Por que está cada vez mais difícil conviver com quem pensa diferente nas urnas?
“Como alguém pode votar nele?”
“Depois de tudo o que aconteceu, você ainda pensa assim?”
“Se você vota nesse partido, não temos mais nada em comum.”
Talvez você já tenha ouvido, ou até dito alguma dessas frases.
O que deveria ser uma manifestação legítima de opiniões diferentes passou, muitas vezes, a ameaçar relacionamentos. Famílias evitam determinados assuntos, amigos se afastam e pessoas rompem vínculos porque descobriram que votam em candidatos diferentes.
Quando o voto vira identidade:
Uma das razões está no fato de que a política passou a ocupar um espaço importante na identidade de muitas pessoas. Não é mais apenas: “Eu votei nesse candidato.” É: “Eu sou desse lado.”
Quando uma posição política se torna parte da nossa identidade, qualquer crítica pode ser sentida como um ataque pessoal. A conversa deixa de ser sobre ideias e passa a ser uma disputa para provar quem está certo.
O problema do “nós” e “eles”:
Existe algo profundamente humano nessa dinâmica: tendemos a confiar mais em quem pertence ao nosso grupo e a enxergar o outro com desconfiança.
As redes sociais intensificam isso. Consumimos conteúdos que confirmam aquilo em que já acreditamos, seguimos pessoas que pensam como nós e passamos a enxergar o outro lado como exagerado, ignorante ou mal-intencionado. Mas a realidade é muito mais complexa.
Existem pessoas honestas e desonestas, inteligentes e desinformadas, generosas e egoístas em diferentes grupos políticos.
Um voto não consegue resumir uma pessoa,discordar não significa ser inimigo. Talvez uma das maiores dificuldades do nosso tempo seja suportar a existência de alguém que discorda de nós sem sentir a necessidade de corrigi-lo imediatamente.
Temos dificuldade de dizer: “Eu entendo por que você pensa assim, embora eu discorde.”
Parece que precisamos escolher entre concordar ou combater. Mas existe uma terceira possibilidade: conviver.
Conviver não significa concordar. Significa reconhecer que o outro tem liberdade para chegar a conclusões diferentes das nossas. E isso exige maturidade. O voto revela muito, mas não revela tudo
Nossas escolhas políticas podem revelar valores, prioridades e preocupações. Mas não contam toda a nossa história. Alguém pode votar em determinado candidato por uma pauta específica, por esperança, por medo, por rejeição ao adversário ou simplesmente por acreditar que aquela era a opção menos ruim.
Reduzir toda essa complexidade a “ele é uma pessoa daquele lado” é uma maneira muito pobre de compreender o ser humano.
Precisamos recuperar a capacidade de conversar:
Talvez uma das atitudes mais necessárias atualmente seja escutar alguém que pensa diferente sem preparar imediatamente uma resposta.
Perguntar:
“Por que você pensa assim?”
“De onde vem essa sua preocupação?”
“O que fez você chegar a essa conclusão?”
Não para encontrar uma brecha para atacar, mas para compreender. Isso não significa abandonar nossas convicções, podemos defender nossas ideias com firmeza sem transformar o outro em inimigo.
A pessoa que votou diferente de você continua sendo mãe, pai, filho, irmão, amigo, colega ou vizinho, continua tendo uma história que você desconhece, dores, esperanças e valores e continua sendo muito mais do que o voto que depositou na urna.
A maturidade política começa quando conseguimos discordar:
Uma democracia saudável não é aquela em que todos pensam da mesma maneira. É aquela em que pessoas diferentes conseguem viver juntas apesar das diferenças.
Precisamos aprender novamente que discordar não é uma forma de violência. Nenhuma pessoa possui o monopólio da virtude, assim como nenhum grupo possui o monopólio do erro.
Quando acreditamos que apenas o nosso lado é formado por pessoas boas e que o outro é composto exclusivamente por pessoas ruins ou ignorantes, já não estamos apenas discutindo política. Estamos criando uma guerra de identidades.
E a guerra não termina quando acaba a eleição: a urna passa, as relações permanecem. Eleitores mudam, partidos mudam, governos terminam, eleições passam. Mas algumas relações podem não sobreviver à maneira como escolhemos viver esses períodos.
Talvez valha a pena perguntar antes de entrar em uma discussão política: “Eu realmente quero convencer essa pessoa ou quero apenas provar que estou certo?”
São coisas muito diferentes.
Talvez não seja possível mudar o voto do outro, ms é possível escolher como vamos tratá-lo. Podemos discordar sem humilhar, argumentar sem agredir e defender nossos valores sem desumanizar quem pensa diferente. Porque uma sociedade madura não é aquela em que todos votam igual.
É aquela em que conseguimos sustentar aquilo em que acreditamos sem transformar quem discorda de nós em nosso inimigo.
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