 a 2017, divulgou uma longa declaração no último sábado (21), dizendo que “as sensibilidades pessoais devem ficar em segundo plano” para o bem da unidade da Igreja.
“Se a Fraternidade São Pio X pretende ter um impacto positivo na história da Igreja, não pode lutar pela verdadeira fé à distância, de fora, contra a Igreja unida ao papa”, escreveu Müller.
Falando sobre a importância de a FSSPX reconhecer a autoridade papal “não só na teoria, mas também na prática”, o cardeal alemão disse que a sociedade deve submeter-se à autoridade doutrinária da Igreja “sem pré-condições”.
“Nenhum católico ortodoxo pode invocar razões de consciência se se afastar da autoridade formal do papa em relação à unidade visível da Igreja sacramental para estabelecer uma ordem eclesiástica que não esteja em plena comunhão com ele”, disse Müller.
No fim de semana, Sarah, que foi prefeito da então Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos de 2014 a 2021, também falou sobre sua “profunda preocupação e tristeza” depois de a FSSPX confirmar sua decisão de ordenar bispos sem um mandato papal.
“Será que o desejo de salvar almas justifica a divisão irreversível do corpo místico de Cristo?”, perguntou Sarah num artigo publicado no Le Journal du Dimanche no último domingo. “Quantas almas correm o risco de se perder por causa dessa nova divisão?”
“Sei o quanto o depósito da fé é por vezes desprezado hoje em dia justamente por aquelas pessoas cuja missão é defendê-lo”, escreveu o cardeal aceitando a veracidade dos motivos alegados pela FSSPX. “Podemos realmente prescindir de seguir a Cristo em Sua humildade até a cruz?”, disse ele. “Não seria uma traição à tradição refugiar-se em meios humanos [e] manter nossas obras, por melhores que sejam?”
O bispo africano exortou para que a FSSPX se mantenha unida à Igreja fundada por Jesus Cristo e confiada aos cuidados dos apóstolos, em particular a são Pedro, o primeiro papa, e seus sucessores.
A data proposta de 1º de julho para as consagrações episcopais coincide com o aniversário da excomunhão, em 1988, do arcebispo Marcel Lefebvre, fundador da Fraternidade São Pio X (FSSPX), por ter consagrado quatro bispos sem a permissão de Roma.
A Sociedade de São Pio X não respondeu imediatamente a um pedido de comentário da EWTN News.
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